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Carta ao amigo que perdeu o fumódromo (8/12/2014)
Revista Época / Cristiane Segatto

http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/cristiane-segatto/noticia/2014/12/carta-ao-amigo-que-perdeu-o-fumodromo.html

Entendo sua indignação quando diz que o Estado não deve se meter na sua vida privada, mas quero lhe contar uma história

Querido amigo,
Sei que na semana passada você sofreu um baque. Aquele ponto de encontro gostoso, onde se reunia com outros colegas fumantes, várias vezes ao dia, deixou de existir. Era o refúgio possível para dar uma pausa no trabalho, jogar conversa fora e voltar ao seu posto com suas habituais boas ideias. Entendo seu sofrimento. Que lugar aprazível você perdeu. Ao ar livre, com aqueles bancos antigos de praça instalados à sombra das árvores. Um cantinho de paz e sossego em meio à feiura e à aridez.

Confesso que algumas vezes cheguei a olhar com uma pontinha de inveja para o grupinho descontraído que se reunia ali. “Que lugar mais gostoso. Pena que não fumo”. Um pensamento torto que não resistia a um minuto de reflexão. Agradeço todos os dias por não ter sido atraída para esse vício. A indústria trabalhou direitinho. Empenhou-se bastante para me capturar, mas fracassou.

Tinha 14 anos quando fui abordada na porta da escola, na Zona Norte de São Paulo, pela propagandista de uma marca nova. Foi meu primeiro cigarro. Que presente bacana, não? A moça era mais bonita, mais velha e, sobretudo, parecia mais segura que eu. Vestia um macacão fashion, com um grande bolso na altura do peito. De lá, tirou uma amostra grátis com três cigarros e me ofereceu.

Naquele instante, de nada adiantou ter sido educada numa família não fumante. Enfiei a caixinha no bolso e corri para o quintal de casa. Sentada no chão e torcendo para ninguém aparecer, acendi um cigarro. Por sorte, por genética, por falta de incentivo dos amigos, ou sei lá por que, tossi, odiei o sabor e a experiência. Nunca mais tentei. Contei essa história aqui junto com as de outras 14 celebridades que conseguiram se libertar do fumo. São depoimentos inspiradores em texto e vídeo.

Meu destino poderia ter sido diferente. Hoje, poderia ser um dos 25 milhões de brasileiros dependentes de nicotina. Seria obrigada a pegar o elevador com você para soltar minhas baforadas na rua, olhando o movimento desolador daquela avenida horrível. Você merece coisa melhor. Muito melhor. Por isso, lhe escrevo esta carta.

Sou do tempo em que a indústria se achava no direito de viciar crianças na porta da escola. Se hoje nossos filhos estão livres de abordagens inaceitáveis como essa, é por que muita luta aconteceu. Muitas medidas importantes na batalha contra o tabagismo, o maior problema de saúde pública do mundo, precederam o fim dos fumódromos. Elas permitiram que, em duas décadas, o número de fumantes no país caísse de 36 milhões para os atuais 25 milhões.

Esse número precisa cair ainda mais. O tabaco mata um em cada dois de seus consumidores. É uma mortalidade absurda, equivalente a do vírus ebola. Isso significa que, se o número de fumantes não diminuir no Brasil, podemos prever 12 milhões de mortes provocadas pelo cigarro. Essas pessoas vão morrer depois de longos anos de sofrimento e gastos. Essa conta é uma das justificativas para as leis restritivas aprovadas nos últimos anos. A cada ano, o Ministério da Saúde gasta R$ 1,4 bilhão com tratamento das dezenas de males provocados pelo cigarro.

Entendo perfeitamente sua indignação quando diz que o Estado não deve se meter na sua vida privada, assim como entendo as razões dos governos e de entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) ao adotar medidas restritivas na luta contra o tabagismo.

Minha intenção, com essa carta, não é o conflito. Quero apenas lhe contar a experiência de um entre tantos outros países que extinguiram os fumódromos muito antes do Brasil. Essa não é uma invenção brasileira. Em várias cidades do mundo já não é permitido fumar sequer em áreas abertas, como praias, parques e no entorno de escolas e universidades.

Sabe o que aconteceu na Espanha? Em 2005, uma lei baniu o fumo em recintos fechados. Em 2010, a proibição passou a incluir áreas abertas no entorno de algumas instituições – entre elas, os hospitais. Um novo estudo, publicado no final de novembro, é um bom retrato dessa história. Uma pesquisa realizada com 200 funcionários do Instituto Catalão de Oncologia, em Barcelona, revelou as mudanças provocadas no comportamento dos fumantes após a adoção dessas medidas.

A porcentagem de fumantes, antes e depois da adoção das duas leis, caiu de 33% para 22%. A queda foi mais acentuada entre os funcionários acima de 35 anos (de 31% para 16%). A população que passou a evitar o fumo durante o horário de trabalho aumentou de 14% para 34%. A parcela de funcionários que buscou ajuda especializada para parar de fumar cresceu de 10% para 65%.

Não sei se o fim dos fumódromos terá um efeito semelhante no Brasil. Não sei o que acontecerá com os pedestres que, de agora em diante, terão de enfrentar um muro de chaminés ambulantes quando passam em frente das empresas. Tenho a impressão de que, no nosso caso particular, a fumaça produzida pelos meus colegas de trabalho atingia menos gente antes da extinção do fumódromo ao ar livre, instalado em espaço privado. Não sei. Tenho várias dúvidas e uma esperança.

Torço para que, daqui a um ano, você e muitos dos meus colegas tenham conseguido reduzir o consumo de cigarro graças às novas medidas. Sei que é difícil lidar com a imposição de regras, mas tente entender a mudança como um investimento em você mesmo, como tantos outros que fez recentemente para tentar parar de fumar.

Você já gastou bastante dinheiro com consultas médicas, remédios, adesivos de nicotina e outros recursos para se livrar do vício. A última foi o cigarro eletrônico, uma invenção que, dia após dia, os estudos demonstram que não é um bom recurso para quem quer parar de fumar.

A maioria dos que lutam contra o vício fracassam sucessivamente, como você. Não por burrice, falta de amor próprio ou de força de vontade. Fracassa porque o cigarro é uma praga altamente viciante. Um terço das pessoas que experimentam nicotina se torna dependente. Isso ocorre com apenas um quarto dos que têm contato com a heroína. Alguns fumantes chegam a consumir cigarros em intervalos de 15 minutos durante o dia e à noite. Os especialistas dizem que nem o crack produz tal comportamento.

Por tudo isso, o que sinto por você é a mais genuína solidariedade. Às vezes, determinadas crenças sobre o cigarro sabotam todas as tentativas de quem deseja se livrar dele. Não sei se é o seu caso, mas aqui você pode testar suas crenças.


No dia em que você chegou com um sorriso no rosto e o cigarro eletrônico nos dedos, eu já suspeitava que não funcionaria. Como eu queria ter uma notícia bombástica para lhe dar. Um super remédio, uma vacina, um método infalível contra esse tormento. Infelizmente, não tenho. Só posso desejar que você tente se livrar desse vício outra vez. Pode ser que o fim do fumódromo seja o empurrãozinho que faltava. Pode ser que não, mas não custa tentar. Você tem e sempre terá o direito de escolher fumar quando quiser. Será que isso faz de você um homem livre?

Estamos juntos.

Com carinho,
Cris

 
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