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FUMO PASSIVO (4/5/2004)
Editorial - Folha de São Paulo

Folha de S.Paulo, seção Opinião/Editoriais, 030504.
 
FUMO PASSIVO

Não há a menor dúvida de que o cigarro faz mal aos fumantes. Quão nocivo é o tabaco para os chamados fumantes passivos, contudo, permanece uma questão em aberto. Um recente estudo, publicado no prestigioso "British Medical Journal", traz dados interessantes.
Durante seis meses, em 2002, vigorou em Helena, no Estado de Montana (EUA), a proibição de fumar em lugares públicos e de trabalho. Depois, o veto foi revertido na Justiça. Nesse período, verificou-se uma redução de 40% no número de infartos agudos do miocárdio que ocorreram na cidade. Eles baixaram de 40 para 24, fenômeno que não se repetiu nas vizinhanças, onde não vigia a proibição. Mais surpreendente ainda, suspensa a proscrição, os ataques cardíacos voltaram a subir na cidade.
Até agora, a maioria dos estudos sobre o fumo passivo se centrava nos efeitos da exposição de longo prazo, como é o caso do câncer. O que o estudo de Helena agora indica é que a ação nociva mais importante pode dar-se sobre os fatores que aumentam o risco de infarto agudo do miocárdio, especialmente no caso de pessoas com história prévia de doenças coronarianas.
Seria precipitado, a partir desse estudo apenas, concluir que leis contra o fumo em lugares públicos podem reduzir a morbidade de doenças cardíacas. Helena é uma cidade com menos de 70 mil habitantes e não se pode descartar que outras causas tenham contribuído para os resultados da pesquisa. Ainda assim, os números são sugestivos o suficiente para que se procurem desenvolver novos trabalhos acerca do assunto. A Irlanda, que acaba de introduzir uma legislação antitabagista bastante restritiva, torna-se um bom laboratório.
Se resultados semelhantes emergirem, será de fato o caso de adotar leis mais duras contra o cigarro em lugares públicos. O direito do fumante, que é incontestável, não pode sobrepor-se ao direito de não-fumantes de não se expor a uma fumaça que precipitaria ataques cardíacos.

 
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