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Nesta segunda, sem falta (21/6/2004)
João Ubaldo Ribeiro

Fonte: O Globo, 20 de junho de 2004

Nesta segunda, sem falta
JOÃO UBALDO RIBEIRO

Eis, finalmente, o dia em que esta coluna, admito que, no caso, meio sem moral, ou sem moral nenhuma, resolve abraçar uma causa. Deve ser, como tudo mais, trauma de infância, mas sempre tive vontade de que alguém se referisse a mim como abraçado a uma causa. Talvez nos tempos de político estudantil eu tenha abraçado uma causa ou outra, mas meio como namoro de carnaval, efemeramente e sem conseqüência alguma. Daí para cá, só causas muito vagas, como o bem-estar da Humanidade, a justiça social, a felicidade do nosso imenso Brasil e similares, que não valem, até porque acho que todo mundo as abraça de uma forma ou de outra e costumam ser mais da boca para fora.

Mas agora, sério mesmo, resolvi abraçar uma causa. Prometo não encher o saco de ninguém, a não ser provavelmente neste instante, que espero não venha a repetir-se. É o seguinte: abracei a causa do antitabagismo. Antitabagismo light, bem entendido. Não vou sair por aí com extintores de incêndio be bolso para apagar cigarros ou charutos, não distribuirei folhetos ou e-mails, não farei pregações e, principalmente, não vou ter crises terminais de tosse e falta de ar, quando alguém acender um cigarro no mesmo recinto onde eu me encontrar. E não vou fazer abaixo-assinados ou correlatos para impor normas totalitárias quanto ao fumo, que já vigoram, por exemplo, nos Estados Unidos ou, em menor escala, em Brasília. Mas vou deixar de fumar (gracinhas sobre como eu já disse isto dezenas de vezes devem ser dirigidas ao editor, por bondade) e vou tentar contribuir para que outros deixem, ou não comecem.

Faz um mal desgraçado mesmo, esse veneno. Não existe função ou órgão humano que o cigarro não prejudique ou danifique de vez. Eu mesmo sou um patético exemplo dessa situação degradante. Acordo bem, tomo um café, acendo o primeiro de dezenas de cigarros do dia e passo imediatamente a me sentir com o mal-estarzinho a que já me habituei como parte da existência, mas que não é, é o cigarro. Tanto assim que, quando consegui levar mais de um ano sem fumar, isso não acontecia. Mas cometi a mais abominável das burrices. Depois de tanto tempo parado, estava numa festa, vi um maço de cigarros sobre uma mesa, fiz piada sobre como já estava livre do vício e fumei dois. Foi o suficiente para, no dia seguinte, comprar só unzinho no boteco, para depois do café. No dia posterior, dois, um para depois do almoço também. Acabei me “fixando” em quatro por dia, mas, lamentavelmente, isso só durou pouco mais de uma semana, como seria de prever-se.

Quando tentei uma academia de ginástica indicada a coroas que almejam uma boa qualidade de vida na senilidade (se bem que eu nutra alguma ambivalência sobre qualidade de vida comendo capim, bebendo água e deixando de lado qualquer coisa que dê prazer, a não ser esses prazeres poético-fajutos com que nos empulham em artigos e reportagens, tais como as famosas alegrias da velhice, melhor descritíveis como parcos consolos e olhe lá), me fizeram uma avaliação da capacidade respiratória e, como acho que já contei aqui, devo ter entrado para os anais de casos inexplicáveis da medicina, pois conseguia andar e falar com os pulmões naquele estado. O médico até hoje me telefona de vez em quando, curioso sobre minha presente condição. Acredito que está preparando terreno para me pedir que, após meu certamente próximo passamento, eu doe meus pulmões à ciência, como exemplo único de carvão que consegue oxigenar um organismo.

Está ficando pior e, de vez em quando, me pego perdendo o fôlego no meio de algo que estou dizendo. Certo, isso pode poupar o mundo de mais uma besteira e, baiano sendo, tenho a tendência a nunca usar dez palavras quando posso usar cem e qualquer coisa que fale tem dois quilos de advérbios e quatro de adjetivos. Mas é chato, dá a impressão de que o sujeito vai morrer e inquieta um pouco. Assim como é chato subir dois lances de escada e ficar pensando em silêncio se não é o caso de incomodar os presentes e pedir que chamem uma ambulância com tenda de oxigênio, já que, pessoalmente, eu não teria fôlego para falar ao telefone nos próximos minutos. Até o teclado deste computador, que já sofre o suficiente com meus textos, tem de ser escondido das visitas de mais cerimônia, porque, depois de limpo tecla por tecla, em dois dias está parecendo o Buraco Negro de Calcutá.

O cigarro, enfim, não está com nada. Até a coisas insuspeitadas, ou pouco comentadas, sua ação maléfica se estende. Leio aqui o embaraçoso estudo de uma universidade americana, que levou anos e anos para ser conduzido e chegou a uma conclusão vexatória para os fumantes do sexo masculino. Não, não é impotência sexual — essa já é manjada e não conheço um fumante (aliás, não conheço um homem, nem na faixa dos 90) que admita problema em tal área, ainda mais nestes tempos viagráticos. É meio delicado abordar isto, mas a verdade é que os americanos se dedicaram a medir periodicamente o como-direi de fumantes e não-fumantes e a régua não mente: o dos fumantes encolhe significativamente, ao longo do tempo. Não posso falar pelas mulheres dos fumantes, é claro, mas acho difícil algum compatriota não se abalar com essa alarmante revelação.

Enfim, concito a todos: Brasileiras e brasileiros, vamos parar com essa porcariada que está nos matando! Amanhã, dia tradicional para começar regimes e iniciar atividades invariavelmente postergadas, jogamos o último maço no lixo e nascemos de novo. Quanto a mim, podem ter certeza de que resistirei e vencerei. Precisar ser amarrado durante a semana é apenas um detalhe.
JOÃO UBALDO RIBEIRO é escritor.

http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/ubaldo.asp
 
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