Agenda
Artigos
Boletim
Campanhas
Enquetes
Notícias
Press Releases

 

 
 

 
Principal > Comunicação > Notícias

notícias

Por trás da fumaça (11/9/2007)
Fabiana Fregona

Fonte: Folha de S.Paulo
Folhateen
3 de setembro de 2007

Por trás da fumaça

Consumo de cigarros entre jovens é alto e começa cedo; as meninas já
experimentam tanto ou mais que os meninos

saúde

TARSO ARAUJO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Conheço os males do cigarro. Mas, hoje em dia, o que não faz algum mal para
a saúde? Não é possível que eu tenha que me privar de tudo para poder chegar
aos 80 anos. Prefiro morrer com 50 e ter aproveitado muito bem a vida, diz
a estudante carioca Thais Vieira Griffo, 17. Ela fuma regularmente desde os
15 e colocou o primeiro cigarro na boca aos 12. E não está sozinha.
O depoimento dela reflete a maneira de pensar de muitos jovens que vão
contra a corrente da geração saúde e que entraram na cortina de fumaça antes
de completar a maioridade.
É o que comprova um dos estudos mais amplos já feitos no Brasil, cujos dados
começam a ser divulgados nesta quarta. Realizada pela equipe da Unidade de
Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal de SP, a pesquisa mostra
que 20,8% da população brasileira é dependente de tabaco, e a experiência
com o cigarro começa aos 13,5 anos.
Entre os jovens que hoje têm 14 a 17 anos, o percentual de dependência é de
6%. E, nesse grupo, as meninas estão experimentando tanto ou mais que os
meninos. É preocupante porque dois terços deles seguirão fumantes pelo
resto da vida e terão doenças decorrentes do cigarro. E as mulheres são mais
sensíveis aos problemas causados pelo cigarro, diz a psiquiatra Ana Cecília
Marques, uma das autoras do estudo.

Dependência não é opção
A maioria dos jovens começa com amigos, por curiosidade, e não pára mais.
Estava na escola, saí para almoçar com umas amigas que fumavam e resolvi
experimentar. Aí comecei a fumar quando ia na casa delas ou quando íamos a
alguma festa, diz a estudante paulista Carol, que tem 13 anos, fuma
ocasionalmente desde o ano passado e preferiu não publicar seu nome
verdadeiro para não arrumar briga em casa.
Só tenho medo de ficar viciada, diz Carol. Para a psiquiatra Sandra
Scivoletto, chefe do Ambulatório de Adolescentes e Drogas da Faculdade de
Medicina da USP, a preocupação dela faz sentido: Quanto mais cedo se começa
a fumar, mais fácil é criar dependência, e mais difícil largar o hábito,
diz. E muitos nem percebem que já entraram nesse estágio.
Eu não pretendo me viciar. Quando reparar que a coisa está se encaminhando
para esse lado, eu paro, diz o estudante Fernando, 17, de Porto Alegre. O
detalhe é que ele consome de 3 a 5 cigarros por dia, o suficiente para
caracterizar um quadro de dependência.
Os adolescentes costumam ter a fantasia de que dependência é uma opção. Mas
são raras as pessoas que conseguem usar cigarro socialmente, até a vida
adulta, e não desenvolver dependência, afirma Scivoletto. Mas se parar de
fumar é difícil, começar é outra história.

Cigarro barato
Uma das coisas que ajuda bastante é o acesso que os jovens têm ao cigarro.
Eu fumo desde os 14 e nunca me pediram identidade. Não tem essa de que
vender cigarro é proibido para menor, diz a estudante paulista Bárbara
Barbosa Farias, 18, enquanto fuma um cigarro em frente ao cursinho. Não é só
ela que acha fácil.
Mais de 75% dos jovens não precisam mostrar identidade para comprar cigarro,
segundo o Vigescola, estudo sobre tabagismo feito periodicamente pelo
Ministério da Saúde em escolas de capitais brasileiras.
Não acho caro. É mais barato que uma garrafa de cerveja, por exemplo, diz
Karla Shinoda, 18, que faz cursinho e ainda depende da grana dos pais.
Em 2003, a OMS fez um levantamento sobre o preço do cigarro e chegou a uma
conclusão parecida com a de Karla: o Brasil tem o sexto cigarro mais barato
do mundo. Um maço que custa R$ 2,80 aqui é oito vezes mais caro na
Inglaterra.
Além da boa política de preços, a indústria também tenta atrair os
adolescentes com pessoas jovens e bonitas nas propagandas dos pontos de
venda -único lugar onde podem anunciar no Brasil, desde 2001.
Mas muitos jovens não precisam sair de casa para receber alguma influência a
favor do cigarro -cerca de 40% deles têm pelo menos um pai fumante, segundo
o Vigescola.
Minha mãe fumava e meu pai ainda fuma. Eles sempre falaram que cigarro faz
mal. Mas acabei fumando também, diz Thais. A mãe dela, a professora Renata
Vieira, 37, reconhece a responsabilidade.
A gente sabe que nossas atitudes valem mais para os filhos do que o que
falamos. Mas nossa influência pode incentivar o mesmo comportamento ou o
contrário, porque ela também viu todo meu sofrimento para parar, diz a mãe,
que largou 20 anos de vício em 2006.

Cinqüenta anos de mentiras

MARIO CESAR CARVALHO
DA REPORTAGEM LOCAL

Poder, corrupção e mentiras. O título do disco do New Order (Power,
Corruption and Lies, no original) pode ser usado como um resumo da ópera da
história do cigarro no século 20. A mãe de todas as mentiras -e de todas as
fraudes- foi criada em 1953 nos EUA, pela Burson-Marstellar, a maior agência
de relações públicas do mundo. Foi essa agência que criou a lengalenga,
repetida até os anos 90, de que não havia provas científicas de que cigarro
causava câncer.
Em 1953, um cientista alemão chamado Ernest Wynder descobriu as primeiras
evidências de que tabaco provocava câncer em ratos. Pesquisas feitas pelas
fábricas mostravam o mesmo resultado.
A indústria entrou em pânico. E optou pela fraude. Publicou anúncios em mais
de 500 jornais nos EUA prometendo contar tudo que soubesse sobre os efeitos
do cigarro.
A tática da mentira mil vezes repetida (não há evidências) durou até os
anos 90. Foi nessa época que todos os documentos internos da indústria
vieram à tona numa batalha judicial. O que se viu era tão chocante que as
fábricas foram condenadas nos EUA a pagar a maior indenização da história
(US$ 246 bilhões) por fraudes contra a saúde pública.
O cigarro matou 100 milhões de vítimas no século 20, mais do que em todas as
guerras somadas. Por isso, quando você acender um cigarro, dedique uma
tragada aos deuses da mentira. Foi a mentira que transformou um produto
letal em algo aparentemente banal.

Mulheres são novo alvo

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

No início de 2007, a R.J. Reynolds lançou nos EUA o Camel Nº 9. Com uma
elegante embalagem preta, o nome que sugere uma fragrância de perfume -e
anúncios com ramos de flores- acendeu uma polêmica.
Para congressistas e ONGs antifumo americanas, o alvo do novo cigarro são as
mulheres adolescentes, especialmente as ligadas em moda. Um grupo de 46 ONGs
pediu à empresa a retirada do produto do mercado. E 40 congressistas se
manifestaram contra a publicação desses anúncios em revistas de moda, como
Vogue e W (foto abaixo).
A Souza Cruz declarou ao Folhateen que não há projeto previsto para a
extensão da marca Camel no Brasil. (TA)

Retrato do fumante enquanto vivo

A Organização Mundial da Saúde considera o tabaco responsável pela morte de
um em cada dez adultos no mundo: um total de 5 milhões de mortes por ano.
Veja aqui o que ele pode fazer por você:

Cérebro
A nicotina inalada no cigarro atinge o cérebro em 8 segundos, onde tem um
potencial comparável ao da heroína para viciar. De 30% a 50% das pessoas que
fumam desenvolvem algum tipo de dependência e 70% a 90% dos fumantes
regulares sào viciados. Apenas 6% dos que tentam parar conseguem ficar mais
de um mês sem fumar.

Pele
O cigarro diminui o calibre das veias, o que diminui a irrigação sangüínea
da pele e diminui a chegada de oxigênio e nutrientes para as células. O
resultado é um envelhecimento precoce da pele, com rugas em média 20 anos
mais cedo que não fumantes.

Olho
Estudos mostram que fumar aumenta em até 3 vezes o risco de catarata, doença
nos olhos que diminui progressivamente a visão e é a principal causa de
cegueira no mundo.

Pele
Entre as mulheres, o cigarro aumenta em mais de 3 vezes o risco de
desenvolver psoríase, doença sem cura que causa feridas na pele. Entre os
homens, ela não chega a causar a doença, mas agrava os sintomas naqueles que
já sofrem com ela.

Boca
Além de dar mau hálito e dentes amarelados, fumar aumenta de 4 a 15 vezes a
chance de ter câncer de boca, dependendo do quanto se fuma. E mais de 60%
das pessoas que diagnosticam esse câncer não tem chance de curá-lo.

Garganta
Pigarro não é a única coisa que o cigarro traz para a garganta. Ele também é
o principal fator de risco para o câncer de garganta, que só no Brasil
registra 6 600 novos casos e é causa de 3 500 mortes por ano.

Pulmão
Quem fuma muito tem 20 a 30 vezes mais chances de ter câncer de pulmão. Ele
é o câncer que mais mata homens no Brasil, e, desde 2002, o segundo que mais
mata mulheres. De 80% a 90% dos casos da doença matam em menos de 5 anos.
Além disso, o fumante diminui sua capacidade respiratória e tem maiores
chances de ter qualquer doença respiratória, como bronquite e enfisema.

Estômago
A nicotina aumenta a acidez do estômago e, conseqüentemente, as chances de
gastrite e úlcera. As úlceras demoram mais para cicatrizar e voltam com mais
facilidade nos fumantes. Ah, e o tabaco também é fator de risco para o
câncer de estômago, que atingiu cerca de 26 mil pessoas no Brasil em 2006.

Coração
O fumo aumenta a pressão arterial, diminui a capacidade respiratória e
aumenta a coagulação sanguínea. Resultado: chances 2 a 3 vezes maiores de
morrer por doenças cardiovasculares, como derrame e enfarto. Estudos mostram
que o risco de enfarto é ainda maior entre mulheres, especialmente para as
que usam anticoncepcionais orais.

Ossos
A osteoporose é um processo de perda de minerais e enfraquecimento dos
ossos, que os deixa muito mais fáceis de quebrar. O cigarro é um dos fatores
que mais acelera esse processo, mais comum entre as mulheres. Estima-se que
uma em cada oito fraturas da cintura são causadas pelo fumo.

Sistema reprodutor
O fumo causa problemas vasculares que aumentam a chance de impotência nos
homens. Entre as mulheres fumantes, ele aumenta as chances de menopausa
precoce, infertilidade e problemas com a menstruação.

Fumo passivo
A fumaça que deixa seu cabelo fedorento na balada é bem mais perigosa do que
parece. Ela contém uma concentração maior de substâncias cancerígenas que a
inalada pelos fumantes. O risco de câncer de pulmão é 30% maior entre
não-fumantes expostos ao cigarro do que entre os que não têm contato com a
fumaça.

Tem o lado bom
A nicotina é uma droga estimulante que estimula a produção de substâncias no
cérebro ligadas ao prazer. Por isso, ela diminui o estresse e a ansiedade,
e, nos dependentes, essa sensação é especialmente maior por causa do
desconforto causado pela abstinência.
Várias pesquisas mostram que fumantes têm menos chances de ter Mal de
Alzheimer e Mal de Parkinson. Elas tentam entender como esse processo
funciona em busca de novas terapias para as doenças.
Também existem estudos mostrando que algumas pessoas têm uma capacidade
maior de memória e concentração quando estão sob efeito da droga.

 
ACT | Aliança de Controle do Tabagismo
Rua Batataes, 602, cj 31, CEP 01423-010, São Paulo, SP | Tel/fax 11 3284-7778, 2548-5979
Av. N. Sa. Copacabana, 330/404, CEP 22020-001, Rio de Janeiro, RJ | Tel/fax 21 2255-0520, 2255-0630
actbr.org.br | act@actbr.org.br
FW2