Os cigarros com sabor não são uma novidade nem uma escolha feita ao acaso. Mentol, frutas, baunilha, chocolate e outros aromas são utilizados para tornar os produtos de tabaco mais agradáveis ao paladar, mascarando o gosto e a irritação provocados pela fumaça. Com isso, os cigarros saborizados podem facilitar as primeiras experiências e contribuir para a continuidade do consumo.

A estratégia é antiga. Documentos da própria indústria do tabaco mostram que, desde a década de 1970, as empresas discutiam como desenvolver produtos capazes de reduzir a rejeição inicial ao cigarro e atrair pessoas que nunca haviam fumado.

Em um documento da R.J. Reynolds, de 1974, a empresa discutia características de um produto com baixo potencial de irritação e a possibilidade de utilizar sabores para facilitar a iniciação de novos consumidores. Outro memorando, da Brown & Williamson, de 1972, destacava o interesse dos adolescentes por produtos doces e mencionava o uso de mel no desenvolvimento de um cigarro.

Esses registros ajudam a mostrar que os sabores fazem parte de uma estratégia pensada para aumentar a atratividade dos produtos de tabaco, especialmente entre quem ainda não tem experiência com o cigarro.

Os jovens são especialmente afetados

As evidências disponíveis apontam que os cigarros saborizados são particularmente atrativos para crianças, adolescentes e jovens adultos.

Segundo dados do LENAD 2025, 56% dos adolescentes brasileiros que fumam utilizam cigarros saborizados. Entre estudantes de 13 a 15 anos, cerca de 60% demonstram preferência por produtos com sabor, e 60,8% daqueles que compram cigarros com aditivos apontam o sabor como uma das principais características do produto.

Pesquisas internacionais reforçam esse cenário. Entre jovens de 12 a 17 anos que utilizam produtos de tabaco, 80% consomem versões saborizadas, incluindo produtos com mentol. Entre jovens adultos de 18 a 24 anos, o percentual chega a 73%.

Outro dado chama atenção: 81% dos jovens entrevistados relataram que seu primeiro produto de tabaco era saborizado. Entre adultos jovens, esse percentual chega a 86%.

A preocupação não se limita à primeira experiência. Pessoas que iniciam o consumo com produtos saborizados apresentam maior probabilidade de continuar usando tabaco ao longo do tempo. Por isso, reduzir a atratividade desses produtos é uma medida importante de prevenção.

O Brasil já tem uma regra para restringir cigarros com sabor. Em 2012, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou a Resolução nº 14, que restringe o uso de aditivos capazes de conferir sabor e aroma aos produtos de tabaco.

A medida, porém, ainda não foi plenamente implementada. Sucessivas ações judiciais movidas pela indústria do tabaco e seus aliados impediram a aplicação integral da norma.

Entre 2012 e 2023, foram registrados na Anvisa 1.112 produtos de tabaco e 641 produtos para narguilé contendo aditivos cuja utilização é restringida pela regulamentação.

A alegação de que a restrição desses aditivos inviabilizaria o mercado de cigarros também não se sustenta. Entre os produtos registrados na Anvisa, metade dos cigarros e 75% dos cigarros de palha e de enrolar à mão não contêm os aditivos proibidos.

A discussão sobre os cigarros saborizados acontece em um momento preocupante para o controle do tabagismo no Brasil. O Vigitel 2024 identificou um aumento de 25% na prevalência de fumantes no país em relação ao ano anterior, o primeiro crescimento expressivo desde 2007. Já a PeNSE 2024 apontou que 18,5% dos estudantes de 13 a 17 anos já experimentaram cigarro pelo menos uma vez.

Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) também mostram que a idade média de início do uso regular de tabaco é de 16 anos. Esses números reforçam a necessidade de medidas que reduzam a atratividade dos produtos de tabaco e dificultem a iniciação, especialmente entre crianças e adolescentes.

A decisão está nas mãos do STF

A regulamentação dos aditivos de sabor existe no Brasil há mais de uma década, mas sua implementação integral ainda depende da conclusão das discussões no Supremo Tribunal Federal (STF).

A aplicação efetiva da norma é uma medida de proteção da saúde pública. Ao reduzir características que tornam os produtos de tabaco mais atrativos, especialmente para quem ainda não fuma, o país pode avançar na prevenção da iniciação ao tabagismo.

A defesa da implementação da norma faz parte da campanha Sabor que Mata, da ACT Promoção da Saúde. Saiba mais sobre a campanha e sobre a importância de retirar os sabores dos produtos de tabaco no site da ACT.

No dia 28 de agosto, em alusão ao Dia Nacional de Combate ao Fumo, realizamos uma atividade na Biblioteca Parque, no Centro do Rio, com roda de conversa e oficina de cartazes com jovens para discutir os impactos dos produtos de tabaco com sabor. Além disso, fizemos uma ação em Brasília, com projeção nas torres do Congresso Nacional, para dar visibilidade à pauta e chamar a atenção para a decisão do STF sobre a regulamentação dos cigarros com sabor. 

Proteger crianças e adolescentes da iniciação ao tabagismo é também uma forma de prevenir doenças e mortes relacionadas ao consumo de tabaco no futuro.