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Vontade não basta (14/6/2004)
Revista Veja

Veja, entrevista, edição 1857, 090604.
 
Vontade não basta

Médica americana diz que tratar o tabagismo
como doença crônica ajudaria os fumantes a
largar o vício do cigarro


Anna Paula Buchalla


Stanley Rowin
"Associar o abandono do vício exclusivamente à força de vontade causa muita frustração nas pessoas que não conseguem se livrar do cigarro. O fumante acaba mais desestimulado"

Até pouquíssimo tempo atrás, acreditava-se que a força de vontade bastava para quem quisesse parar de fumar. A ciência se encarregou de provar o que na prática já se sabia – mesmo querendo muito, é difícil abandonar o cigarro. Uma nova corrente na medicina agora vê o tabagismo como uma doença crônica. De acordo com ela, assim como um hipertenso ou uma vítima do colesterol alto precisa adotar novos hábitos, sem abrir mão do auxílio de remédios, a maioria dos fumantes necessita de ajuda, além da força de vontade, para abandonar o vício do cigarro. Essa ajuda pode vir na forma de um antidepressivo, de um implante de nicotina ou de terapias comportamentais, cuja eficácia clínica já está comprovada. Por trás dessa nova visão está a médica americana Nancy Rigotti, de 51 anos, professora da Faculdade de Medicina de Harvard. As pesquisas de Nancy produziram mudanças importantes nos tratamentos dispensados aos fumantes. Atualmente, ela é uma das dirigentes da Sociedade para Pesquisa de Nicotina e Tabaco, uma organização internacional que inclui renomados estudiosos. De seu consultório, no Hospital Geral de Massachusetts, ela concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – A senhora defende que os médicos encarem o tabagismo como uma doença crônica. Por quê?
Nancy – Trata-se de uma doença crônica, porque é muito difícil quebrar no organismo o vício da nicotina. Todos nós conhecemos a história de alguém que ficou um bom tempo sem fumar, mas acabou voltando – é o que chamamos muito apropriadamente de recaída. E a maior parte das recaídas ocorre depois de apenas três meses. É preciso ter em mente que é longo o processo que vai do momento em que o fumante resolve abandonar o vício até quando ele realmente se torna um não-fumante.

Veja – Se o fumo é um problema crônico como a hipertensão e o colesterol alto, ele exige, então, tratamento por toda a vida.
Nancy – Exatamente. Assim como um hipertenso não deve abandonar o exercício físico, por exemplo, que traz benefícios enormes a sua saúde, um ex-fumante também deve adotar e manter hábitos ainda mais saudáveis do que uma pessoa que jamais fumou. E, se necessário, deve voltar a recorrer a algum tratamento químico e a programas psicológicos para aprender a lidar com a falta do cigarro.

Veja – Não basta ter força de vontade?
Nancy – Não acredito que associar o abandono do vício exclusivamente à força de vontade seja a forma correta de encarar essa questão. Inclusive porque causa muita frustração nas pessoas que não conseguem se livrar do cigarro. Não bastasse ter a consciência de que o fumo está agredindo a sua saúde, o fumante ainda se sente incapaz de combatê-lo. E acaba mais desestimulado ainda. Por esse motivo, os médicos que hoje atuam nessa área vêm martelando a idéia de que esse é um trabalho que não requer só força de vontade. O grande desafio é eliminar o vício da nicotina, e isso se consegue com duas coisas: remédio e terapia.

Veja – Qual a porcentagem de sucesso dos tratamentos à disposição?
Nancy – Os melhores tratamentos têm uma taxa de sucesso da ordem de 40% no longo prazo. Ou seja, de cada 100 pessoas que se submetem a eles, quarenta deixam mesmo de fumar. Parece pouco, mas é um tremendo resultado. Para se ter uma idéia, de cada 100 pessoas que resolvem dar um basta no vício, sem recorrer a ajuda terapêutica, apenas cinco abandonam de fato o cigarro.

Veja – E quais são os métodos de maior eficácia?
Nancy – Existem basicamente dois métodos cuja eficácia se mostrou superior, segundo as evidências clínicas. Um deles é o que faz uso de remédios à base de bupropiona, um antidepressivo. O outro é o da reposição controlada de nicotina. Também já está comprovado que as terapias comportamentais são muito eficientes. Elas podem ser aplicadas em grupo, individualmente ou até mesmo em consultas por telefone. Os pacientes aprendem a entender por que fumam, a identificar as situações que os deixam mais ansiosos por um cigarro – se no trabalho, depois das refeições, para relaxar etc. Essa conscientização os faz mudar de atitude, quebrando o circuito cerebral que leva à vontade de fumar. Em outras palavras, eles aprendem a lidar com seus sentimentos sem a ajuda do cigarro. Mas as terapias comportamentais são mais eficientes quando associadas a remédios.

Veja – O antidepressivo bupropiona é mais efetivo do que a reposição de nicotina?
Nancy – Há um único estudo que sugere isso. Na comparação com placebo, a bupropiona se mostrou mais potente do que a reposição de nicotina.

Veja – E quanto à psicoterapia tradicional?
Nancy – A psicoterapia pressupõe uma série de idas ao consultório de um psiquiatra ou de um psicólogo, o que leva muito tempo e custa caro. Para parar de fumar, as terapias comportamentais são de longe as mais práticas. Elas reeducam e dão apoio psicológico – e isso é tudo de que um ex-fumante precisa no início. Em geral, oito semanas são suficientes para colher resultados com esse tipo de tratamento.

Veja – Grandes laboratórios farmacêuticos pesquisam novas substâncias para combater o vício. Quem quer parar de fumar pode ter esperança nessas iniciativas?
Nancy – Tudo indica que sim. Há pelo menos duas substâncias bastante promissoras, que trabalham de formas diferentes. Elas devem se tornar uma alternativa para quem não teve sucesso com outros remédios ou é alérgico a algum dos componentes das fórmulas atuais. Tais medicamentos provavelmente serão lançados nos próximos dois anos.

Veja – Qual é o mecanismo de ação desses remédios?
Nancy – Um deles inibe a ação da nicotina e, dessa forma, reduz a vontade de fumar. O outro atua especificamente nos centros cerebrais responsáveis pelo bem-estar. Nesse caso, o objetivo é diminuir a sensação de prazer causada pelo cigarro. Esse segundo remédio terá a vantagem adicional de trazer em sua fórmula uma molécula que evita o ganho de peso decorrente do abandono do cigarro.

Veja – Por que algumas pessoas conseguem largar o cigarro sem grandes dificuldades?
Nancy – Porque são menos propensas geneticamente a se viciar em nicotina. Mas uma coisa é certa: quanto mais se fuma e quanto antes se começa a fumar, mais difícil é largar o vício. Tanto que alguns especialistas defendem a tese de que o tabagismo deveria ser visto como uma doença pediátrica, visto que é no fim da infância que a maioria das pessoas adere ao cigarro. O dado lamentável é que o melhor jeito de parar de fumar hoje, pelo menos nos Estados Unidos, é ter um infarto. O fumante fica cara a cara com a morte, e só então passa a ter a real dimensão dos malefícios do cigarro. Infelizmente, não é suficiente alertar para as estatísticas das doenças causadas pelo tabagismo – que, por exemplo, um fumante tem de duas a três vezes mais riscos de sofrer de distúrbios cardiovasculares do que um não-fumante. Ou que a probabilidade de um fumante desenvolver um câncer de pulmão é de dez a vinte vezes maior. Por uma razão psicológica insondável, a pessoa que fuma tende a achar que nada de mau vai acontecer a ela. Muitos usam a desculpa de ter um bom físico, de fazer ginástica, ou até mesmo de fumar cigarros light – que, por sinal, fazem tão mal quanto os outros.

Veja – Muitos fumantes acreditam que os médicos exageram ao atribuir tantos males ao cigarro.
Nancy – É verdade, e esse é um equívoco que pode ser fatal. Como acaba de ser divulgado pelo Departamento de Saúde dos Estados Unidos, os efeitos nocivos do tabaco são muito maiores do que se imaginava. O fumo prejudica praticamente todos os órgãos do corpo – e causa doenças sobre as quais não havia suspeita de ligação com o fumo, como catarata e cânceres cervicais, renais, do pâncreas e do estômago. Para nós, especialistas, tudo isso não é novidade. O documento, na verdade, resume o que já era consenso entre médicos e cientistas.

Veja – As mulheres têm mais dificuldade de abandonar o vício do que os homens?
Nancy – Em alguns estudos específicos com remédios, as mulheres não se saíram tão bem quanto os homens. Uma das razões está na própria fisiologia feminina. As oscilações hormonais típicas das mulheres tendem a potencializar os sintomas de abstinência e a prejudicar as respostas às terapias antifumo. Ou seja, as mulheres são mais vulneráveis aos efeitos do cigarro. Além disso, para elas, mais do que para os homens, o cigarro costuma ser uma espécie de muleta emocional: representa a sua individualidade, um tempo que elas reservam para si próprias. Isso ajuda a explicar por que as mulheres estão fumando tanto e por que custam a abandonar o cigarro. Isso sem falar no que todo mundo já sabe: as campanhas publicitárias da indústria do tabaco que promovem a imagem da mulher liberada, urbana, bem-sucedida, de alta classe. Ganhar peso é outra coisa que preocupa mais as mulheres do que os homens – elas têm medo de engordar muito depois de largar o vício, o que efetivamente costuma ocorrer. Por causa do cigarro, os fumantes conquistam um peso artificial, abaixo do que teriam se não fumassem, já que a nicotina comprovadamente acelera o metabolismo. Entre os que param, o ganho de peso médio é de 4 quilos. Nada que uma academia de ginástica não resolva.

Veja – A senhora acredita que será mais fácil deixar de fumar dentro de poucos anos?
Nancy – Há pelo menos duas razões que me fazem acreditar que sim. Uma delas são os remédios que devem se tornar cada vez mais eficazes. A outra são as políticas de saúde pública que procuram desencorajar as pessoas a acender um cigarro. Em países como os Estados Unidos e o Brasil, as restrições ao fumo aumentam a cada dia. E menos fumaça no ar é um passo para evitar a vontade de fumar. Uma experiência bem-sucedida nesse sentido é a de Nova York. O índice de fumantes caiu brutalmente desde que se partiu para medidas severas. Primeiro, aumentou-se o preço do cigarro, com impostos altíssimos. Depois, baniu-se totalmente o fumo de restaurantes e bares. Como ficou quase impossível fumar em lugares públicos, o cigarro está menos presente na rotina das pessoas. Em terceiro lugar, foram implementados programas de apoio para ajudar as pessoas que queriam parar de fumar. O sucesso está na combinação das três medidas. Em se tratando de cigarro, não é por meio de ações isoladas que se conseguirá diminuir a incidência do fumo em grandes populações.

Veja – E quanto à restrição à propaganda, ela é mesmo eficaz?
Nancy – Sem dúvida. Aliás, do ponto de vista propagandístico, há um outro grande revés: o fumo passou a ser associado a classes menos abastadas. Embora as campanhas publicitárias ainda sejam dirigidas a públicos mais elitizados, os ricos fumam cada vez menos. Com isso, podem influenciar os mais pobres. As normas sociais estão mudando, a tolerância ao cigarro está cada vez menor, e eu acho que isso é bom.

Veja – Recentemente, quase 200 países aprovaram um tratado da Organização Mundial de Saúde (OMS) que prevê controle sobre o comércio de cigarro, limites à propaganda, aumento de impostos e maior divulgação dos malefícios que ele causa. Por que a iniciativa não saiu do papel?
Nancy – Apesar da boa vontade de muitos países, o problema é que temos um poderoso inimigo: a indústria do tabaco, que movimenta centenas de bilhões de dólares e dá emprego a milhões de pessoas. Há dinheiro demais envolvido nessa questão. Além disso, muitos governos estão diretamente envolvidos com a produção do tabaco.

Veja – A senhora já fumou?
Nancy – Para falar a verdade, tentei fumar algumas vezes, só para ver como era. Pude constatar que a nicotina é uma droga pesada, e essa experiência me fez entender por que as pessoas fumam. Mas ainda bem que não passou disso.

 
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