Introdução
É considerado fumante passivo aquele que, não sendo fumante por vontade própria, é obrigado a respirar o ar que contém a fumaça exalada pelo cigarro, por meio da via atmosférica, pela gravidez ou aleitamento materno1. No Brasil, há cerca de 15 milhões de crianças fumantes passivas2, vale referir ainda que elas podem ser afetadas desde a gestação, em cujo momento é reconhecido que, filhos de mães tabagistas, apresentam, ao nascer, um menor peso3.
Crianças menores de cinco anos são mais vulneráveis aos efeitos deletérios do fumo do que aquelas de outros grupos etários, principalmente em relação às enfermidades respiratórias4. Além disso, a exposição à fumaça do tabaco aumenta a freqüência de afecções do trato respiratório, as quais podem ocorrer com maior freqüência nas crianças pertencentes às famílias de menor nível socioeconômico, residentes em moradias insalubres, com maior poluição ambiental, inclusive pela própria fumaça do cigarro5.
A preocupação do fumo passivo com crianças tem efeito em maior escala pelo fato delas estarem desenvolvendo seus sistemas corporais, entre eles o mais afetado pelas poluições ambientais, o sistema respiratório. O ambiente onde a criança cresce e se desenvolve, assim como o convívio com as pessoas adultas, pode exercer influência em seu desenvolvimento6.
Em vista disso, este trabalho teve como objetivo verificar a prevalência do tabagismo passivo nas crianças internadas no setor de pediatria de um hospital de grande porte em uma cidade do norte do Rio Grande do Sul. Além disso, quis-se investigar as causas de internação, sintomas respiratórios presentes e tempo diário de exposição à fumaça do tabaco.
Materiais e métodos
O estudo foi do tipo transversal, aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade de Passo Fundo com protocolo número: CEP 133/2009. Fizeram parte da amostra, 309 crianças de ambos os sexos, com idade entre 3 e 178 meses que encontravam-se internadas na pediatria de um hospital de grande porte em uma cidade do norte do Rio Grande do Sul, no período de 11 de outubro de 2009 a 23 de janeiro de 2010. Da amostra, 9 pais ou responsáveis se recusaram a participar do estudo, considerando o número total de 300 crianças as quais fizeram parte do estudo.
Os pais ou responsáveis das crianças que concordaram em participar assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido e após assinatura, responderam a um questionário padronizado elaborado pelos pesquisadores. O mesmo foi aplicado por dois avaliadores previamente treinados.
O questionário utilizado para coleta de dados foi dividido em 2 partes, a primeira aplicada a todos os pais e/ou responsáveis e a segunda, apenas àqueles que expunham às crianças ao contato com o tabaco. Neste questionário continham: dados de identificação; causa de internação; sintomas respiratórios e grau de escolaridade dos pais ou responsáveis. A segunda parte do questionário, continha perguntas concernentes ao hábito tabágico (número de cigarros fumados diariamente e tempo de exposição da criança à fumaça do tabaco).
Foram considerados fumantes todos aqueles que, no momento da entrevista, referiram ter fumado, no mínimo, um cigarro no último mês e, fumante passivo, toda a criança exposta à fumaça do tabaco em seu domicilio e/ou aquela que residia com, pelo menos, um fumante (pais, responsáveis, parentes, amigos). Foi levado em consideração o tempo que os fumantes passivos ficavam expostos à fumaça do tabaco e o número de cigarros fumados diariamente pelos seus responsáveis.
Durante a coleta de dados, nove pais ou responsáveis se recusaram a responder ao questionário. Esse, portanto, é o único critério que aparece como exclusão nesta pesquisa, o que totalizou 3% da amostra total e foi excluído previamente à análise estatística.
As variáveis categóricas foram descritas como frequência absoluta e, as variáveis numéricas, como mediana (percentil de 25 e percentil de 75), conforme sua distribuição. A análise estatística foi realizada por meio de pacote estatístico SPSS 10.0 e Windows Microsoft Office Excel. O Teste estatístico utilizado foi Qui-quadrado e Correlação de Pearson, considerando ser significativo quando o p-value for ≤ 0,05, ou seja, 95% de confiança.
Resultados
Na tabela 1 podemos observar as características clínicas e sócio-demográficas da amostra do estudo.
Tabela 1. Características clínicas e sócio-demográficas da amostra quanto à exposição ou não ao tabagismo passivo (n=300)
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A segunda parte do questionário, aplicada somente aos pais e ou responsáveis do grupo de crianças expostas passivamente ao tabaco, trás características dos fumantes passivos (Tabela 2).
Tabela 2. Características dos tabagistas passivos (n=110)
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Discussão
Observa-se neste estudo que o número total de crianças expostas ao tabagismo passivo, foram 110, segundo Botelho7 (2003) apesar da evidência de que o fumo passivo aumenta a incidência das infecções respiratórias e de já terem sido criadas leis (Lei n. 9.294 de 1996) proibindo o fumo em alguns locais públicos, são elevadas as taxas de exposição de crianças ao tabagismo passivo no Brasil. Em um estudo realizado por Gonçalves-Silva5 (2006) com 2037 crianças de idade inferior a sessenta meses, do total de crianças que nasceram prematuramente, 8,5% pertenciam a famílias onde existiam fumantes e 5,3% a não-fumantes.
Neste estudo, em todos os sintomas respiratórios apresentados, a prevalência maior foi no grupo de crianças expostas ao tabagismo passivo, sendo a tosse produtiva o sintoma mais comum, devido à ineficiência do clearance mucociliar, decorrente das substâncias tóxicas inaladas pela criança. Ainda a partir destes dados, é possível determinar que, em ambos os grupos, mesmo aquelas crianças que não haviam sido internadas primeiramente por causa respiratória, apresentaram algum sintoma referente ao aparelho respiratório. Em relação ao tabagismo passivo, estão ligados quase 200 mil novos casos de asma; quase 1 milhão de crises asmáticas; 1,5 milhões de episódios de otite média aguda; 15 mil casos de broncopneumonia e 2 mil casos de morte súbita na infância3. Em um estudo realizado por Carvalho8 (2002), das 1104 crianças pesquisadas, a morbidade respiratória foi maior no grupo de crianças expostas ao tabaco, em relação ao grupo das não expostas (82% vs 74%) e, dentre os sintomas mais frequentemente apresentados foram a sibilância (57,7%) e a dispnéia (43,8%).
Quando associado o grau de escolaridade com a prevalência de crianças expostas ao tabagismo passivo, observa-se que o tempo de estudo dos pais e ou responsáveis foi maior no grupo de crianças não expostas, porém não houve diferença estatisticamente significativa. No estudo de Gonçalves-Silva5 (2006) os filhos de pais mais jovens, menos escolarizados, pertencentes a famílias de menor nível socioeconômico e residentes em moradias com piores condições ambientais, mostraram maior prevalência de problemas respiratórios. Alguns estudos comprovam que existe uma associação linear e inversa entre a escolaridade dos pais e o nível socioeconômico, ou seja, quanto menor o nível socioeconômico da família e quanto mais baixa a escolaridade, torna-se maior a probabilidade de haver fumantes no domicilio9.
Os resultados do estudo de Gonçalves-Silva5 (2006) mostram que o tabagismo dos moradores do domicílio foi a variável que apresentou a maior associação com a doença respiratória. Resultados semelhantes também foram encontrados por Ownby10 (2000), os quais estudando a exposição passiva de crianças de até dois anos de idade, verificaram que o fumo de outros moradores, além dos pais, contribuiu de forma significante para a doença respiratória. Em nosso estudo a quantidade de fumantes por domicílio variou entre 1 e 2 para a maioria dos indivíduos, porém não são nulos os casos onde existem 3, 4 ou mais fumantes no domicílio.
Em relação ao parentesco destas crianças com fumantes, a maior prevalência foi de pais ou padrastos, seguido de mães ou madrastas. Em um estudo realizado por Prietsch SOM et al (2002)11 com 775 crianças, 40% dos pais e 37% das mães eram fumantes apresentando uma alta prevalência do hábito de fumar na população de mães.
Os pais e/ou responsáveis foram questionados quanto ao número de cigarros/dia em média são consumidos por eles, sendo que o resultado foi 20 cigarros/dia e, quanto ao tempo (em horas) de exposição destas crianças à fumaça do cigarro foi de 3,5 horas/dia. No estudo de Prietsch11 (2002), as mães fumavam em média 14 cigarros por dia e os pais, 17 cigarros, apresentando uma quantidade menos de cigarros/dia do que o encontrado neste estudo.
Este estudo contou com uma amostra não uniforme quanto ao número de indivíduos em cada grupo, sendo esta uma limitação que pode ter provocado alteração nos resultados estatísticos. Ainda, o questionário continha poucas questões epidemiológicas o que dificultou no momento de realizar o cruzamento dos dados. Sugerem-se estudos de base populacional a fim de elaborar um perfil atual das crianças fumantes passivas, pois não foi encontrado na literatura estudos de perfil epidemiológico recentes.
Conclusão
Observou-se neste estudo uma alta prevalência de crianças submetidas ao tabagismo passivo, sendo que estas tem maior propensão às afecções respiratórias e, ao serem internadas independente do motivo apresentaram mais sintomas respiratórios se comparadas com p grupo de crianças não expostas passivamente ao tabaco. Ainda, pode-se concluir que os pais são os indivíduos que mais expõe seus filhos à fumaça do cigarro, devido ao fato de as crianças permanecerem por mais tempo na companhia destes. Sugerem-se estudos de base populacional, a fim de caracterizar esta população exposta passivamente ao tabaco, com o objetivo de traçar metas de prevenção e educação focadas no nível primário do problema.
Referências bibliográficas