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Internet Antifumo (15/9/2005)
ACTBR

Fonte: Folha Equilíbrio - 15 de setembro de 2005

Saúde

Blogs, sites de universidades e grupos de conversa ajudam internautas que querem largar o cigarro


Internet antifumo

DENISE MOTA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

"Daqui a uma hora, faz um mês que toquei pela última vez num cigarro até agora. Não, não vou dizer que já me sinto um ex-fumante. Tenho de agüentar muito mais tempo." Descrita em episódios e em tom de diário, a batalha para se livrar de um vício de 18 anos é a fonte de frases como essa e o tema do blog "Cigarro Away" (www.cigarro-away.blogspot.com), assinado por "Yekini" -personagem criado pelo especialista em informática português António Jorge Serra, 31, para compartilhar conselhos e estímulos entre os que, como ele, tentam fazer do fumo um hábito do passado.
"Fiz o blog porque, se minha tentativa de deixar o cigarro sem a ajuda de meios medicinais der resultado, isso será um incentivo para quem o ler. O blog tornou-se também uma forma de me dar forças para não pegar no cigarro, não ia querer estragar a história dizendo: "Desculpem, mas hoje fumei". E, por fim, gosto do fato de que outras pessoas que tentam fazer o mesmo possam dar seu testemunho", explica o autor, ex-fumante de até 40 cigarros por dia e que decidiu parar "de um dia para o outro", como narra em seus vários depoimentos.
"A sensação de partilhar essa "aventura" por meio da internet tem sido muito interessante. A tentativa de influenciar outras pessoas, que nem sequer conheço, a deixar o cigarro é gratificante. Se isso se tornar realidade para uma só pessoa que seja, acho que o blog já teve uma razão de existir."

BAFORADAS POR AR PURO
Serra e "Yekini" não estão sós em sua "missão" virtual. Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, médicos e pesquisadores estão de olho no potencial antitabagista da rede. A Universidade da Califórnia acaba de concluir um estudo realizado nos últimos cinco anos sobre o grau de auxílio proporcionado pela internet para quem deseja trocar baforadas por ar puro.
Desenvolvida por quatro médicos, a pesquisa teve uma base de quase 12 mil fumantes adultos de 74 países. Os participantes se cadastraram no site da instituição (www.stopsmoking.ucsf.edu) e se dispuseram a fornecer informações sobre seus perfis, hábitos e modos de vida, ao mesmo tempo em que ganhavam acesso a uma série de dados sobre como poderiam tornar sua tentativa de abandonar o cigarro mais eficaz e segura, com a assessoria de uma equipe médica.
O endereço na internet também está disponível em espanhol, (www.dejardefumar.ucsf.edu). A maior parte dos participantes (9.160 deles) acessou a página nesse idioma. Da Espanha veio a maioria dos usuários (4.600 pessoas), seguidos de 1.200 argentinos, 755 mexicanos e 721 chilenos. O Brasil contou com somente oito fumantes registrados.
Em inglês, o site foi consultado por 2.354 internautas, a maioria dos quais (1.137) dos Estados Unidos, seguidos de 277 indianos e 144 ingleses. Da China, constavam 15 pessoas em busca do abandono do cigarro.
O acompanhamento oferecido pelo site para ajudar quem quer parar de fumar é ministrado sob a forma de um curso de oito semanas. No decorrer do curso, vários procedimentos são indicados. Ao mesmo tempo, os participantes recebem questionários depois de um, três, seis e 12 meses de adesão ao estudo, para que relatem aos médicos o andamento da redução do fumo, os diversos estados de ânimo pelos quais estão passando e de que forma estão utilizando o site.
"Apenas 5% das pessoas deixam de fumar sozinhas. Estudos indicam que, num prazo de seis meses, dos fumantes que usam adesivos, 22% abandonam o cigarro; se utilizado um trabalho em grupo, essa porcentagem fica entre 24% e 27%; no nosso estudo, dentro da parcela de participantes com o melhor índice, 26% deles pararam, ou seja, 1/4 das pessoas conseguiu fazê-lo sem gastos, sem sair de casa. É um resultado muito bom", afirma Ricardo Muñoz, 55, um dos coordenadores da pesquisa, médico há 28 anos, professor de psicologia da Universidade da Califórnia e chefe do departamento de psicologia do Hospital Geral de San Francisco.


"Ao tomar a decisão, visitei sites sobre métodos para deixar de fumar e também li sobre os esforços dos que estavam tentando se livrar do cigarro"


O estudo também levantou dados importantes sobre o perfil dos fumantes. Essas informações podem ajudar nas campanhas de prevenção. Por exemplo, observou-se que os hábitos de quem fuma e a idade com que se inicia o vício são bastante semelhantes, não importa a região do planeta em que um cigarro é aceso. A maioria dos cerca de 12 mil participantes da pesquisa começaram a fumar na faixa dos 15 anos, estimulados por seu grupo social, e tornaram-se fumantes regulares em torno dos 18 anos. Diariamente, consomem uma média de 23 cigarros.

DEPRESSÃO E CIGARRO
Outro dado relevante do estudo realizado pela universidade foi descobrir que, em todo o grupo pesquisado, 40% dos fumantes apresentavam em seu histórico períodos de depressão. Foram contabilizados tanto os episódios passados quanto os atuais. "É importante atentar para isso, uma vez que a média geral é de 17% de deprimidos para toda a população mundial. Aqui temos 40%. A depressão tem um efeito enorme sobre a tentativa de largar o cigarro", afirma o médico, também diretor do departamento de pesquisas da universidade destinadas à prevenção da depressão.
Conclusões como essas estarão detalhadas, no final do ano, na publicação especializada "Nicotine and Tobacco Research" ("Pesquisa sobre Nicotina e Tabaco"). "Morrem todo ano 5 milhões de pessoas em decorrência de problemas de saúde relacionados ao fumo. Só na China, há 350 milhões de fumantes", aponta Muñoz. "Esperamos compartilhar o conhecimento com o maior número de pessoas possível. Por isso começamos a colocar nossos manuais na internet e a desenvolver estudos em inglês e também em espanhol."

NOVA PESQUISA
Em outubro, a Universidade da Califórnia dará início a um segundo estudo sobre o tema. Nesse, será comparada, durante um ano, a eficácia de quatro métodos para parar de fumar. O primeiro é o mesmo que já foi utilizado na pesquisa anterior: o usuário preencherá um formulário e receberá um guia com explicações sobre o efeito de medicamentos e produtos, além de uma série de orientações para diminuir a presença do cigarro no dia-a-dia. O segundo método agregará, aos itens do primeiro, um maior número de e-mails enviados pela universidade para que o participante volte com mais freqüência ao site. A terceira opção adicionará aos procedimentos do primeiro e do segundo métodos um curso sobre como administrar o estado de ânimo. O quarto e último método oferecerá, além de todos os elementos dos anteriores, um grupo de discussão virtual, para o qual o internauta pode enviar mensagens. A pesquisa está aberta à participação de fumantes de todo o mundo, nas versões da página em inglês e espanhol. "É uma ferramenta que está à disposição 24 horas por dia, que funciona como lugar em que experiências semelhantes se encontram, mas que pode, ao mesmo tempo, ser individualizada."

PROTEÇÃO E ENCORAJAMENTO
Encontrar pessoas que estejam passando pelo mesmo processo costuma ser um grande estímulo para quem tenta parar de fumar. É justamente esse o objetivo de Ana Paula Rodrigues Navas, enfermeira de 22 anos, quando navega pela rede. "A internet é uma arma maravilhosa de acesso a todos os que estão na mesma luta. Sempre procuro sites antitabagismo, leio depoimentos, me encorajo, me sinto bem compartilhando o que tenho feito, vejo o que as pessoas fazem e leio artigos médicos para ter essas informações sempre frescas na mente", relata a enfermeira.


"A sensação de partilhar essa "aventura" por meio da internet tem sido muito interessante; a tentativa de influenciar a deixar o cigarro é gratificante"


Fumante por cinco anos e há três meses sem acender um cigarro, Navas tomou a decisão num quarto de hospital. "Resolvi parar quando meu primeiro Dia dos Namorados com meu namorado foi por água abaixo. Passei muito mal, fui parar no hospital, onde foi diagnosticada uma gastrite que me deixou quatro dias de cama. Revi meus conceitos."
O susto também foi determinante para que o tradutor Benê Cohen, 56, pusesse os três maços diários que costumava consumir no lixo. Ao acordar sem ar e não conseguir voltar ao normal depois de várias noites em que vinha driblando a situação, pensou que poderia trocar, "pelo menos naquele dia", o cigarro por chicletes de nicotina, tática que acabou por ajudá-lo a parar definitivamente.
Há 14 meses sem fumar, depois de 41 anos de cigarros, Cohen diz que quis contar sua história na internet por ter sido esse o lugar onde buscou subsídios. "Ao tomar a decisão, visitei sites sobre métodos para deixar de fumar e também li sobre os esforços dos que estavam tentando ou haviam conseguido se livrar do cigarro. Achei justo contribuir com aqueles que, como eu, fossem buscar ajuda na internet", afirma.
"Normalmente, a pessoa que tenta abandonar o cigarro no início o faz solitária ou anonimamente, pois nem sabe se vai conseguir e, assim, prefere não ficar alardeando sua decisão. Por outro lado, protegida na internet, encontra e se identifica com muita gente que passa ou passou pelos mesmos problemas que ela."


Sites
www.stopsmoking.ucfs.edu
www.cigarro-away.blogspot.com
www.fumarnuncamais.blogger.com.br
www.pareidefumar.cjb.net
www.prevfumo.med.br
www.cigarro.med.br

 
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