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O CIGARRO É UMA DROGA (14/10/2006)
Jose Inacio Werneck

Fonte: http://www.intellibusiness.com.br/diretodaredacao/noticias/index.php?not=2944

Bristol (EUA) – Segundo Hugo Bidet, figura muito conhecida no Rio de Janeiro nos tempos do Pasquim, “intelectual não vai à praia, intelectual bebe”. Em outras palavras, quem descesse a então rua Montenegro a caminho de Ipanema e a juventude de pele dourada que se banhava ao sol, obraria bem em ficar no Veloso, simpático botequim na esquina com a Prudente de Morais.

Foi ali que Vinicius e Tom, fiéis ao princípio de Bidet, sempre se deixavam estar e eram testemunhas das meneantes idas e vindas de Heloísa Eneida, a musa da canção que acabou trocando o nome do boteco para Garota de Ipanema e o da rua para Vinícius de Morais.

Mas se jornalista também é intelectual, faz-se justo acrescentar que intelectual não apenas bebia: intelectual fumava – e muito. Iniciei-me na carreira em 1962 e, por mais que dê tratos à bola, não consigo recordar um único jornalista naquele ano já longínquo que não vivesse (ou morresse) no ritmo eterno das redações: alguns parágrafos datilografados numa pesada mas destemida Olivetti, uma tragada no cigarro, uma rápida investida em direção à garrafa térmica sempre cheia de um café forte e muito açucarado.

Às sextas-feiras, era de rigor uma expedição ao Lamas, no Largo do Machado, onde espantosas doses de uísque e chope, em meio a grandes nuvens de fumaça, nos faziam adentrar o fim de semana com gosto de cabo de guarda-chuva na boca.

Um sábado, em novembro de 1968, acordei e disse a mim mesmo que deixaria de fumar, pelo único método que acreditava possível: de supetão, no peito e na raça, o que os americanos chamam “cold turkey”. Em vez de tentar parar aos poucos ou, como alguns companheiros mais desesperados faziam, colocar um cigarro na boca sem acendê-lo, rompi ali relações com a nicotina. Sofri horrores, mas o rompimento foi para todo o sempre.

Agora, leio na imprensa brasileira que os fumantes franceses estão “indignados” com a decisão do governo de seu país, de proibir o fumo em lugares públicos, aí incluídos bares e restaurantes, num processo por etapas que se iniciará em fevereiro do próximo ano. Prometem resistir, recorrer à Justiça. Os proprietários dos estabelecimentos declaram que terão “imensos prejuízos”.

Mas sei o que vai se passar. A lei entrará em vigor e, muito em breve, os franceses a respeitarão, como os americanos a respeitam, os escoceses a respeitam (a partir de julho de 2007 será todo o Reino Unido), os irlandeses a respeitam, os noruegueses a respeitam, os malteses a respeitam e, pasmem, os italianos a respeitam. A proibição de fumar em lugares públicos entrou em vigor na península em 10 de janeiro de 2005 e, um ano mais tarde, quando se falou em repeli-la, uma pesquisa de opinião mostrou que 85% dos habitantes a apoiavam. A proibição foi mantida, mesmo porque belos pratos e até meros hors d’oeuvres sabem melhor quando não estão impregnados com o cheiro da nicotina.

Textos literários e obras teatrais deixavam claro que, no século XIX, era de bom tom pedir aos circunstantes licença para fumar. O massacrante marketing das empresas tabagísticas cedo virou o costume de cabeça para baixo: era de bom tom não reclamar quando os outros fumavam, porque todos fumavam. Artistas de cinema eram (e são) pagos para, sob qualquer pretexto, e mesmo sem pretexto, acender um cigarro e aparecer nas telas a dar boas baforadas.

O cigarro, afinal, é uma droga. Quem quiser intoxicar-se que o faça em sua vida privada, sem obrigar o fumante passivo a sofrer as conseqüências.

 
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