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Na China, empresa de tabaco patrocina escolas (22/9/2011)
Valor

http://www.valor.com.br/internacional/1014114/na-china-empresa-de-tabaco-patrocina-escolas

Por Bloomberg

 

Em dezenas de vilarejos das províncias do oeste da China, uma das primeiras coisas que os alunos do ensino primário aprendem é o que torna sua educação possível: o tabaco.

"Nas portas dessas escolas há slogans que dizem a genialidade vem do trabalho duro - o tabaco ajuda você a ser talentoso", diz Xu Guihua, secretária-geral da Associação Chinesa para o Controle do Tabaco, um grupo lobista bancado pela iniciativa privada. As escolas são patrocinadas por unidades locais do monopólio fabricante de cigarros controlado pelo governo chinês. "Eles estão depositando suas esperanças em transformar os jovens em fumantes."

Grupos que combatem o tabaco afirmam que os esforços para reduzir as vendas no maior mercado consumidor de cigarros do mundo, como a proibição de fumar em espaços públicos implementada em maio, vêm sendo dificultados por penalidades brandas, a falta de educação sobre os perigos do fumo e o fato de que a autoridade reguladora local, a Administração do Monopólio Estatal do Tabaco, também administrar a maior fabricante de cigarros do mundo, a China National Tobacco Corp.

A China tem mais de 320 milhões de fumantes, o terceiro maior total do mundo, e cerca de 1 milhão de chineses morrem todos os anos de doenças relacionados ao tabaco. Reduzir em 1% ao ano, nas próximas três décadas até 2040, a mortalidade no país resultante de doenças cardiovasculares, que têm como principal fator de risco o fumo, poderia gerar um valor econômico correspondente a 68% do PIB da China em 2010, ou US$ 10,7 trilhões, segundo afirma um relatório do Banco Mundial (Bird) publicado em julho.

"Apesar da forte disposição do governo de implementar políticas de controle do fumo" o volume de cigarros vendidos na China deverá continuar crescendo de 2011 a 2015, disse em julho em um relatório a consultoria Euromonitor International de Londres. Ela prevê que o mercado de tabaco da China vai crescer em média 14% ao ano para chegar a 1,8 trilhão de yuan em vendas no varejo em 2015.

A indústria do tabaco cresceu a uma taxa anual média de 19% entre 2006 e 2010, segundo a Estatal do Tabaco. No ano passado os lucros cresceram 17% para 605 bilhões de yuan (US$ 95 bilhões), incluindo 499 bilhões de yuan em impostos. Cerca de 53% dos homens chineses e 2,4% das mulheres fumam, segundo uma pesquisa feita em 2010 pelo Centro Chinês de Prevenção e Controle de Doenças.

As leis chinesas proíbem a propaganda de cigarros no rádio, televisão e jornais, mas elas "não têm restrições claras sobre as vendas e atividades de patrocínio", segundo afirmou um relatório publicado em janeiro por Yang Gonghuan, que é ex-vice-diretor do Centro de Prevenção e Controle de Doenças, e por Hu Angang, que é professor da Universidade Tsinghua.

O patrocínio do tabaco na China inclui o financiamento de bibliotecas de 42 escolas primárias em Xinjiang e 40 no Tibete em setembro de 2010, e uma doação de 10 milhões de yuan em novembro de 2010 para um fundo de valorização das mulheres chinesas para a campanha "O Expresso das Mães Saudáveis", segundo afirma o relatório. A China National Tobacco lista atividades beneficentes em seu site na internet, incluindo uma doação de 5 milhões de yuans feita este mês para a província de Yunnan, assolada pela seca.

A China decidiu criar um monopólio do tabaco na década de 1980, quando o setor respondia por mais de 10% da receita do governo, afirmou Wang Shiyong, especialista sênior em saúde do Banco Mundial em Pequim. Hoje, o tabaco contribui com 6,7%, segundo números do relatório de Yang e Hu.

"Especialmente nas províncias que cultivam tabaco, como Yunnan e Guizhou, a indústria do fumo é uma parte muito importante da renda dos governos locais", diz Wang. "Há muito lobby interno no governo que luta para que as consequências do fumo sobre a saúde não sejam resolvidas."

O esforço de educação tem muito o que avançar. Uma pesquisa do governo constatou que dois em cada cinco médicos do sexo masculino fumam todos os dias na China. Só um em cada quatro adultos acredita que a exposição à fumaça de cigarros causa doenças no coração e câncer de pulmão, e o porcentual entre os fumantes é ainda menor, de 22%, segundo a Global Adult Tobacco Survey de 2010 para a China.

"Socialmente, fumar faz parte da vida diária na China e as imagens, muitas vindas do Ocidente, ainda exaltam o fumo", diz Linda Sarna, uma professora da Faculdade de Enfermaria da Universidade da Califórnia em Los Angeles. "Parar de fumar ainda não é a norma", acrescenta a professora, que está recrutando mil enfermeiras e enfermeiros em quatro hospitais de Pequim para um novo programa de prevenção contra o fumo.

A China National Tobacco é um dos maiores empregadores do país, com 510 mil funcionários e seu monopólio sobre a produção significa que os concorrentes internacionais têm feito poucos progressos no país. A fabricante estatal de cigarros controlava 97,9% do mercado em 2010, seguida da British American Tobacco com 0,6%, Philip Morris International com 0,3% e Japan Tobacco com 0,1%, segundo a Euromonitor.

Além de o Estado controlar a indústria do tabaco, ela também faz parte do Ministério da Indústria e da Tecnologia da Informação, que comanda o comitê de oito membros encarregado de implementar a Convenção da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o Controle do Tabaco na China, afirma Xu, uma ex-vice-diretora do Centro de Prevenção e Controle de Doenças da China. "O governo e o setor são o mesmo organismo, a autoridade reguladora também é a empresa", diz ela.

Judith Mackay, consultora sênior de políticas da OMS, diz que o poder da indústria do tabaco na China torna mais difícil resolver o problema. "Um número incrível de coisas está sob jurisdição da indústria do tabaco na China", explica ela. "Os alertas sobre os males do cigarro à saúde, por exemplo. Eles não são de alçada do Ministério da Saúde. Claramente há uma série de conflitos de interesses."

As unidades regionais do monopólio estatal do tabaco na China financiam mais de cem escolas primárias espalhadas pelo país, como a Sichuan Tobacco Hope Primary School, segundo informações publicadas em maio pela agência noticiosa estatal Xinhua. Algumas recebem os nomes das marcas de cigarros mais vendidas, como Hongta, que significa pagode vermelho, ou Zhongnanhai, o complexo que fica perto da Cidade Proibida, onde os principais líderes chineses vivem e trabalham.

"Estamos tentando fazer com que o Ministério da Educação impeça as companhias de tabaco de patrocinar essas escolas", diz Xu. "Mas o ministério quer que mostremos a ele provas de que isso está causando algum mal."

 
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