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Esquadrilha da fumaça (19/7/2012)
O Globo - Cora Rónai

Era assim: não havia lugar onde não se pudesse fumar. Médicos e pacientes fumavam nos consultórios, funcionários fumavam nas repartições públicas, professores e alunos fumavam nas salas de aula das universidades, e, nas mesas dos restaurantes, cinzeiros faziam conjunto com a pimenta e o sal -- que ainda tinha dignidade e não vinha nos pacotinhos absurdos aos quais foram hoje confinados. Apesar disso, havia fumantes que cultivavam o hábito repulsivo de apagar o cigarro na xícara de cafezinho. Em alguns bares e boates fumava-se tanto que o ar podia ser cortado com faca.

Nas redações todo mundo fumava, e praticamente não existia mesa que não tivesse as beiradinhas queimadas. Fumava-se nos ônibus e nos ônibus interestaduais, na barca de Niterói e nos aviões. Os bancos dos táxis ostentavam furinhos causados por brasas. Os cigarros permanentemente acessos dos personagens de "Mad men" não são licença poética ou caricatura do passado, mas perfeita reconstituição de época. Nesse mundo coberto de fumaça, o estranho no ninho era o não fumante, que estava em minoria e que, se tivesse a falta de juízo de reclamar do cigarro alheio, perigava ser visto como bicho do mato.

Afinal, fumar era uma atividade social. As pessoas fumavam juntas enquanto bebiam, enquanto conversavam e depois do jantar. O cigarro servia para começar uma conversa, passar uma cantada, fazer as pazes. Cada fumante tinha um isqueiro mais bonito do que o outro, e mesmo os que não usavam isqueiro, mas saíam com uma caixinha de fósforos boa para a batucada, mandavam um recado para os circunstantes. Por falar nisso, todos os hotéis, bares e restaurantes distribuíam caixas de fósforos, que muitas crianças (inclusive a vossa cronista) colecionavam.

Além disso, o que seria de Hollywood sem o cigarro? Mulheres fatais fumavam para realçar o charme; jovens fumavam para mostrar rebeldia; caubóis, gângsteres e heróis fumavam, e a maneira como o faziam sublinhava o seu comportamento e as suas aspirações (com ou sem trocadilho). Desde o começo do século, o cigarro era -- literalmente -- cantado em prosa e verso. Um dos exemplos máximos das letras fumegantes é "Fumando espero", tango dos anos 1920 de Viladomat Masanas e Félix Garzó, que fez tanto sucesso na voz de Carlos Gardel que acabou ganhando versões pelo mundo todo, inclusive Brasil, na voz de Dalva de Oliveira.

A letra, hoje, é quase surrealista. "Fumar es un placer, genial, sensual..." Difícil imaginar que tenha sido escrita sem patrocínio da indústria! "Fumando espero a la que tanto quiero, tras los cristales de alegres ventanales, y mientras fumo mi vida no consumo, porque flotando el humo me suelo adormecer." E o final, apoteótico: "Dame el humo de tu boca, dame que en mí, pasión provoca, corre que quiero enloquecer de placer, sintiendo ese calor del humo embriagador, que acaba por prender la llama ardiente del amor". A quem não conhece a música, recomendo uma busca no YouTube. Além de ser o retrato de uma época, o tango é uma beleza. Procurem também a interpretação preciosa de Sarita Montiel.

Suponho que o olfato de todos, fumantes e não fumantes, era um sentido prejudicado. Só isso explica como suportávamos o fedor universal que nos cercava. Às vezes, tínhamos uns breves momentos de revelação catinguenta. Os meus aconteciam quando voltava do jornal e entrava na minha casa cheirosinha. Em contraste, o cabelo e as roupas pareciam cinzeiros: até o interior das bolsas fedia, e eu precisava deixá-las ao sol para que não ficassem excessivamente ofensivas.

O jornalista italiano Giacomo Papi, autor de "Viver sem cigarro é possível, se você souber como" (Editora Objetiva, tradução de Joana Angélica d"Ávila Melo) sustenta que, num futuro não muito distante, historiadores tentarão definir o século XX à luz dos cigarros acesos: "Não há dúvida de que, na longa lista das invenções e descobertas que modelaram o século, os cigarros ocupam um lugar fundamental, ao lado da eletricidade, do telefone, da televisão, do cinema, da energia atômica e da penicilina. E de que, mais ainda, a influência deles foi até mais profunda, impregnados como estavam nos mínimos hábitos, nos gestos cotidianos, nas ações e reações aos fatos comuns da vida. Os dedos do século XX são todos amarelados."

Papi também prevê que, dentro de 50 anos, a memória do tabaco se perderá. Parecerá incrível, às pessoas de então, que tantas vidas tenham se perdido por causa do fumo, assim como hoje nos parece incrível que, antigamente, se usassem rapé e escarradeiras (eca!). A Humanidade sempre teve um grande talento para o ridículo, e os bastõezinhos brancos através dos quais encheu os pulmões de fumaça durante tanto tempo são apenas um capítulo a mais numa longa história.

"Viver sem cigarro é possível..." é um livro fininho e despretensioso, que peguei por acaso e sem muita fé. Não fumo, nunca fumei e, consequentemente, nunca tive qualquer dificuldade de viver sem cigarro -- muito antes pelo contrário. Mas, ao descrever as agruras dos fumantes, os párias do novo século, e contar como tentou abandonar o vício, Giacomo Papi acabou criando uma leitura leve, simpática e cheia de informações curiosas sobre o tabaco.

 
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