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O antitabagismo passou do ponto (3/1/2006)
ACTBR

Por Pedro Doria
Fonte: www.nominimo.com.br

31.12.2005 |  Existe aquele momento em que o texto empaca. As anotações estão à mão, vários parágrafos já saíram – aí vem aquele lapso de concentração e tudo pára. Tenho um ritual para essas horas: imprimo tudo o que foi escrito, pego uma lapiseira, acendo um cigarro e releio. Ao fim, torno a escrever.

Quando for dormir hoje à noite, terei fumado meu último cigarro – e perderei este ritual. Não só este. Tem aquele momento, você acaba de sair do trabalho e tem uns passos a dar até o ônibus ou o táxi. É o tempo dum cigarro. Tem o silêncio da casa à noite. Tem a sexta-feira, quando sentou-se num bar e o fim de semana começou. Aquele primeiro dia de novembro em que o céu carioca fica azul demais e tudo é quente, aquele chope gelado à tarde com aquele cigarro para agradecer o verão.

Um cigarro é uma pausa – e carregarei comigo a ausência desta pausa para sempre. Com o passar do tempo, o gesto de buscar um cigarro vai escasseando, vai espaçando, mas ele nunca irá embora de vez. Quem nunca fumou talvez jamais entenda o quanto ele faz falta, o quanto fará sempre. Gostei de ter sido fumante, mas agora é hora de parar.

Tem uma onda insuportável, moralista, careta e antitabagista no ar. Neste 2005, os restaurantes foram proibidos de ter áreas de fumantes. Os shopping-centers já haviam passado por isso. Os fumódromos nas empresas vão sendo fechados.

Claro: cigarro faz mal. E é desagradável para alguns. Mas o que não faz mal? O petróleo extraído da terra faz mal ao planeta – e ninguém pensa em colocar adesivos com retratos do buraco na camada de ozônio ou florestas mortas nos carros. Álcool mata – e não há o retrato de fígados podres nas garrafas de Johnny Walker. Na caixinha vermelha do BigMac não figura o retrato de cadáveres obesos. Economia que não cresce mata gente. Hospital público com fila mata gente. Casamento homossexual proibido causa depressão e injustiças.

Há toda uma cultura de saúde e ninguém vai discutir que exercícios físicos são necessários. A mesma cultura determina que trabalhar, e trabalhar muito, além das horas, é um valor. O tempo do exercício não há – a não ser que seja substituído o tempo do sono. E estresse mata. O mundo é agressivo, pois é.

A campanha antitabagista passou do ponto.

No fundo, é puritana, é moralista. Não está apenas atrás de saúde pública, está à caça de um prazer. Há um limite tênue entre a educação e o isolamento social. A campanha antitabagista cruzou este limite: trata fumantes como párias sociais. Como incômodos – viramos uma minoria que tem seus direitos cassados.

Há sempre o argumento, para justificar a proibição do fumo em restaurantes, de que a fumaça incomoda o vizinho. O problema é que tem de haver um limite de tolerância. Não incomoda tanta gente assim e quem se incomoda pode sempre sentar longe da área de fumantes. Às vezes alguém suado no ônibus cheio incomoda. Gente falando alto pode incomodar. Barulho de carro me incomoda – convivo com isso.

Na Europa, há países como a Áustria onde o limite de tolerância para com barulho de criança é tão baixo que crianças ficam caladas sempre. Há quem considere isto civilizado. Na Arábia Saudita, beber é ilegal e os ricos o fazem em casa, escondidos. É verdade: bêbados incomodam. Nos EUA, em vários dos prédios novos, há detectores de fumaça dentro dos apartamentos que berram se você acender um cigarro. Nem em casa pode. Não demora muito, no passo atual, que o mesmo venha a acontecer no Brasil.

Sempre existirão coisas que incomodam – a escolha de banir o cigarro dos lugares públicos é aleatória.

Mas cigarro faz mal, claro. Meu problema pessoal é que ele nunca é apenas o cigarro da pausa – com freqüência, vêm outros. Você se torna escravo. A noite no bar virou madrugada, o maço acaba – impera o desespero da busca. Depois dum dia tenso, muitos fumados, a manhã seguinte acorda numa secreção desagradável, a garganta seca, um cheiro ruim incrustado no nariz. Ressaca ruim e o cheiro de cinzeiros cheios pela casa. E a perspectiva de levar uma vida um pouco mais saudável não é má. O pulmão está limpo ainda, não há caso de câncer de pulmão ou garganta na família – mas não custa, por via das dúvidas.

Já parei duas vezes. A última, em 2004, durou nove meses. Sei o que vem pela frente. Mau humor até mais ou menos março, ansiedade. Uma mastigação de balas insuportável. Sei também o que não virá pela frente. Tem uma hora em que você se acostuma com a falta e acha que apenas um, só pelas saudades, não fará mal. Nas semanas seguintes, o só um se repete – o monstro da dependência química assume as rédeas. Não é assim com todo mundo, é comigo. Desta vez, nunca mais poderá haver mais um. Não gosto de ter que parar.

Mas tem um atrativo em parar: é uma causa a mais. Quem fala de fora de uma minoria perseguida tem mais independência. Não vejo problema em aumentar os impostos sobre o tabaco – tem um limite, claro, porque após vem contrabando. Cigarro ainda é muito barato no Brasil. Cercear acesso aos lugares é demais.

Os governos estão ensaiando uma grande campanha em que vai aumentando a intolerância aos poucos. Até que, no fim, a proibição estará a uma canetada de distância. Como se fosse natural. Temos dois caminhos a adotar e há um grande debate moral correndo. Um quer proibir e manter proibições, quer ditar o comportamento. O outro lado quer derrubar proibições. A cannabis está ali, além da curva. É uma boa droga. Alivia dor e desperta apetite em pacientes pesadamente medicados. Tem seu valor social, também. Como o álcool. Como o cigarro.

Não quer dizer que nada deva ser proibido ou que tudo deva ser liberado sem limites. Mas quer dizer que todo indivíduo tem o direito de consumir o que quiser. E que todos devemos ser mais tolerantes.

pdoria@nominimo.ibest.com.br

 
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