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20% da população brasileira é fumante (29/3/2004)
Lígia Formenti

O Estado de S.Paulo, seção Geral, 270304.
 
20% da população brasileira é fumante
Pesquisa do governo mostra que índice é mais baixo que em países desenvolvidos

LÍGIA FORMENTI

BRASÍLIA - O universo de fumantes no País finalmente começa a ser desvendado. Pesquisa inédita feita pela Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, aponta que a população de dependentes do cigarro no Brasil é de aproximadamente 20%. Resultados preliminares do levantamento nacional mostram ainda que, do grupo pesquisado, 47,2% dos homens e 48,2% das mulheres encaixam-se na categoria de ex-fumantes. Os dados foram colhidos em 7 capitais com 12.500 pessoas.

Especialistas consideram os resultados animadores. "Há ainda muito o que fazer. Mesmo assim, o trabalho indica que trilhamos o caminho correto", diz a professora de Medicina Preventiva da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e integrante da secretaria Sandhi Maria Barreto. Ela afirma que os índices de fumantes no Brasil são mais baixos, embora próximos, dos apresentados em países desenvolvidos - entre 22% e 25%.

Entre jovens de 15 a 19 anos, a pesquisa detectou 13% de fumantes do sexo masculino e 7% do feminino. E esse é um público que preocupa autoridades sanitárias. A coordenadora do Programa de Tabagismo do Instituto Nacional do Câncer (Inca), Tânia Cavalcanti, tem um exemplo em casa do quanto os jovens são vulneráveis. "Com toda precaução, há alguns anos descobri que minha filha, então com 14 anos, estava fumando."

A filha de Tânia, Débora Cavalcanti Castor, tem uma história parecida com uma legião de garotas de sua idade. Começou a comprar maços de cigarro com seus amigos. Fumavam todos em grupo. "Foi em uma época de descobertas.

Depois de um tempo, passei a comprar os maços para fumar sozinha", recorda.

Durante um bom tempo, ela tentou manter o assunto somente entre os amigos.

Mas o cheiro de cigarro com que chegava em casa logo a delatou. "Minha mãe não me impôs nenhum castigo. Somente disse que, quando eu quisesse, ela estaria pronta para me ajudar a abandonar o vício."

Foram necessários alguns anos - acompanhados por crises de bronquite - para Débora convencer-se da necessidade de combater a dependência do cigarro. Em julho, ela deixou de fumar, com ajuda de um chiclete que faz a reposição de nicotina. "Já estava em outro ritmo. Parti para a ioga, para a meditação, a comida natural. O cigarro não combinava com meu novo estilo de vida", conta a estudante, hoje com 18 anos.

Tânia considera urgente aumentar o cerco contra o cigarro nessa faixa etária. "Sabemos que, embora seja proibido, qualquer adolescente consegue comprar cigarro no bar da esquina", afirma. A coordenadora afirma ainda ser necessário aumentar os impostos dos cigarros. "Os preços cobrados no Brasil são um dos mais baixos do mundo", lembra. Tânia conta que está em análise no Ministério da Fazenda a revisão da política de preços mínimos cobrados pelo cigarro. "Tivemos um aumento recentemente, de 20%. É o primeiro passo, mas é preciso mais."

Tratamento - Outro ponto importante é garantir o tratamento gratuito para fumantes. Uma norma sobre o tema foi editada pelo Ministério da Saúde há quase dois anos. No entanto, os próprios integrantes do governo reconhecem que ela praticamente não saiu do papel. Tânia atribui o atraso às exigências feitas pela portaria que instituiu o programa. "Pelas regras atuais, é preciso criar um centro de referência, fazer a captação. Um processo muito complicado."

Para driblar o problema, o ministério dá os retoques finais em uma nova portaria, com menos exigências para a instalação dos serviços de atendimento. Mesmo antes de ser publicada, a nova regra já provoca apreensão entre especialistas. A coordenadora do programa de tabagismo do Instituto do Coração, Jaqueline Scholz, conta que seus pacientes até hoje não receberam medicamentos previstos pela portaria. "Se conseguir os remédios já é difícil, imagine quando qualquer centro tiver direito", argumenta. Seu principal temor é de que o remédio possa ser desperdiçado pelo tratamento feito de forma incorreta.

Para a grande maioria das pessoas, abandonar o cigarro não é uma tarefa fácil. "É preciso fazer um acompanhamento multidisciplinar, suportar as recaídas, não desanimar", afirma Jaqueline. Para ajudar pacientes, três ferramentas podem ser usadas: chicletes e adesivos de nicotina e um tratamento com bupropiona, medicamento que reduz a síndrome de abstinência de nicotina. "Todos esses mecanismos, porém, não são suficientes se a pessoa não está motivada a combater a dependência", afirma.

Que o diga o publicitário Wagner Sarnelli, de 46 anos. Há dez anos ele reúne experiências frustradas de abandonar o vício e acompanha atento todas as terapias. Em casa, tem uma coleção de reportagens sobre o tema. "Já usei chiclete, adesivos, os dois juntos, o que quase me fez mal", recorda. Também usou brupopiona, sem sucesso. "Fumar tornou-se uma coisa feia. Sinto-me constrangido, um defasado. Mas não perco a esperança. Soube de um tratamento com vários especialistas e já vou marcar uma consulta."
 
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