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Corpo humano: começo, meio e fim (6/6/2010)
Correio Brasiliense

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/06/06/cienciaesaude,i=196350/CORPO+HUMANO+COMECO+MEIO+E+FIM.shtml

Ullisses Campbell

São Paulo — No andar superior, 20 cadáveres reais chamam a atenção. Um joga futebol, outro, basquete. Um terceiro corpo sem vida ergue uma raquete de tênis como se fosse rebater a pequena bola. Dois deles estão fatiados e outros dois estão em pele e osso. Mais três mortos de verdade exibem órgãos e vísceras. No andar de baixo, 250 órgãos de verdade deixam visitantes perplexos. A exposição Corpos foi montada no Parque Ibirapuera, em São Paulo, há dez dias, e já atraiu mais de 20 mil pessoas. Elas foram ver de perto o que só os médicos enxergam na hora de uma cirurgia ou de um exame cadavérico: ossos, vísceras, vasos e outros órgãos de verdade. Sucesso nos Estados Unidos e na Europa, a mostra já atraiu 15 milhões de curiosos no mundo todo.

Com tanto visitante caminhando por uma exposição tão bizarra, à primeira vista, vem a seguinte pergunta à cabeça: por que todo esse interesse pelo corpo humano? Quem responde é o professor de anatomia da Universidade de Michigan, Roy Glover, idealizador do projeto: “O seu corpo é a única coisa que você carrega desde o momento em que nasce até o último suspiro”. “É um choque ver e entender como o nosso organismo funciona”, completa Stephanie Mayorkis, diretora da exposição no Brasil.

Depois do choque de ver ao vivo cadáveres, fetos e órgãos de verdade, em tamanho real, dá vontade de sair da exposição direto para o consultório médico. Principalmente depois de se deparar com órgãos vitais como cérebro, pulmão, fígado e coração, sadios e doentes. A diferença entre eles é chocante. Um pulmão de quem não fuma, por exemplo, é branco e contém mais de 3 milhões de alvéolos (pequenas cavidades). Ao lado, surge um pulmão de fumante — ele é escuro e com aparência petrificada por causa do acúmulo de alcatrão. Órgão debilitado assusta os visitantes. “Todo fumante deveria passar por aqui”, diz a professora de biologia, Martina Chacon, 36 anos, ex-adepta do cigarro.

Stephanie explica que a exposição Corpos tem caráter educativo. Segundo ela, a mostra permite uma melhor compreensão de como maus hábitos ou doenças podem interferir no bom funcionamento do corpo. Ela cita como exemplo o pulmão saudável colocado ao lado do órgão escurecido pelo hábito de fumar. “Essa comparação é muito mais poderosa do que qualquer imagem de um livro ou texto”, ressalta. Há ainda amostras de órgãos comprometidos por infarto, câncer, dieta pobre e outras patologias.

Mal-estar

Nem todo visitante tem estômago para percorrer os nove setores da exposição que representam os sistemas do organismo humano. Tem gente que sai quando se depara logo na entrada com dois cadáveres simulando um rodopio, sendo que um deles é só o esqueleto e o outro está com toda a musculatura de fora. “Dá uma agonia ver esses corpos. Só vim mesmo porque é importante para os meus estudos”, diz o estudante Rogério Vitório Gianetti, 15 anos. Duas colegas de classe não tiveram coragem de entrar. “Se eu olhar um cadáver, não consigo dormir à noite”, justifica Fabíola Gobbato, 14.

Os visitantes não podem reclamar da surpresa do mal-estar. Logo na entrada do piso inferior, há uma placa advertindo que há imagens fortes expostas no local. Quem resolver entrar, depara-se com fetos abortados em várias fases de desenvolvimento. Eles estão exibidos em recipientes especiais e é possível acompanhar o andamento da formação dos órgãos com o passar das semanas de gestação. Os últimos ambientes mostram bebês que morreram ainda no útero, em decorrência de complicações. Nesse setor, o que mais impressiona é a imagem real de um feto de 30 semanas, já com as feições definidas.

Função didática

Para o médico Alessandro Schultz, a exposição é interessante porque estimula a pessoa a cuidar da saúde. Seja com a prática de exercícios físicos, alimentação saudável ou com a redução do consumo de álcool. “Muita gente abusa do corpo, não dorme as oito horas diárias recomendadas ou come gordura e açúcar em excesso. Acho que essa exposição faz a ficha cair”, opina o médico que levou a família inteira para a mostra.

As peças reais que mais atraem a atenção, principalmente de crianças, são os corpos que simulam movimento de atividades físicas. Como se estivesse congelado no espaço, indiferente ao tempo, um dos cadáveres está posicionado para um arremesso de basquete. Os pés estão paralelos um ao outro, firmes no chão; e os joelhos flexionados para sustentar um complexo conjunto de órgãos que se sobressaem do tronco entrecortado.

Pulmões, coração, estômago, intestinos, bexiga estão expostos como se ali houvesse uma aula prática de anatomia. Nessa sequência, um corpo arqueado se equilibra num pé só, no instante em que toma impulso com o pé esquerdo para chutar uma bola. “Em ano de Copa do Mundo, é uma das maiores atrações”, diz o educador Alex Carvalho.

De onde vêm os mortos?

A exposição Corpos é um sucesso de crítica e público, mas suscita uma polêmica no meio científico. Até hoje não está clara a origem dos 20 cadáveres que estão expostos na Oca do Ibirapuera, em São Paulo, e de outras centenas que estão expostos simultaneamente nos Estados Unidos e na Europa. O que se sabe até então é que os corpos foram dissecados e preservados por um método revolucionário conhecido como polimerização, na Escola Universitária de Medicina de Dalian, no Norte da China.

A direção da exposição garante que os cadáveres foram fornecidos pelos chineses. Seriam voluntários que tiveram morte natural e, em vida, optaram por participar de um programa de doação em benefício da ciência e da educação na China. No entanto, nenhum dos corpos expostos no Ibirapuera tem estatura e aparência de oriental. Pelo contrário, são cadáveres robustos e de altura superior a 1m80.

Especula-se que a Escola Universitária de Dalian, que tem o mais avançado processo de dissecação de cadáveres, esteja recebendo corpos de prisioneiros executados em países onde há pena de morte. Esses cadáveres, de pessoas saudáveis, não teriam sido procurados por familiares. “Até onde eu sei, os corpos são de indigentes e pessoas comuns que morreram e nenhum familiar procurou para sepultamento”, sustenta Stephanie Mayorkis, diretora da exposição no Brasil.

O processo

O professor de anatomia Roy Glover, da Universidade de Michigan, diz que a maior vantagem da exposição é justamente exibir corpos de verdade e não obras artísticas, como se vê na maioria das mostras do gênero. Ele explica que cada cadáver teve a água dos tecidos removida por imersão em acetona. Em seguida, o solvente é sugado em uma câmara de vácuo. Durante esse processo, conhecido como impregnação, os espaços nos tecidos que antes eram ocupados pela acetona passa a ser preenchido por silicone líquido. “O produto final são modelos que podem ser facilmente observados, sem qualquer risco de se deteriorarem devido à decomposição natural”, afirma Glover.

No catálogo vendido por R$ 28 na Oca e que complementa o passeio pela exposição de cadáveres, não há qualquer explicação sobre as origens dos corpos. Na introdução, assinada por Glover, ele diz: “Meu conselho é simples. Aprecie a visita à nossa exposição. Juntem-se à longa lista de homens e mulheres que se sentiram maravilhados com a beleza e a complexidade do corpo humano”. Para ter acesso à “maravilha” a que o doutor Glover se refere, é preciso pagar R$ 40.

"Muita gente abusa do corpo, não dorme as oito horas diárias recomendadas ou come gordura e açúcar em excesso. Acho que essa exposição faz a ficha cair”

Alessandro Schultz, médico

 
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