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Deixar de fumar: a luta solitária (15/3/2004)
Daniela Dariano

fonte: Jornal do Brasil, 14 de março de 2004

Deixar de fumar: a luta solitária

Quase 80% dos fumantes brasileiros querem largar o cigarro, lotam os poucos centros especializados e revelam sistema insuficiente

 

Daniela Dariano


Eles conhecem os males causados pelo cigarro, mas fumam. Ao contrário do que os não-fumantes podem pensar, dos mais de 40 milhões de tabagistas brasileiros 78% gostariam de parar, mas, a cada ano, menos de 3% conseguem vencer o desafio sozinhos. O Instituto Nacional do Câncer (Inca), subordinado ao Ministério da Saúde, estima que 18 milhões dos fumantes vão precisar de apoio para abandonar o cigarro. As armadilhas do vício encontram na insuficiente política pública do Brasil uma aliada. Os programas de controle do tabagismo ainda perderam, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a pouca verba que lhes era destinada - R$ 3 milhões em 2002, por iniciativa inédita do governo anterior.

O Ministério da Saúde assegura que o corte de recursos não afetou o atendimento existente e promete, a curto prazo, ampliar o serviço. Uma nova forma de financiamento levará os programas, antes restritos a hospitais especializados, a qualquer posto de saúde. A nova portaria será publicada em maio, prevê o Inca.

Por enquanto, a realidade dos tabagistas é de quase absoluto abandono a leis restritivas ao cigarro, sem amparo médico ou psicológico para os que pretendem combater a dependência. Os que não têm recursos para bancar tratamento particular acumulam-se nas longas filas dos poucos centros contra o tabagismo. Quem consegue iniciar o programa pode esbarrar em outra dificuldade: os preços de medicamentos que ajudam a suportar a abstinência. Reposição de nicotina e antidepressivo específico, recomendados só em último caso, custam cerca de R$ 160 por mês. Para quem paga menos de R$ 2 por maço de cigarro, o custo da cura é um desestímulo.

Os obstáculos, porém, começam antes. Não há suficiente pessoal treinado para tratar fumantes, concordam os especialistas. Nem mesmo a chamada intervenção breve é posta em prática em larga escala. A medida, segundo o pneumologista Carlos Alberto Barros Franco, consiste em que todo médico dedique três minutos de cada consulta para falar sobre o assunto.

- Dobraria a quantidade de pessoas que param de fumar - calcula Barros Franco, que criou o Núcleo de Estudos e Tratamento do Tabagismo (NETT), no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, no Rio.

Atual coordenador do NETT, o também pneumologista Alberto José de Araújo concorda:

- Com uma abordagem de cinco minutos, de 3% a 8% dos fumantes já são atingidos.

A prática não é essa. Régis Roque, 33 anos, fumante há 17 anos, foi ao médico pela última vez em novembro.

- O médico sabia que eu fumava e não falou nada.

As fotografias estampadas nos maços, alertando para os riscos do tabagismo, não fizeram Régis sequer reduzir o consumo. Dificultaram, isso sim, a visibilidade do raquítico Disque Pare de Fumar (0800-703-7033), impresso no canto direito da caixa.

O JB discou. O atendente, bem-informado, disse passo a passo como deve ser feito o tratamento. Afirmou, porém, que nem todos os Estados dispõem de centros especializados. No Rio, indicou o NETT. Disse que remédios, se necessários, seriam gratuitos, o que não se confirma na prática.

Alberto José de Araújo conta que o centro não dá conta da demanda. Atualmente, 36 fumantes estão participando do tratamento em grupo:

- O número de telefonemas é três vezes maior do que o de vagas. Podemos receber só 36 a cada dois meses.

O serviço tem acompanhamento médico, psicológico, nutricional e fonoaudiológico (uma novidade). Com etapa intensiva de três meses e mais um ano de acompanhamento, contabiliza 40% de sucesso. A média internacional de êxito, com ajuda, é de 35%. No NETT, são pesquisados novos medicamentos. A idéia é descobrir produtos eficazes, feitos a partir da flora brasileira e, portanto, mais baratos.

O essencial é o funcionamento em grupo. As reuniões começam depois das avaliações clínicas - psicológica, nutricional e física.

- Mede-se a intensidade do tabagismo, mede-se tudo. As pessoas ficam sabendo o que precisam modificar, são preparadas para enfrentar a abstinência e aprendem estratégias para prevenir a recaída - explica.

Locais públicos como o NETT são raros. Chefe da Divisão do Programa de Controle de Tabagismo do Inca, Tânia Cavalcante atribui as deficiências do atendimento à conscientização recente de que o tabagismo é doença, não estilo de vida.

- No curso acadêmico, ninguém sai preparado para tratar o fumante. A proposta é aumentar acesso, capacitação e financiamento.

No Município do Rio, existem só sete centros especializados. Um deles, o Centro de Tratamento de Adictos do Rio (Centra-Rio), único na Zona Sul, está com as portas fechadas para novos pacientes porque precisa antes dar conta dos 400 da fila. O JB ligou para o Centra-Rio. Lá, indicaram outro serviço gratuito. Não se tratava de programa governamental e, sim, uma alternativa que se multiplica: grupos voluntários de ajuda mútua, tipo Alcoólicos Anônimos, mas para fumantes.

Grupos de anônimos se espalham

A guerra da saúde contra o dinheiro

Grupos de anônimos se espalham

 

Toda quinta-feira, às 12h30, desconhecidos anônimos se encontram para dividir angústias e somar forças. Com o mesmo objetivo, contam experiências diversas que, em muitos aspectos, se repetem. Deixam de se sentir sozinhos no combate ao cigarro. O Entre amigos, que recebe todo o apoio da PUC-Rio, onde funciona, principalmente da Pastoral Universitária, foi criado há dois anos e meio, quando um grupo de amigas resolveu se unir no desafio de parar de fumar.

O grupo cresceu e já oferece reuniões em horário noturno. Seguindo os mesmos passos dos Alcoólicos Anônimos, ensina a vencer um dia após o outro, evitar o primeiro cigarro, perdoar as possíveis recaídas e não desistir nunca. Os depoimentos - inclusive de fumantes passivos que viveram experiências dolorosas, em que o cigarro foi o protagonista implacável, e felizes, em que foi abandonado - encorajam. As testemunhas indicam estratégias para domar a vontade de fumar: a fissura dura só cinco minutos, depois passa. O sofrimento com a abstinência - dor de cabeça, tontura, etc. - passa em duas semanas. É mais fácil do que parece agüentar esse curto tempo. Na solidão da rotina, nos momentos mais difíceis, em que o cigarro parecer inevitável, são aconselhados a ligar para um dos colegas.

Coordenador do Núcleo de Estudos e Tratamento do Tabagismo do Hospital do Fundão, Alberto de Araújo lembra que o tabagismo é doença com fatores psicológicos e físicos limitadores. E só por isso, mesmo sem outros problemas de saúde, o fumante já precisa procurar tratamento. O tempo de latência para infarto, gastrite, enfisema, bronquite crônica, câncer etc., pode levar até 15 anos, só que, quando aparecem não têm cura.

Ter tentado parar de fumar antes, sem sucesso, não deve ser desestímulo: a maioria dos fumantes precisa de três a sete tentativas para conseguir.

- Mesmo com tratamento, só pára de fumar quem quer. A promessa de qualidade de vida melhor é concreta, os benefícios são sentidos de imediato, passa-se a sentir o gosto e o aroma da vida e a se sentir vitorioso - incentiva Araújo.

O telefone do Entre amigos é 31141095/1154 e o do NETT é 25622633/2195.

 

Deixar de fumar: a luta solitária

 

A guerra da saúde contra o dinheiro

 

O controle ao tabagismo esbarra na pressão da poderosa indústria do cigarro. E nesse aspecto, acredita o pneumologista e membro da Academia Brasileira de Medicina Carlos Alberto Barros Franco, o Brasil deu um passo atrás no ano passado. Segundo ele, a política ideal contra o fumo precisa envolver três aspectos: legislação restritiva, apoio e alternativas para os produtores de tabaco e ajuda a quem quer parar de fumar. Em relação às duas últimas, nada ou pouca coisa foi feita até hoje, acredita.

- Já a aprovação de leis que limitem a propaganda do cigarro e o uso em áreas fechadas foi desenvolvida por José Serra (ex-ministro da Saúde), que criou uma lei proibindo o patrocínio de marcas de cigarro para atividades ligadas à saúde, como o esporte. Houve retrocesso no governo Lula, que permitiu o patrocínio no Grande Prêmio de Fórmula 1, cedendo à pressão da indústria, no ano passado - acusa o especialista.

Chefe da Divisão do Programa de Controle de Tabagismo e Outros Fatores de Risco do Inca, Tânia Cavalcante admite que isso não deveria ter acontecido, mas explica a medida. Segundo ela, apenas o prazo previsto na lei foi renegociado, por causa de suposta falha no texto original. Tânia afirma que houve um ganho para o Brasil, porque a lei anterior deixava uma brecha: não considerava que os GPs de países em que essa lei não vigorava seriam transmitidos para o Brasil. O novo prazo estabelecido para a legislação restritiva teria o objetivo de acompanhar o pacto da União Européia, que concordou em proibir o patrocínio de cigarro a partir de 2005.

- Hoje existe um grande movimento da Ásia na Fórmula 1. Por isso, a ação de incluir as contrapropagandas e mensagens de advertência nessas transmissões - considera.

A médica reconhece as dificuldades impostas pela indústria do tabaco.

- A Bélgica, por exemplo, chegou a ser excluída da Fórmula 1 e acabou voltando atrás. Existe pressão mesmo, fica uma briga entre a saúde e o dinheiro.

Tânia lembra que existe hoje um tratado em negociação entre 190 países para o controle do tabaco. A convenção já foi assinada por 97 deles. O Brasil foi o segundo a assinar, mas ainda precisa ratificar a assinatura. Para isso, a convenção precisa tramitar no Congresso.

- Desde agosto de 2003, a convenção foi apresentada pela Casa Civil à Câmara, para analisar o teor e dar o parecer. Mas está parada lá, existe muito lobby e uma negociação para tentar diminuir a força da convenção - reconhece Tânia Cavalcante.

A Philip Morris alega que o cigarro propicia ao Brasil uma arrecadação anual de R$ 5,5 bilhões em impostos. A empresa salienta que as doenças e mortes causadas pelo cigarro produzem superávit para o governo.

Especialistas na área de saúde lembram que o cigarro tem também um custo elevado para o país: com doenças crônicas geradas pelo cigarro, as cirurgias, as pontes de safena, a quimioterapia, as aposentadorias precoces etc. O pneumologista Alberto José de Araújo afirma que o cigarro mata mais do que a Aids, o trânsito, a violência e outras doenças crônicas juntas. Além disso, é fator de risco para todas as patologias do organismo.

- Os economistas pensam no que arrecadam. Mas o imposto é a vítima que paga. E, o sofrimento dessas pessoas, não tem imposto nenhum do cigarro que cubra esse custo - conclui.

 

 

 
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