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Lauren Bacall, por favor (20/1/2005)
ACTBR

Coluna veiculada no Folha Online em 10/01/2005, estréia do colunista Português João Pereira Coutinho, e algumas das cartas enviadas por leitores.

João Pereira Coutinho

Conheço pessoas que não fumam. E conheço pessoas que não fumam e não querem que os outros fumem. As primeiras são infelizes. As segundas são miseráveis. Miseráveis mas realizadas: no mundo moderno, não fumar é marca de saúde física, mental --e, atenção, gente, moral também. Basta ver as medidas sanitárias que a Europa pretende aplicar. A curto prazo, os pacotes de cigarros dos europeus terão imagens-choque para afastar fumantes ativos ou passivos, presentes ou futuros. Como no Brasil. Mas pior, muito pior que o Brasil: corpos mutilados pelo câncer, cadáveres putrefatos. E, claro, a imagem triste de um pênis triste, precocemente arruinado. A idéia não é prevenir. Os fanáticos querem mais: querem humilhar o fumante, enfiar o fumante numa jaula de circo e dizer: Olhem só como é decadente! Olhem só como é impotente! Hitler não faria melhor.

Exagero? Longe disso. Robert Proctor, que as patrulhas higiênicas deviam ler, explicou tudo em The Nazi War on Cancer (Princeton University Press, 379 pp.). A leitura de Proctor é arrepiante mas a tese é magistral: as campanhas antitabagistas do mundo moderno nasceram na Alemanha das décadas de 1930 e 1940. Nasceram com a preocupação nazi em combater o vício e, óbvio, humilhar publicamente os viciosos. Humilhar consumidores de morfina. Cocaína. Coca-Cola. E enfiar os fumantes no gueto da vergonha social. Quando Hitler chegou ao poder em 1933, o tabaco era reconhecido como semente do mal. Causa de tudo.

Infertilidade. Impotência. Câncer. Enfarte. Comunismo. Uma ameaça direta à pureza da raça ariana e sua excelência física e mental. O próprio Adolfo se empenhou pessoalmente no caso. Ele não fumava. Ele gostava de dizer que não fumava. Nem ele, nem Mussolini, nem Franco --tudo boa gente. Pelo contrário: Churchill e Roosevelt eram conhecidos fumantes, exemplos de ruína pessoal e moral. A evitar.

Falou e disse: a partir de 1933, as campanhas estavam nas ruas. Gigantescas imagens onde o fumante típico era tratado como débil sem dignidade ou vergonha (tradução: um judeu manipulador que introduzira o cigarro na Alemanha para exterminar o povo nativo). Ninguém escapou. As donzelas viciosas eram pintadas em pose masculina, a versão clássica da mulher com barba, fenômeno de circo para horrorizar a burguesia. E homens fumantes eram seres sexualmente arruinados, com traços femininos, lânguidos, tristemente adocicados. O tabaco surgia em sagrada aliança com tudo que era condenável. Jazz. Swing. Álcool. Jogo. Cupidez. Devassidão. Orgia.

Azar: seis anos depois, os alemães estavam fumando a dobrar. Em 1933, o alemão médio fumava 570 cigarros por ano. Em 1939, antes da Segunda Guerra, fumava 900. Proctor avança razões. Todas elas sublinham o essencial: fruto proibido é mais apetecido. Histórica clássica. Bíblica. Razão de nossos prazeres e nossas desgraças. Ninguém deixa de fumar por causa do fanatismo de terceiros. Pior: o fanatismo de terceiros acaba por ser inútil --e até contraproducente. Conheço gente que não fumava -- e começou só por rebeldia. O velho spleen de que falava Baudelaire. Existe nos seres humanos um mecanismo de destruição que é preciso compreender, aceitar e tolerar. Se o mundo fosse feito de anjos, etc e tal.

Fumar faz mal. Mas também faz bem: as pessoas que fumam são mais tolerantes, mais calmas, mais interessantes. E invulgarmente mais pecaminosas. Uma mulher é uma mulher. Uma mulher que fuma é uma mulher que arrasa. Por isso proponho: todos os pacotes de cigarros deviam ter duas imagens. De um lado, o pênis caído. Do outro, Lauren Bacall chupando um Marlboro clássico. De um lado, pulmões enfiados em sujeira. Do outro, o rosto de Bacall enfiado em fumaça.

Fazemos assim: vocês ficam com o pênis, eu fico com Lauren.

Carta I
Enviada por Mário Albanese

Respeito, compreensão e civilidade...

Em todo e qualquer aspecto, a vida é regulada por leis físicas, biológicas e jurídicas. A palavra direito adjetiva aquilo que é certo e justo. Ora, o
direito individual de fumar sempre será respeitado mas, não pode e não deve se sobrepor ao direito coletivo em ambientes fechados de qualquer natureza. Nesse contexto, somente compreensão, respeito e civilidade, na ocupação dos
espaços de uso privado e público, não são  suficientes. É indispensável cumprir a lei. O problema remanesce na ambigüidade dos direitos e deveres, para esbarrar no limite e na noção de liberdade. A sabedoria popular reconhece que o direito de um termina onde começa o do outro. Quanto ao dever, há duas maneiras de se cumprir: por obrigação ou pela consciência. Observe-se que até uma criança reconhece e respeita  uma risca de giz no chão, para  marcar o limite e estabelecer as regras de um jogo infantil. No entanto, no jogo da vida, a lei não é respeitada... Infelizmente, não haverá leis suficientes para proteger a sociedade se o dever, por elas determinado, se ausenta da consciência dos cidadãos.  Sem respeitar a lei não há democracia.

Mário Albanese
Presidente da Adesf - Associação de Defesa da Saúde do Fumante
OAB 11.159
RG 1.194.397

Carta II
Enviada por Paulo César Côrrea

Sr Coutinho e Sr Ombudsman da Folha,

Em seu texto da Folha de Sao Paulo de 10.01.2005  (Lauren Bacall, por favor ) o Sr Coutinho diz: “a partir de 1933, as campanhas estavam nas ruas. Gigantescas imagens onde o fumante típico era tratado como débil sem dignidade ou vergonha (tradução: um judeu manipulador que introduzira o cigarro na Alemanha para exterminar o povo nativo). Ninguém escapou. As donzelas viciosas eram pintadas em pose masculina, a versão clássica da mulher com barba, fenômeno de circo para horrorizar a burguesia. E homens fumantes eram seres sexualmente arruinados, com traços femininos, lânguidos, tristemente adocicados”.

Poderiam fazer a gentileza de citar as fontes de tais informações bem como enviar as imagens citadas?

Seria importante também saber se o autor da matéria tem ou já teve laços com industrias de fumo e/ou já recebeu dinheiro de alguma companhia de tabaco, e especificamente se recebeu para escrever esta matéria. Isso é chamado de conflito de interesse, e imprescindível para veículos de imprensa que pretendem ser transparentes. Em artigos científicos em revistas medicas de qualidade, os editores jamais deixam de incluir tais informações.

 Aguardando retorno,

 Dr Paulo César R P Correa
Rede Tabaco Zero
paulo@mkm.com.br

Carta III
Enviada por Heloisa Caiuby Coutinho

Caro sr

 
Escrevo-lhe em função da coluna de João Pereira Coutinho na Folha Online de hoje, 10/01/2005.
 
Acho desnecessário mencionar a Lei de Imprensa, a Democracia ( assim com maíúscula), a liberdade de opinião e de expressão etc etc. Conheço até do avesso - e defendo - o artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e todos os seus subprodutos.
 
Isso posto, o sr Coutinho ( nenhum parentesco, por favor) tem o direito de escrever o que bem lhe aprouver. A Folha, como jornal independente, tem o direito de escolher os colunistas que quiser e publicar o que achar interessante, a seu arbítrio. E eu, como cidadã e profissional da saúde,  tenho o direito de manifestar meu total repúdio  ao artigo do colunista em referência. Admira-me que esse jornal, habitualmente tão consciente, dê abrigo a uma manifestação que, se não for de total ignorância, só ´pode ser atribuída a má-fé. Quando o mundo todo  -  hoje,  não no tempo de Hitler ( ou de Bacall, que parece ter causado um efeito retardado no imaginário de alguns jovens  ...) - se une para combater as conseqüências nefastas do vício do tabagismo, surge uma voz dissonante que supõe estar fazendo gracinha com assunto sério.
 
A divergência de opiniões é saudável. A co-existência de diferentes posturas e enfoques - e sua manifestação - também é saudável. A polêmica é saudável. O que não é saudável é a desinformação, a apologia do vício, a doença travestida de glamour.
 
Atenciosamente,
 
Heloisa Caiuby Coutinho

Carta IV
Enviada por Mônica Mulser Parada

Sr. Ombudsman da Folha,

 

Lamentável o nível de desinformação manifestado pelo Sr. Coutinho, colunista português, em seu artigo “Lauren Bacall, por favor”, apresentado pela Folha on Line, no dia 10 de janeiro passado.

Mais lamentável do que isso, só a Folha ter veiculado o artigo...

Pergunto: o Sr. Coutinho leu o livro que subsidia o artigo, The Nazi War on Cancer? Ou será que leu, e não entendeu? Ou trata-se de deturpação deliberada de informação?

O autor do livro, Robert Proctor é um historiador muito sério, internacionalmente reconhecido, e que mostrou que os nazistas foram os primeiros a comprovarem cientificamente os danos relacionados ao tabagismo. Ele critica duramente a forma pela qual o nazismo implementou seus programas de limpeza étnica, mas em momento algum endossa os programas nazistas ou os compara com as medidas atuais de saúde pública – e aí está a deturpação do artigo – e, sim, tenta rever historicamente como a política pode arruinar com a ciência. É essa a mensagem do livro.

Dr. Proctor contribui regularmente com artigos em favor do controle do tabagismo, e é uma das testemunhas do famoso caso do Departamento de Justiça americano contra as companhias de cigarro, em função do excelente apanhado histórico, de sua autoria, sobre as tramóias da indústria.

Os programas brasileiros de controle do tabagismo pautam-se em um profundo respeito ao indivíduo fumante (ele é apenas a vítima... o vilão da história é o cigarro...) reconhecendo-lhe três direitos fundamentais:

·         Primeiro, o direito à informação. Ele tem o direito de saber que o cigarro é um produto que contém 4.700 substâncias tóxicas que acarreta dependência química, doença e morte, além de danos a terceiros (tabagismo passivo, e outros). Que ele vicia mais do que o crack, a maconha e a cocaína; que causa em torno de 80 diferentes doenças tabaco-relacionadas; e que 50% dos que fumam morrerão em conseqüência do cigarro.

·         Segundo, ele tem o direito à escolha, e à soberania nas suas relações de consumo. Há de se convir que, num produto que causa dependência, há perda de soberania por parte do consumidor. Lamentável para o fumante, que deixa de investir em alimentos, saúde e educação, para atender à dependência. (Pesquisas do Ministério da Saúde comprovam que a maioria quer parar e não consegue...)

·         Terceiro, ele tem direito ao tratamento. Atendendo a esse direito, a rede pública de saúde possui unidades de cessação do fumo em todos país, inclusive com distribuição gratuita de medicamentos (caríssimos, diga-se de passagem). As informações podem ser obtidas pelo Disque-Pare-de-Fumar que vem em toda carteira de cigarro.

Isso, sim, é respeito ao cidadão... E é por isso que o Brasil é internacionalmente elogiado por seu programa de controle e tratamento do tabagismo, tendo conseguido reverter, em duas décadas, de 35% para 21% a prevalência de fumantes no país.

 

E, mensagens finais:

 

À Folha, que tenha responsabilidade ao tratar do tabagismo, ao veicular a apologia de um produto que é a maior causa de morte evitável no mundo atual, segundo a Organização Mundial de Saúde, e que, só no Brasil, mata o equivalente a 2 Tusunamis ao ano - e, acredite-me - com grau equivalente de sofrimento. (E porque críticas dessa natureza a programas governamentais na área de saúde pública podem, inclusive, vir a gerar questionamentos judiciais...)

 

Ao Sr. Coutinho:  Eu também fico com Lauren Bacall!... que parou de fumar há 15 anos, e hoje, juntamente com Kirk Douglas, faz campanha contra o tabagismo pelos Estados Unidos!...

 

E, por fim: quem não fuma não é infeliz. Infeliz foi esse artigo!...

 

Mônica Mulser Parada

Coordenadora do Programa de Controle do Tabagismo da Vigilância Sanitária do Distrito Federal.

 


 

 
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