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ATAQUE AO PULMÃO E À SAÚDE PÚBLICA (6/3/2006)
ACTBR

Fonte: Carta Capital - Especial Saúde
08 de Março de 2006 - Ano XII - Número 383 

ATAQUE AO PULMÃO E À SAÚDE PÚBLICA
Os portadores de doenças associadas ao tabagismo, como o enfisema, já superam os de câncer de mama, câncer de próstata e Aids somados. Mas esses males seguem sendo menos divulgados e diagnosticados

Por Riad Younes

O enfisema é um assassino silencioso. Estima-se que, apenas nos EUA, 13 milhões de pessoas sofram da doença pulmonar obstrutiva crônica ou DPOC. Entre 5% e 8% da população mundial tem alterações tão graves nos pulmões que podem resultar em deficiência e até incapacidade definitiva de exercer as menores tarefas diárias, como pentear o cabelo ou tomar banho.

Kenji Honda/Ae

Chances.
O cigarro mata entre um terço e metade dos consumidores crônicos

Mais famoso e temido componente da DPOC, o enfisema é o denominador comum de milhões de casos graves. Mais de 90% dos portadores são fumantes e ex-fumantes.

Ao contrário da inflamação crônica, a bronquite, que decorre da irritação contínua da árvore brônquica e dos pulmões, o enfisema é praticamente irreversível. Representa a destruição final de áreas do pulmão. No local dessas lesões, formam-se bolhas cada vez maiores, cheias de ar preso dentro dos pulmões. Ar que não consegue se expirado, eliminado ou eficientemente trocado para fornecer o oxigênio necessário ao sangue. Após algum tempo, o pulmão mais parece um queijo suíço, cheio de falhas e de buracos.

“Os pulmões têm grande reserva funcional. O paciente vai perdendo tecido pulmonar progressivamente, sem perceber. Quando começa a ter falta de ar, de 40% a 50% da reserva pulmonar já foi destruída”, explica Wladimir Pereira, um dos mais renomados pneumologistas brasileiros, ativo na luta contra o tabagismo e no tratamento da DPOC.

Apesar de se tratar, sob qualquer parâmetro, de uma verdadeira epidemia, a maioria da população a desconhece e as autoridades públicas a ignoram. “O número de pacientes portadores de DPOC ultrapassa de longe o de câncer de mama, câncer de próstata e Aids somados. Apesar disso, só há políticas públicas para a luta contra essas outras doenças. Parece que o enfisema não desperta grandes interesses”, compara Pereira.

O tamanho do problema entre os brasileiros é de assustar. Dados oficiais do SUS mostram que o governo gastou, em 2004, cerca de 700 milhões de reais no tratamento de DPOC, 20% mais do que foi dedicado ao tratamento de todos os tumores malignos juntos. O número de internações hospitalares por DPOC foi 10% superior às hospitalizações por câncer.

Tendo em vista que a Organização Mundial da Saúde estima entre 25% e 50% o porcentual de portadores de DPOC que não recebe qualquer atendimento médico, e que a maioria nem sabe que tem o problema, percebemos a dimensão da tragédia. Estima-se que, nos próximos 15 anos, a DPOC será a terceira causa mais freqüente de morte no mundo, atrás apenas da doença cardíaca isquêmica (infarto) e da doença vascular cerebral (derrame).

Mas a gravidade do problema ainda não despertou uma reação proporcional por parte do sistema de saúde brasileiro. “Temos diversos institutos de câncer, de coração, de ortopedia... Já os institutos de pulmão são raros”, lamenta Wladimir Pereira.
Diretamente ligada ao tabagismo, a DPOC tem características peculiares que a tornam um alvo potencialmente fácil para campanhas e políticas de saúde. A causa é clara, a prevenção facilmente dirigida, a população-alvo claramente detectável, e suas conseqüências sobre a saúde, indubitáveis.

Patricia Stavis

Comprovado.
Há formas eficazes de tratar os doentes, diz Pereira

O tabaco é, provavelmente, um dos raros produtos fabricados e vendidos legalmente com o objetivo singular de manter um vício que leva à morte entre um terço e metade de seus consumidores crônicos. E ele não poupa ninguém. Ricos e famosos já sucumbiram à sua ação devastadora. Nat King Cole, Susan Hayward, George Harrison, John Houston, Leonard Bernstein, John Wayne, Sarah Vaughan, Yul Brynner, Luiz José Costa e Mario Lago, entre outros nomes. E até os próprios donos de uma das maiores indústrias de tabaco no planeta, a RJ Reynolds. Os famosos RJ Reynolds I, II e III. Todos morreram com DPOC e outras doenças diretamente causadas pelo tabaco.

Como se não bastasse, dados do Corpo de Bombeiros dos EUA indicam que os incêndios são dez vezes mais comuns em domicílios de fumantes do que de não-fumantes.
Tratar enfisema é bem mais complexo, e menos eficiente, que preveni-lo. O modo mais eficaz de bloquear o avanço da DPOC é parar de fumar. Quanto mais precocemente se pára, e por mais tempo se permanece longe do cigarro, maior a recuperação da função pulmonar.

“As políticas de saúde pública ainda são consideradas inadequadas no combate ao tabagismo e no auxílio a quem quer parar de fumar”, afirma Pereira. Apesar de vários estudos e pesquisas realizados ao redor do mundo, inclusive no Brasil, apontarem claramente os métodos mais eficazes para ajudar as pessoas a largar o cigarro, dificilmente se encontra algum programa claro, com acesso universal para todos os fumantes, em postos de saúde ou hospitais públicos brasileiros.

Esses programas deveriam incluir orientações comportamentais, além de administração de nicotina (em adesivos ou chicletes) e de antidepressivos como bupropiona ou nortriptilina. “Mas onde o fumante brasileiro consegue esses medicamentos?”, questiona Pereira. “Eles não são distribuídos pelo SUS”, completa o especialista.

De acordo com pesquisas repetidas em qualquer população de fumantes no mundo, somente de 3% a 5% dos tabagistas conseguem parar de fumar por mais de três meses sem o auxílio de um programa sério e completo. A ausência de políticas nesse sentido chega a despertar suspeitas na visão do pneumologista. “Não há dúvida do método mais eficaz, mas tudo parece que está sendo feito para a população continuar fumando”, analisa Pereira.

Insistir na prevenção é fundamental. Mas identificar os portadores de DPOC, nas várias fases da doença, também é indispensável.

O método de detecção é fácil e relativamente barato. Basta realizar uma prova de função pulmonar, chamada espirometria. A pessoa assopra dentro de um aparelho que mede a função pulmonar e detecta sinais de anormalidade. A obstrução pulmonar pode assim ser quantificada e a gravidade da DPOC, diagnosticada.

Um estudo recentemente publicado na revista British Medical Journal, por C.P. Schayck, da Universidade de Maastricht, na Holanda, avaliou a eficiência e o impacto da detecção de pacientes com alto risco para DPOC, utilizando a espirometria. Os pesquisadores submeteram 651 fumantes ao exame e demonstraram que existe clara piora da função respiratória com a idade. Somente 10% dos fumantes jovens, com menos de 40 anos, apresentaram resultados compatíveis com DPOC. Entre os fumantes com idade superior a 60 anos, 30% situavam-se nessa mesma categoria.

O quadro piora entre os que apresentavam tosse crônica. Nesse grupo, 50% dos fumantes tinham um padrão claro de DPOC. Schayck mostrou também que o custo do exame era relativamente barato, ao redor de 10 euros por teste. Economicamente viável, portanto, para a realização de programas de rastreamento da doença na população de alto risco.

Existe uma pergunta óbvia, que imediatamente aparece, principalmente para quem vai pagar a conta desses exames, quer seja a autoridade pública responsável ou o convênio de saúde. Será que vale a pena um fumante descobrir que já está com DPOC instalada, claramente afetando a função pulmonar normal? Em outras palavras, existe algo a ser feito para reverter o quadro, tendo em vista que o enfisema representa a destruição final do pulmão?

“Atualmente, não há mais dúvida”, garante Wladimir Pereira. “Os tratamentos iniciados precocemente no curso da doença pulmonar conseguem reduzir a velocidade de piora da função pulmonar. Estudos recentes confirmaram que o uso de alguns medicamentos, como antiinflamatórios à base de cortisona, administrados em inalações, pode retardar a progressão da DPOC.”

Outra linha de pesquisa poderá contribuir para melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Estudos realizados no Hospital do Câncer AC Camargo, em São Paulo, pelo grupo de apoio ao tabagista da instituição, comprovaram que os fumantes com diagnóstico de DPOC fumam maior número de cigarros que os fumantes sem DPOC. Mas, paradoxalmente, os portadores de DPOC conseguem parar de fumar em porcentagem significativamente superior ao grupo sem doença pulmonar.

“Percebemos, nesse estudo, que os fumantes com problemas pulmonares diagnosticados, mesmo sem sintomas importantes, tinham maior motivação para largar o cigarro”, explica Daniel Deheinzelin, pneumologista do Hospital do Câncer e membro do grupo de pesquisa do tabagismo. Nos casos estudados, a detecção precoce de problemas pulmonares modificou a evolução e a qualidade de vida dos doentes.

“O paciente com DPOC experimenta uma deterioração da qualidade de vida, à medida que a doença avança. Torna-se inválido, sofre de desnutrição grave. É internado repetidamente, com custo enorme para a família e a sociedade. Controlar a DPOC poderá ter impacto elevado também nos gastos públicos”, preconiza Deheinzelin.


Mas os dados do Hospital do Câncer corroboram as críticas de Wladimir Pereira. Infelizmente, ainda hoje, a maioria dos atendimentos dos doentes com DPOC é pontual. O paciente é tratado nas crises, quando sofre grande piora de sua função respiratória. Vive entrando em prontos-socorros. Passada a crise, o doente é liberado, geralmente para voltar somente quando o problema se manifestar de forma aguda.

“O tratamento tem de ter continuidade, como na hipertensão e no diabetes. No Brasil, isso ainda está longe da realidade. Os médicos parecem estar sempre correndo atrás do prejuízo, tratando as conseqüências, poucas vezes as causas do problema. Na Inglaterra, o governo decidiu que o fornecimento de bupropiona no sistema de saúde pública deveria ser prioritário”, conta Deheinzelin.

No Brasil, está mais que na hora de as autoridades darem atenção ao número crescente de doentes pulmonares graves e aos correspondentes prejuízos à saúde dos brasileiros e aos cofres públicos. E talvez, somente talvez, em ano de campanha eleitoral, pensem na DPOC como um problema de saúde pública. Um décimo da população brasileira agradeceria por lhe tirar um enorme peso do peito.
Literalmente.

 
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