Agenda
Artigos
Boletim
Campanhas
Enquetes
Notícias
Press Releases

 

 
 

 
Principal > Comunicação > Notícias

notícias

Companheiro Cruel (28/3/2006)
ACTBR

Fonte: Estadão - Suplemento Feminino, 25 e 26 de março de 2006

Entrevista - Paula Johns

As mulheres constumam ter uma ligação afetiva com o cigarro e, assim, têm maior dificuldade para abandoná-lo

Fabiana Caso

Para uma grande parcela das mulheres, tabagismo não é apenas inalar nicotina, amônia e mais de 4.700 substâncias tóxicas. Por trás do vício químico, há também uma dependência afetiva e psicológica, a sensação de ter um momento próprio e até um companheiro no tal cigarrinho. Junta-se a isso o temor que muitas têm de engordar se pararem de fumar, mais a imagem de modernidade e independência que o marketing da indústria tabagista ainda consegue transmitir.

Apesar de todas as restrições, o número global de pessoas que começam a fumar continua crescendo e, quem diria, as mulheres lideram o ranking. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que um terço da população mundial adulta seja fumante, incluindo 250 milhões de mulheres. O consumo de cigarro vem caindo somente em países desenvolvidos e naqueles que adotam medidas de restrição mais severas - o Brasil é um deles. Mas, mesmo nesses países, mais meninas iniciam-se no tabagismo.

Uma pesquisa do Instituto Nacional do Câncer (INCA), feita com jovens de 13 a 15 anos, em escolas públicas e particulares de 12 capitais brasileiras, revelou que, do total de iniciados no tabagismo, 54% são do sexo feminino e 41%, do masculino. Todos esses dados são enfatizados pela socióloga Paula Johns, de 38 anos, coordenadora da Rede Tabaco Zero. Ela abandonou o tabagismo há três anos: fumava cerca de um maço por dia. Até largar de vez o vício, teve várias recaídas, mas saiu vitoriosa.

Depois de trabalhar em uma ONG feminista no Rio, Paula coordenou um projeto nacional de capacitação de agentes de saúde em controle do tabagismo, com foco na mulher, numa parceria com o INCA. Essa ação lhe rendeu um prêmio da Organização Mundial de Saúde, e serviu como embrião para a Rede Tabaco Zero (www.tabacozero.net), uma aliança de organizações da sociedade civil engajadas no tema, fundada no fim de 2003.

Como coordenadora da Rede, Paula batalha por financiamento estrangeiro, faz ponte entre diversas organizações, promove seminários e tenta sensibilizar autoridades para a importância de medidas de contenção do tabagismo. Ela dá um conselho para quem quer deixar o cigarro: "Pense de forma positiva, como: se eu conseguir parar de fumar, terei poder para conquistar qualquer outra coisa que queira."

O cigarro piora a tonicidade da pele, amarela os dentes. A vaidade feminina não seria um breque natural à iniciação tabagista? Por que as meninas estão fumando tanto?

Há uma questão séria e universal: a adolescente quer fumar para controlar o peso. Já as mulheres mais velhas têm medo de parar de fumar porque acham que vão engordar. Há o mito de que o cigarro emagrece, mas o que acontece é que a menina suprime o apetite fumando: ao invés de comer, fuma. Saiu uma pesquisa recente mostrando que as meninas que se iniciam no tabagismo têm muito mais dificuldades para criar músculos, ou seja, a tendência é que elas engordem mais a longo prazo, porque ficam flácidas. Se você já é fumante e pára, vai acontecer uma mudança no seu metabolismo geral. Então, é normal que, no início, você engorde um pouco, mas depois de um ano o peso costuma se estabilizar.

Com relação ao vício, há diferenças entre mulheres e homens? Elas realmente têm mais dificuldade para largar o cigarro?

Acho que tem a questão social, de ser o momento que a mulher tem com ela mesma. Muitas dizem que é o único momento de prazer que têm. É uma relação mais afetiva, o cigarro supre carências. O homem é mais decidido quando resolve parar de fumar. A mulher é emotiva, fica naquele vai-e-vem, é mais indecisa. Além da questão das mudanças hormonais, que também é uma dificuldade. Você está mal humorada, na TPM, aí junta a obrigação de parar de fumar e você tem vontade de matar (risos).

As mulheres desenvolvem mais doenças em decorrência do vício?

Nos Estados Unidos, o número de casos de câncer no pulmão entre mulheres está aumentando, mas isso é uma decorrência do aumento do tabagismo feminino nas últimas décadas. Geralmente, as doenças são semelhantes as dos homens. As situações especiais estão ligadas à associação com hormônios - anticoncepcionais orais e tratamentos de reposição. Essa combinação é uma bomba atômica, com grande risco de derrame. A menopausa precoce também é favorecida, porque a mulher fumante produz menos estrógeno. Há ainda maior risco de gravidez tubária (fora do útero) e maior dificuldade para engravidar. As pesquisas mais recentes mostram também maior vulnerabilidade ao câncer de colo de útero e influência do fumo passivo no câncer de mama. No homem, o tabagismo pode causar até alteração do DNA do esperma.

Como o marketing da indústria atingiu as mulheres?

Sempre foi altamente ligado à questão da emancipação da mulher, tanto que você pode reparar que a maioria das feministas fumam, assim como as intelectuais e ativistas. O discurso é: você pode fazer o que o homem faz, você tem os mesmos direitos. Se você é uma mulher que enfrenta o mundo, a vida, você é poderosa e forte, tem que fumar. A propaganda do cigarro nunca vendeu produto, e sim um estilo de vida, uma inspiração. A indústria usa esse marketing até hoje nos países asiáticos e africanos, onde a mulher está começando a ser independente.

E a adolescente brasileira ou dos países desenvolvidos ainda começa a fumar apostando nesse estilo de vida que a indústria tenta vender?

A situação mudou um pouco. Isso é uma opinião minha, não é consenso. Mas eu acho uma babaquice esse negócio de proibição para menores de 18 anos. Não tem coisa mais excitante e interessante para o adolescente do que não poder consumir aquilo. Quer dizer: o cigarro está em toda esquina, qualquer um vende para qualquer um. O efeito dessa situação é melhor do que fazer propaganda direta. Adolescente é rebelde por natureza, é um acontecimento roubar um cigarro de um tio e ir fumar escondido. Hoje, os pais ficam falando para eles não fumarem, que faz mal, e muitos começam por rebeldia. As campanhas que alertam para câncer e problemas de saúde não têm efeito sobre o jovem, porque, para ele, os 30 anos estão muito longe. Acho que é muito mais interessante fazer eventos como um que fiz no Rio. Foi um seminário com o pessoal do hip hop. Passamos um final de semana apenas conversando sobre a indústria do tabaco. O foco era alertar para o fato de que eles estavam sendo manipulados pela indústria. Então eles compuseram raps com esse tema. Quando você entra na questão de como a indústria engana todo mundo há décadas, você consegue pegar o elemento de indignação do jovem.

A Rede Tabaco Zero também tem um foco em questões ambientais. Além da fumaça e do perigo do fumo passivo, quais são as demais conseqüências ambientais do tabagismo?

A folha para o fumo do cigarro industrializado é secada em um forno à lenha. São toneladas de lenha usadas para produzir cigarro, ou seja, mais desmatamento. Além disso, leva uma quantidade absurda de agrotóxicos, porque o tabaco é um pesticida natural. Isso tem conseqüência nos lençóis de água, na terra. Então há um monte de conseqüências ambientais, principalmente para países produtores como o Brasil, que é o maior exportador de folha de fumo do mundo. São 800 mil toneladas por ano.

As campanhas antitabagistas têm sido eficientes?

Elas estão dando mais resultados com os homens, as mulheres estão parando de fumar em um ritmo menor. Eu tenho meu palpite sobre isso: acho que tem a ver com a forma de abordar a questão da mulher e do fumo. É uma forma que culpa a mulher, bota a responsabilidade nas costas dela, associa com a gravidez. Aí ela fica com raiva e não pára de fumar mesmo. Além disso, tem o lado emocional: é o amigo da onça, mas está sempre ali. Muita mulher que fuma hoje tem um monte de filhos, fica em casa e o único momento que tem para ela é quando está fumando um cigarro. Ela pode estar frustrada com o casamento, de saco cheio da vida e o cigarro é sempre um companheiro. A gente não está sabendo responder a isso como campanha antitabagista. Já a indústria consegue se comunicar bem com as mulheres ainda hoje.

Qual seria a campanha adequada para elas?

Fizemos uma no rádio uma vez. Não dissemos: fumar vai te deixar com a pele feia, te dar câncer de pulmão, isso e aquilo. A mensagem era: há cada vez mais mulheres bem-sucedidas e de bem com a vida que estão vendo que o cigarro não tem nada a ver com o estilo de vida que elas escolheram para si mesmas. Era uma mensagem para colocar a pessoa para cima e não para baixo, como costuma ser. O marketing da indústria de cigarro também trabalha assim: coisas que você gostaria de fazer, um estilo que você quer ter. Temos de responder igual.

MARKETING

Depois de terem perdido alguns processos nos Estados Unidos, as indústrias tabagistas foram obrigadas a tornar públicos os seus documentos de pesquisa. Com isso, foi revelado um marketing absolutamente calculista no direcionamento das marcas. Baseando-se nesses dados, a socióloga Paula Johns brinca que as marcas consumidas podem revelar mais sobre as pessoas do que a astrologia. Suas pistas:

MARLBORO: A marca mais consumida no mundo costuma conquistar aqueles que têm espírito aventureiro e gostam de explorar novas fronteiras.

FREE: Como o nome já diz, evoca a liberdade de expressão, uma espécie de intelectual light, que acredita que cada um faz o que quer.

LM: Voltada para o público jovem, que gosta de viajar, curtir um som.

PALLMALL: Foi relançada com embalagem arredondada, em cores especiais. Busca atingir um público sofisticado ou seduzir o mais humilde, evocando requinte. Afinal, o preço é popular.

BENSON & HEDGES: Tem um público restrito no Brasil, o preço é alto. O perfil dos usuários costuma ser clássico: aquele tipo que não pode sair de casa com a roupa amassada. O intuito da versão mentolada é atrair jovens, que estão se iniciando no tabagismo.

 
ACT | Aliança de Controle do Tabagismo
Rua Batataes, 602, cj 31, CEP 01423-010, São Paulo, SP | Tel/fax 11 3284-7778, 2548-5979
Av. N. Sa. Copacabana, 330/404, CEP 22020-001, Rio de Janeiro, RJ | Tel/fax 21 2255-0520, 2255-0630
actbr.org.br | act@actbr.org.br
FW2