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Fumicultura x Produção Agroecológica (19/12/2009)
Folha de Londrina

19/12/2009
Agricultura que faz bem
Produtores da região Centro-Sul do Estado trocam a fumicultura por produção agroecológica; ganham e oferecem vida nova

Na área rural do município de Irati, região centro-sul do Paraná, a estradinha estreita e sinuosa, coberta pela neblina baixa de uma manhã fresca de primavera, leva ao início de uma corrente da agricultura que só faz bem. Cercado de verde por todos os lados, o caminho indica que, por sorte, ainda tem muita natureza preservada por aquelas bandas. E a terra branca vai indicando a personalidade do local, feito de moradores com alma simples e tranquila.

A cerca de 15 quilômetros da área urbana, em uma das propriedades da Comunidade do Arroio, um grupo de agricultores conversa e ri, enquanto carpe o mato que cobre a produção do feijão. Recebe quem chega com um bom dia tímido, mas aconchegante. Com as mãos sujas que carregam a enxada, o produtor Roberto Carlos dos Santos, se aproxima dos visitantes, amassando os pés descalços na terra fofa e úmida. Desculpa, eu estou assim descalço, mas é que é melhor para trabalhar, vou sentindo a terra em mim, me acalmo, justifica, sem necessidade.

Nascido na área rural, ali mesmo na comunidade, ele conta que a agricultura é sua vida, e a terrinha onde planta suas coisinhas o seu canto preferido do mundo. Disso (a terra) eu conheço, afirma. Santos tem 40 anos, todos vividos em Irati e na atividade agrícola. Hoje, na propriedade de um hectare, planta uma variedade de alimentos - de grãos a frutas e hortaliças - todos da mesma maneira que fazia o pai há mais de 30 anos. Aqui é tudo orgânico, nada de agrotóxicos, nada de venenos. Adubo, só o preparado naturalmente aqui mesmo na propriedade, revela.

A maior parte do que produz é vendida e encaminhada a escolas, creches, asilos e outras entidades com fins filantrópicos, por meio do Programa de Aquisição de Alimentos, executado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Outro tanto da produção é vendido em feiras ou sacolões, como foi batizado pelos produtores do local a venda desses produtos feita de porta em porta em um caminhão. Dá para tirar uma renda boa para mim e para a família. E também não precisamos comprar alimentos, tiramos tudo daqui e com a garantia de que foi bem feito e é saudável, acrescenta o agricultor, casado e pai de duas filhas, uma de 8 e outra de 17 anos. Hoje, a renda do agricultor é um pouco mais do que um salário mínimo.

A história de Santos, entretanto, nem sempre foi assim. Não reflete a realidade da produção agrícola da região, contudo serve de estímulo para quem quer mudar de caminho. É que durante uns 15 anos, ele e a família produziram fumo - assim como grande parte dos agricultores da região - e sofriam com o trabalho pesado. O agricultor conta que começou a trabalhar na fumicultura porque o apresentaram uma proposta irrecusável. Disseram (os instrutores das empresas) que era rentável, que era melhor que a produção de alimentos. A gente caiu, lamenta.

Com o tempo, rememora, percebeu que a realidade era outra, bem diferente. A gente trabalhava dia e noite e o que arrecadava mal dava para comprar comida, recorda. A gente sofria porque era uma produção que usava muito agrotóxico e causava muitos problemas de saúde. Eu mesmo tive problemas emocionais. Soube de gente que até se suicidou porque entrou em depressão. Conheci pessoas com doenças que podem ter sido causadas pelo fumo, relata o agricultor. Segundo ele e entidades que atendem produtores que estão saindo da fumicultura, os agrotóxicos utilizados nessa atividade podem atingir o sistema nervoso e provocar, entre outros problemas de saúde, a depressão. Estima-se que entre 80% e 90% dos produtores da região cultivam fumo.

Mudando de vida

Depois de frequentar a escola de formação de agricultores, Terra Solidária, onde aprendeu a produzir alimentos de forma ecológica, Santos decidiu abandonar o fumo e reiniciar a produção de alimentos. Depois de cinco anos de retorno à atividade, ele diz que agora tem sentido os benefícios. Tive que trabalhar a terra, manejar de forma que os resíduos da outra produção não ficassem impregnados no solo. Hoje sei que faço o bem para a minha família, para as pessoas que consomem os alimentos que foram produzidos por mim e também para o meio ambiente, confessa o produtor, que também faz parte da Associação dos Grupos de Agricultura Ecológica São Francisco de Assis (Assis), a qual objetiva basicamente apresentar aos produtores maneiras sustentáveis de se fazer agricultura.

Na propriedade dele, além do uso de biofertilizantes, há o cuidado com a limpeza do local, com a destinação correta do lixo, reutilização da água e a preocupação de se fazer o trabalho em equipe, como manda a essência da agroecologia. Hoje meus vizinhos estão me ajudando a carpir o mato que cobre o meu feijão. Amanhã eu vou ajudá-los. É um processo coletivo. Trabalhamos a diversidade de cultura de alimentos e de pessoas, define Santos, com a simplicidade de quem sabe levar a vida de liberdade que o campo permite àqueles que deixam os sapatos de lado e vão amassar a terra com os pés descalços.

Erika Zanon
Reportagem Local
 

 
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