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Fumo passivo eleva risco cardiovascular em crianças e jovens (5/4/2010)
Folha de S. Paulo

Garotos na faixa dos oito aos 13 anos que convivem com fumantes já apresentam artérias alteradas, mostra estudo

Especialistas dizem que, se a exposição à fumaça for crônica, indivíduo poderá apresentar aterosclerose precoce, na fase adulta

RACHEL BOTELHO
DA REPORTAGEM LOCAL

O fumo passivo pode afetar a saúde das artérias bem mais cedo do que se acredita. Crianças e adolescentes que moram com pessoas fumantes já apresentam, em consequência, um espessamento das paredes dos vasos, conforme revela uma pesquisa finlandesa publicada no periódico "Circulation". Até este momento, esse efeito da exposição à fumaça do cigarro não havia sido estudado em menores de 18 anos.

A pesquisa envolveu 494 crianças de oito a 13 anos. Os cientistas mediram vários parâmetros que avaliam a saúde das artérias e verificaram que, nas pessoas expostas ao cigarro, os indicadores eram piores.

Os participantes foram divididos em grupos conforme os níveis de cotinina encontrados no sangue -esse subproduto da nicotina é o principal marcador para exposição à fumaça.

Um exame de ultrassom mediu o espessamento da aorta e da carótida. Os resultados da análise mostram que as crianças com mais cotinina no sangue tinham paredes das carótidas 7% mais espessas, em média, do que aquelas com níveis mais baixos da substância.
A aorta dos integrantes do grupo exposto à fumaça de cigarro mostrou-se 8% mais espessa, em média.

A flexibilidade das artérias do braço -ou fluxo da artéria braquial-, outro parâmetro da saúde dos vasos e do risco cardiovascular, mostrou-se 15% inferior nos adolescentes com níveis mais altos de cotinina. O colesterol desses pesquisados também estava elevado.

Infarto e derrame
Segundo a cardiologista Jaqueline Scholz Issa, diretora do programa de tratamento de tabagismo do InCor (Instituto do Coração), esses sinais podem anteceder ou ocorrer paralelamente à aterosclerose -estando, assim, diretamente associados a eventos cardiovasculares, como infarto e derrame.

A boa notícia é que o problema pode ser revertido. "Levam-se 24 horas para recuperar a disfunção endotelial que surge após meia hora de exposição a fumaça. Mas, se a exposição for crônica, com o tempo a pessoa poderá ter um evento cardiovascular agudo, como infarto ou AVC, se tiver outros fatores de risco", diz Issa.

Em outras palavras, a doença pode não se manifestar durante a infância, mas, se a criança ou o adolescente continuar exposto à fumaça, poderá apresentar aterosclerose mais precocemente do que pessoas que não convivem com o fumo.
"É uma pesquisa de ponta, com uma metodologia sofisticada e muitos adolescentes. É mais um dado que mostra que fumar em ambiente fechado não está com nada", afirma.

Fisiologia alterada
Segundo Frederico Leon Arrabal Fernandes, médico colaborador do grupo antitabagismo do Hospital Universitário da USP, o impacto do fumo passivo nas doenças respiratórias das crianças já é muito conhecido, mas seu efeito no sistema cardiovascular, ainda não.
"Esses dados são muito interessantes, porque mostram que a fisiologia da criança já está alterada, e é sobre essa base que vai se desenvolver uma doença cardiovascular quando ela se tornar adulta."

 

 
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