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O drama dos filhos de fumantes (30/6/2008)
Lilian Caruso

Fonte:  http://tribunadonorte.com.br/79583.html

Data: 27/06/2008

 

Isaac Ribeiro - Repórter


Dos seus onze meses de vida, três deles Jonathan Gabriel passou internado em hospitais pediátricos, sendo tratado de complicações respiratórias provocadas pelo fumo passivo. Sua mãe, Maria das Graças Oliveira Medeiros, 19 anos, é ex-fumante; mas seu marido e sua sogra não largaram o cigarro e até hoje fumam dentro de casa, poluindo o ambiente doméstico. O pequeno José Érico, de apenas cinco meses, divide o quarto da UTI com Jonathan no Hospital Infantil Varela Santiago, onde estão internados. Ele também sofre as conseqüências do tabagismo dos pais.

Mesmo com pouco tempo de vida, as duas crianças citadas acima já apresentam sinais no organismo típicos de fumantes. Muitos dos casos que chegam aos hospitais pediátricos estão relacionados às doenças respiratórias — asma, bronquite, sinusite, pneumonia. Boa parte delas é provocada ou agravada pela fumaça do cigarro daqueles que, sem um senso mínimo, fumam em casa, na frente das crianças.

Uma pesquisa realizada no Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP) detectou que 24% das crianças de 0 a 5 anos de idade apresentavam vestígios de nicotina no organismo, quando, na verdade, a concentração deveria ser zero. Foram analisadas, numa primeira etapa, 78 garotos. Mais à frente, foram realizados exame de urina em mil crianças de uma escola particular paulista. Os resultados apontaram que 51% deles são fumantes passivos.

A presença de nicotina no organismo dessas crianças é o primeiro passo para o vício futuro, pois ela atua diretamente no sistema nervoso autônomo, além de ser uma substância cancerígena. Fumar durante a gravidez pode gerar fetos anormais, nascimento prematuro ou até mesmo óbito. Durante a amamentação, a mãe que fuma transmite nicotina para o filho.

O tabagismo é considerado hoje a terceira maior causa de morte evitável no mundo, ficando atrás apenas do tabagismo ativo e do consumo exagerado de álcool. Existem cerca de dois bilhões de fumantes passivos no mundo. Desse total, estima-se que 70 bilhões são crianças. No Brasil, seriam 15 milhões. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera o tabagismo uma doença pediátrica, pois a grande maioria dos fumantes começa a fumar antes dos 19 anos.

Hospital lotado

A pediatra e diretora médica do Hospital Infantil Varela Santiago, Maria da Penha Paiva, diz não ter estatísticas de fumo passivo na infância aqui no Rio Grande do Norte, mas confirma que a procura por tratamento de doenças respiratórias em crianças é muito grande, e que a situação se agrava ainda mais neste período do ano, de frio e fumaça dos festejos juninos.

“Quando a criança chega ao hospital com problemas respiratórios, encaminhamos ao pneumologista. Depois, conversamos com os pais para orientar que não fumem na frente do filho”, diz Penha Paiva. “Depois que a criança é internada é que percebemos se a mãe é fumante ou não.”

A diretora médica do Varela Santiago confirma também que a freqüência maior é de crianças na faixa etária entre 0 e 5 anos. “A fumaça do cigarro também agrava a situação daquelas crianças que já têm algum problema respiratório, como sinusite, asma, bronquite e até mesmo pneumonia”, diz ela.

Parentes que fumam

Maria das Graças, a mãe de Jonathan — aquele do início da matéria — conta que fumou até o terceiro mês de gravidez, quando foi proibida pelo médico de seguir no vício. O resultado disso tudo não tem sido nada positivo. Ao dar entrada no Hospital Infantil Varela Santiago, seu filho foi direto para a UTI, com sintomas de cansaço e pneumonia.

“Ele tosse muito, o nariz fica escorrendo, fica com a respiração cansada e sem oxigênio. A médica disse que se quisesse meu filho vivo tinha que parar de fumar”, diz Maria das Graças. “Converso com meu marido para ele parar de fumar, mas o vício é uma coisa nojenta.”

Já segundo Maria Fernandes Pereira, bisavó de José Érico, também citado no início do texto, os pais da criança fumam muito. E por ser pequena a casa onde moram, a poluição doméstica só piora. O garoto nasceu prematuro, com sopro no coração e pneumonia, de acordo com a bisavó. Quando José Érico receber alta, ela não vai permitir que seu bisneto volte mais para casa com os pais fumando do jeito que fumam.

“Minha filha ainda fuma, mas já mandei ela parar. Sei o que é isso, pois sempre fumei, mas faz treze anos que parei. Nunca fumei na frente dos meus filhos”, diz Maria Fernandes.

Curiosidades

-O fumante passivo pode conter no sangue, urina e saliva quantidade de nicotina equivalente à encontrada em fumantes de um a dez cigarros por dia, dependendo do número de horas de exposição à fumaça.

-O Brasil é o sexto maior mercado de cigarros do mundo e, desde 1994, é o primeiro na exportação de folhas de tabaco, apesar de ser o quarto maior produtor mundial.

- Um terço da população adulta fuma no Brasil, o que representa 11,2 milhões de mulheres e 16,7 milhões de homens, segundo a OMS e o Instituto Nacional do Câncer.

- O tabagismo causa cerca de um milhão de mortes por ano na China. No país, morrem anualmente 100 mil pessoas devido a doenças relacionadas ao tabagismo passivo.

- O Japão é um dos países industrializados onde se consome mais cigarro, segundo a OMS. Os 42 milhões de viciados fumam uma média de 130 pacotes por ano. É o 3º consumidor mundial de tabaco, atrás da China e dos EUA.

- A Rússia é o país com maior percentagem de fumantes no mundo. Cerca de 70% dos homens e 30% das mulheres fumam.

- No Chile, cerca de 14 milhões de pessoas morrem, a cada ano, por causas atribuídas ao tabaco. O país tem a maior taxa de consumo de cigarro na América Latina, com 42%, junto com a Argentina.

- A Organização Mundial de Saúde indica que mais de 40 mil argentinos morrem anualmente devido ao tabagismo.

- No México, o número anual de mortes supera os 53 mil, numa média de 147 óbitos por dia.

- Em Honduras, são consumidos anualmente cerca de 120 milhões de maços de cigarro e as crianças começam a fumar aos oito anos.

- Em Cuba, mais de dois milhões de pessoas fumam e 40% dos fumantes começaram entre 12 e 16 anos.

- A Alemanha registra cerca de 140 milhões de mortes anuais em conseqüência direta do cigarro. Um terço da população adulta fuma.

- Nas Filipinas, cerca de 60% dos homens são fumantes e o Estado filipino gasta cerca de US$ 1 bilhão com despesas na área de saúde.

- Nas grandes cidades, o fumo polui mais séria e nocivamente o ambiente do que as indústrias e os veículos automotores.

Cléia Amaral, pneumologista pediatra: “Filhos de pais fumantes têm risco maior de ter pneumonia”

Trabalhando no Hospital Infantil Varela Santiago e no Hospital Pediátrico da UFRN (Hosped), a pneumologista Cléia Amaral atende constantemente casos de crianças, na faixa abaixo dos cinco anos de idade, com complicações respiratórias decorrentes do fumo passivo. Asma, bronquite, sinusite e pneumonia são as doenças mais freqüentes em crianças que convivem com fumantes em casa. Confira trechos da entrevista que a especialista concedeu ao TN Família.

TRIBUNA DO NORTE - São freqüentes, em Natal, casos de crianças que precisam ser internadas por problemas respiratórios causados pelo fumo passivo?

Cléia Amaral – Isso acontece constantemente. Em casos de crianças que não têm asma controlada, na maioria das vezes, os pais são fumantes. Às vezes, a mãe até fuma com a criança nos braços. Termina que a criança fica mais predisposta a ter infecções respiratórias, e até infecções complicadas tipo pneumonia. As crianças que têm pais fumantes, principalmente a mãe, têm um risco, em média, sete vezes maior de ter pneumonia do que aquela que não convive com fumantes”

TN - Há casos de óbito decorrente disso?

CA - Dependendo se a criança é prematura, desnutrida, se ela já tem outros fatores de risco, se ela é constantemente submetida à fumaça do cigarro, esse risco aumenta mais ainda. Então, acontece de ter óbito sim. Não temos estatísticas nossas mostrando isso. Mas, com certeza, tem uma co-relação.

TN – É dada alguma orientação aos pais fumantes que chegam ao hospital com seus filhos doentes?

CA – A mãe é orientada a não fumar dentro de casa e sobre os riscos que a criança está sendo submetida. Mas, infelizmente, isso é uma constante. Às vezes, por ignorância, a mãe acha que isso não acontece.

TN – E qual o tratamento em casos de complicação respiratória? Qual o procedimento quando a criança chega ao hospital?

CA – Ela é internada e, normalmente, vai para a hidratação venosa — pois a maioria, quando interna, é de casos complicados. Quando é uma pneumonia mais simples, dá para tratar em casa; mas quando chega ao hospital vai para a medicação venosa, antibiótico venoso, usamos medicação para dilatar os brônquios, broncodilatadores, quando é necessário, do tipo nebulização. E quando a criança está em condições, damos alta para manter o tratamento em casa, pois na maioria das vezes não é necessário ela ficar internada até curar totalmente. Geralmente, o tratamento termina em casa. Um dos tratamentos também é a higiene ambiental, que é, justamente, esclarecer a mãe para não fumar dentro de casa.

TN – Há muitos casos de reincindência?

CA – Há sim, principalmente de crianças asmáticas, que são as mais prejudicadas. O fumo é um irritante para os brônquios de qualquer pessoa, tanto faz adulto ou criança. Termina que tem casos repetitivos, desencadeados por fumaça e infecções virais.

 
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