Com dois filhos de cinco e sete anos recém-completos, eu sabia que não ia conseguir escapar da febre do álbum da Copa do Mundo desta vez, já que em 2022 eles ainda eram pequenos. Estava, na verdade, até animada, lembrando da minha infância e adolescência com jogos de bafo e troca de figurinhas. Mas o primeiro baque veio com a constatação da quantidade de dinheiro necessária para a coleção: com 980 figurinhas, vendidas em pacotes 7/7 (sete figurinhas por sete reais), quase 1000 reais precisam ser destinados ao álbum – isso sem contar as repetidas. Enfim, pensei, vamos lá, talvez eles não façam tanta questão assim de completar tudo.

E lá foram eles na banca com o avô fã de futebol. Voltaram com cinco pacotes para cada e o álbum. Olha quantas bandeiras, países, jogadores, emblemas, mascotes… e refrigerantes. Pois é. Patrocinadora oficial do torneio, a Coca-Cola emplacou duas páginas na publicação com 14 figurinhas que são obtidas exclusivamente por meio da compra de refrigerantes da marca, ficando disponibilizadas atrás dos rótulos.

álbum da copa 1

As incoerências do patrocínio de eventos esportivos por produtos que fazem mal para a saúde, como os refrigerantes, são apontadas há anos por organizações da sociedade civil. Nas últimas Olimpíadas, por exemplo, a campanha internacional “Tirem o Refrigerante de Campo” (Kick Big Soda Out) da Vital Strategies já destacava como a indústria de refrigerantes se aproveita do patrocínio de esportes para melhorar sua imagem pública e desassociar seus produtos dos malefícios que eles causam, incluindo o aumento das taxas de obesidade e diabetes tipo 2, entre outros desfechos negativos de saúde. Uma nova fase da campanha está para ser lançada em junho deste ano, com apoio da ACT, com enfoque justamente na Copa do Mundo.

Por enquanto, infelizmente, a FIFA permanece permitindo a propaganda desenfreada de produtos nocivos no torneio. Além da Coca-Cola, outras marcas de bebidas alcoólicas e ultraprocessados também patrocinam a Copa do Mundo, incluindo Budweiser e McDonald’s. Com isso, essas empresas terão uma vitrine gigantesca para expor seus produtos nocivos a milhões de espectadores de todo o mundo.

Estudos já mostram que a exposição ao marketing de alimentos e bebidas com alto teor de açúcar, sal ou gorduras contribuem para padrões alimentares inadequados em crianças e doenças relacionadas com a alimentação, e especificamente no caso do álbum há agravantes, visto que, mais do que a exposição à publicidade, é preciso realmente comprar os produtos da Coca-Cola para completar a coleção. É uma estratégia de marketing extremamente agressiva que se aproveita de um produto muito popular entre crianças e adolescentes.

álbum da copa 2

O incentivo à prática de atividade física é uma das estratégias mais importantes para promover a qualidade de vida e prevenir doenças, e a Copa do Mundo e outros torneios esportivos podem ter um papel fundamental para isso. Na configuração de patrocinadores atual, entretanto, o efeito é o oposto: o que está sendo promovido é o consumo de produtos que prejudicam a saúde.

Evidências em favor do fim de patrocínios como esses não faltam, resta a FIFA, o Comitê Olímpico Internacional e outras entidades esportivas ouvirem a sociedade. Está na hora de tirar o refrigerante de campo, e do álbum da Copa também.