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A marcha irrefreável da indústria do tabaco (14/6/2011)
The Independent (tradução ACT)

http://www.independent.co.uk/life-style/health-and-families/health-news/the-unstoppable-march-of-the-tobacco-giants-2290583.html

A irreversível marcha das gigantes do tabaco
Como a indústria explora impiedosamente os países em desenvolvimento – especialmente os jovens pobres e sem instrução.
Por Emily Dugan

Domingo, 29 de maio de 2011

Mais de meio século depois que cientistas descobriram a ligação entre o tabagismo e o desenvolvimento do câncer - desencadeando uma guerra entre defensores da saúde e a indústria do cigarro – a gigante do tabaco vem prosperando.

Apesar dos conhecidos efeitos catastróficos do tabagismo na saúde, os lucros das empresas de tabaco continuam a crescer e as vendas de cigarros aumentaram: passando de 5.000 bilhões de unidades por ano na década de 1990 para 5.900 bilhões em 2009. Ceifando anualmente mais vidas do que o álcool, Aids, acidentes de carro, drogas ilegais, assassinatos e suicídios juntos.

O Ocidente consome cada vez menos cigarros: os países ricos conseguiram avançar - ou seja, o consumo de cigarrros era de 38% do total mundial em 1990, reduzindo para 24% em 2009. Enquanto isso, em parte dos países em desenvolvimento a venda de cigarros aumentou acentuadamente, para 76 % em 2009.

Uma investigação realizada pelo The Independent on Sunday, revela que as empresas de tabaco têm aproveitado as frágeis ou quase inexistentes regras de comercialização do tabaco nos países em desenvolvimento, promovendo agressivamente os cigarros ao público jovem, seus novos consumidores, para isso se utilizam de advogados, grupos de interesse e estatísticas cuidadosamente selecionadas para intimidar governos que tentam regular a indústria no Ocidente.
Em 2010, as quatro maiores companhias de tabaco - Philip Morris International, British American Tobacco, Japan Tobacco e Imperial Tobacco – lucraram mais de 27 bilhões de libras esterlinas (aproximadamente 69 bilhões de reais) , acima dos 26 bilhões de libras em 2009.

O preço dos seus lucros será medido em vidas humanas. No século 20, cerca de 100 milhões de pessoas foram vítimas do tabagismo. Se as tendências atuais continuarem, o tabaco matará um bilhão de pessoas no século 21.

Na busca por lucros maiores, as grandes empresas de tabaco têm pressionado o aumento do preço médio dos cigarros em países ricos como a Inglaterra – onde o maço de cigarro chega a custar mais de 6 libras esterlinas (aproximadamente R$15,50) – enquanto joga para baixo o preço pago aos produtores de tabaco nos países mais pobres, tais como Índia e Malawi. Embora cerca de 77% do preço de um maço seja de impostos, o valor cobrado pelas companhias de tabaco também tem aumentado.

Uma importante investigação relizada pelo Office of Fair Trading (Comissão de Defesa da Concorrência) descobriu, no ano passado, que uma dúzia de fabricantes de tabaco e varejistas do Reino Unido mantinham conluio na fixação de preços, assegurando que as embalagens permanessessem com preços mais elevados para maximizar os lucros. A maior multa foi de 115 milhões de libras esterlinas (cerca de 270 milhoes de reais) para a Imperial Tobacco, fabricante do Lambert & Butler e Gold Virgínia. A multa provocou uma redução mínima nos lucros da empresa em 2010, que superou 4.39 bilhões de libras esterlinas (em torno de 11 bilhões de reais).

Enquanto isso, no Malawi, onde a agricultura do tabaco é fortemente relevante para a economia, o departamento de combate à corrupção do país acusou as empresas de tabaco de conluio para manter os baixos preços pagos aos agricultores pela matéria-prima. As salas de venda de folhas do tabaco tornaram-se um campo de batalha entre o governo e a indústria, onde o quilo da folha de tabaco despencou de uma média de 1,06 libras por kg (aprox. R$4,13), em abril de 2009, para 47 centavos de libra por kg (aprox.R$1,21) este ano. O impacto devastadordessse processo nos produtores é umsalário miserável pago aos trabalhadores e a indução à utilização de mão de obra barata (ou grátis) infantil.

Anna Gilmore, professora de saúde pública da Universidade de Bath, disse: "O que a maioria das pessoas não percebem é que, embora as vendas estejam despencando no Ocidente, os lucros da indústria estão aumentando. Essas empresas continuam sendo as mais lucrativas do mundo. Isto é, em parte, graças às suas infinitas e criativas estratégias para minar e contornar a regulamentação. Elas estão tentando reinventar a sua imagem para agradar os governos, mas nos bastidores trata-se de negócio como de costume".
Este ano, o Dia Mundial Sem Tabaco teve como foco convencer mais países a assinarem o tratado internacional elaborado pela Organização Mundial da Saúde para garantir a proteção da saúde pública no que se refere ao tabagismo. Apesar de 173 países já terem assinado a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, desde sua elaboração há seis anos, 20% deles ainda não avançaram nas ações para implementar suas recomendações, sendo que países grandes, como os EUA e a Indonésia, ainda não são signatários.

Só na Indonésia há 21 milhões de crianças fumantes. Pouco vem sendo feito para frear a publicidade de cigarros principalmente direcionada ao público jovem. Em países como a Nigéria, Ucrânia e Brasil, as empresas de tabaco têm patrocinado bares, boates ou festas destinadas a atrair consumidores jovens. Na Rússia, as tentativas de seduzir o público feminino incluem embalagens feitas para parecer frascos de perfume com pedras preciosas e até mesmo a venda de cigarros estampados com a marca da famosa grife Yves Saint Laurent.

O Dr. Armando Peruga, diretor de programa Iniciativa Livre de Tabaco da OMS, disse: "Nós precisamos fazer mais. Precisamos fazer com que a indústria do tabaco pare de provomer a si mesma com uma corporação normal, enquanto na verdade mata pessoas todos os dias. Estamos atrasados em estabelecer proibições abrangentes no que se refere à publicidade, marketing, promoção e patrocínio. "

Quando os governos dos paises emergentes tentam reduzir o consumo de tabaco, muitas vezes a batalha termina na justiça. No Uruguai, por exemplo, o governo vinha seguindo o caminho do presidente Tabaré Ramón Vázquez Rosas, um ex-oncologista. Em 2006 se tornou o primeiro país da região a proibir o tabagismo em locais públicos e agora aprovou medida para que 80% da área de cada maço de cigarro contenha advertências relacionadas à saúde.

Em resposta, a Philip Morris processou o governo. Acredita-se que a empresa vai exigir pelo menos 2 bilhões de dólares (em torno de 3,18 bilhões de reais) em danos caso o Uruguai venha a perder a ação.
Pressões judiciais como esta tem um amplo efeito de intimidação sobre os outros governos na região, que já estavam menos inclinados a legislar contra o tabagismo.

Laurent Huber, diretor da Aliança da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, disse. "Em países como o Uruguai, a indústria do tabaco utiliza seus vastos recursos para barrar medidas de saúde pública nas disputas judiciais. Ganhar ou perder, isso tem um efeito intimidador sobre os outros governos ".

Esses truques não são de forma alguma restritos aos países emergentes, onde a regulamentação é frágil ou quase inexistente. Na Austrália, que se tornará o primeiro país a introduzir embalagens genéricas para os cigarros, a indústria tem sido acusada de alarmismo contra as medidas, ameaçando inundar o mercado com cigarros baratos.

Na Inglaterra, a indústria também está propensa a tomar medidas necessárias para evitar a regulamentação Neste outono, um grupo de empresas de tabaco processará o Governo devido a suas propostas para proibir a exposição do cigarro em todas as lojas.

Embora no Reino Unido as tentativas da indústria tabagista de alterar a opinião pública seja mais sutil, um estudo realizado pela Action on Smoking and Health (ASH), nesta semana, examina a credibilidade dos argumentos econômicos utilizados pela indústria para lutar contra a legislação. Por exemplo, quando Christopher Ogden, diretor executivo da Associação dos Fabricantes de Tabaco, disse, em 2010, que a proibição do tabagismo em locais fechados ameaçaria seriamente o comércio de bares e restaurantes devido a perda de empregos e meios de subsistência, no entanto a realidade foi bem diferente. Os dados do Instituto de Estatística Nacional mostram um aumento no número de pessoas que frequentam bares desde a lei antifumo. Quando a Inglaterra tornou-se livre de fumo em 2007, o número de estabelecimentos licenciados para venda de bebidas alcóolicas aumentou em 5%, e tem crescido a cada ano desde então.

Deborah Arnott, diretora executiva da ASH, disse: "Em linha com as nossas obrigações em relação aos tratados internacionais, o governo britânico não só proibiu a propaganda e obrigou o uso de advertências nas embalagens, mas também se comprometeu a proteger as políticas de saúde pública contra os interesses econômicos da indústria do tabaco. Para contornar essa situação, a indústria se utiliza de grupos de frente para fazer lobby junto aos políticos, argumentando que a lei antifumo destruiu o comércio de bares e restaurantes, e que ao permitir a retirada dos displays de cigarro da vista de consumidores será tão ineficaz quanto, além de impedir que as lojas realizem livremente seu comércio.

A próxima grande batalha é tornar as embalagens de cigarro genéricas. Os mesmos argumentos de sempre já estão sendo utilizados. A evidência é pequena ou não existe, mas não importa, o perigo é que os agentes políticos sejam iludidos que de onde há fumaça, há fogo".

Os vencedores…
Louis C Camilleri
CEO da Philip Morris
Ganhou 12,4 milhões de libras esterlinas (aproximadamente 32 milhões de reais) no ano passado. Recentemente, disse a uma enfermeira que o cigarro "não é assim tão difícil de largar".

Nicandro Durante
CEO, British American Tobacco (BAT)

Recebeu 2,4 milhões de libras esterlinas (cerca de 6,19 milhões de reais) no ano passado. Ex-presidente da Souza Cruz SA, subsidiária brasileira da BAT, também dirigiu as subsidiárias africanas e no Oriente Médio,.


Alison Cooper
CEO, Imperial
Recebeu 1,9 milhões de libras esterlinas (aprox. 4,9 milhões de reais) no ano passado. Ex-diretor de vendas e marketing regional para a Europa ocidental.


Os perdedores…
Sean Nicholson, 43
De Jarrow, Tyne and Wear
"Comecei a fumar quando tinha 11 anos. Trabalhei em estaleiros durante 15 anos e sempre fumei. Fui diagnosticado com doença pulmonar obstrutiva crônica aos 34 anos, e, posteriormente, descobri que tinha enfisema pulmonar também. Os especialistas disseram que o meu caso era o mais precoce que eles já tinham visto. Logo eu não conseguia respirar se ousasse dar alguns passos. Os médicos disseram que meu pulmão era como o de um homem de 90 anos. Sete semanas atrás eu passei por um transplante de pulmão. Agora eu posso respirar novamente e eu não suporto ver as pessoas fumando. Precisei de um novo pulmão para perceber o quão tolo eu fui. "
Ryan Gamble, 17
De Chester-le-Street, Durham
"Eu fumo há seis anos. Comecei porque meus amigos estavam fazendo isso e eu apenas mantive o hábito. Odiei quando fumei pela primeira vez, me engasguei. Chego a fumar cerca de 10 a 15 cigarros por dia e é muito difícil parar. Trabalho como vendedor em uma loja e metade do meu salário é para sustentar meu vício. Eu gostaria de nunca ter começado. Você acorda tossindo e não pode correr a lugar algum."


Sharon Gould, 53, and her son Ben, 10
De Whetstone, Leicestershire
"Comecei a fumar quando tinha 14 anos. Parei quando estava grávida de Ben, mas logo depois eu comecei de novo. Costumava fumar dentro de casa quando ele estava em outra sala, ou dentro do carro com a janela aberta. Ben tinha em torno de dois anos quando descobrimos que ele tinha asma. Naquele momente eu tive consciência do que fiz e queria consertar as coisas. Parei de fumar há três anos. É muito tarde para o Ben, mas quero ajudar outros pais a não cometerem os mesmos erros. Embora possa ser genética, as estatísticas dizem que eu sou parcialmente responsável pela asma do meu filho. Foi Ben que me fez parar, ele não gostava quando eu fumava e eu não o culpo. Ele costumava dizer: "Por favor, mamãe, não fume, é horrível."


José Carlos Carneiro, 64
Do Rio de Janeiro, Brasil
“Comecei a fumar quando tinha 15 anos de idade, influenciado pela publicidade do tabaco e pelo desejo de causar uma boa impressão diante das meninas que estudavam na minha escola. Em 1983, tive as minhas duas pernas amputadas graças à tromboangeite obliterante [associada ao tabagismo]. Se eu não tivesse sido um fumante, eu teria uma vida fantástica.”
 

 
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