27 de maio de 2026
Juliana Waetge
No mês em que se celebra o Dia Mundial Sem Tabaco, a ACT Promoção da Saúde lançou duas publicações sobre produtos emergentes de nicotina, os snus/pouches (bolsas de nicotina) e o tabaco aquecido. Os relatórios, elaborados em parceria com a cardiologista Stella Martins e o pneumologista Paulo Corrêa, respectivamente, mostram que as estratégias da indústria seguem as mesmas: produtos que continuam a causar dependência e doenças são apresentados com uma nova roupagem, alegações de menor dano e marketing voltado para jovens.
Bolsas de nicotina
Snus e pouches são dois produtos diferentes, mas que podem ser caracterizados como bolsas de nicotina. Ambos são vendidos como pequenos saquinhos permeáveis que, durante o uso, são posicionados na cavidade oral, onde liberam nicotina. Os dois produtos devem ser mantidos na boca por um período de 5 minutos a 1 hora.
A origem de cada um deles, porém, é bem diferente. O snus é um produto tradicional da Suécia, feito a partir da folha do tabaco e com registros de fabricação desde o século XVIII. Já os pouches são muito mais recentes: eles surgiram em 2018 e são feitos com nicotina cristalizada.

Em ambos, entretanto, a exposição à nicotina é bastante significativa, com absorção pela mucosa oral ou por via sublingual. Além do potencial aditivo da substância, os produtos contêm outros compostos tóxicos e cancerígenos, incluindo formaldeído, níquel e cromo, entre outros.
Ademais, embora os pouches venham sendo comercializados com alegações de serem produtos de “risco reduzido” e que poderiam ser consumidos em locais em que não é permitido fumar, estudos já observaram que quase a totalidade (97%) dos usuários relataram algum evento adverso, como lesões na boca (48%), dor de estômago (39%), dor na boca (37%), dor de garganta (21%) e náusea (9%). Também já foram registrados milhares de casos de intoxicação nicotínica acidental em crianças devido a esses produtos. Usuários de snus, por sua vez, têm maior incidência de mortes por todas as causas.
Ainda assim, a indústria do tabaco tem investido na publicidade desses produtos, inclusive por meio de parcerias com equipes de automobilismo, como era feito com os cigarros tradicionais.

Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou uma publicação alertando para os riscos à saúde causados pelas bolsas de nicotina.
Tabaco aquecido
Os produtos de tabaco aquecido (PTA), por sua vez, são uma classe reemergente, já que, ainda nos anos 1960, a Brown & Williamson e a British American Tobacco projetaram um cigarro que pretendia aquecer o tabaco, em vez de queimar. Mais recentemente, a ideia foi retomada pelas principais empresas do setor e versões modernas foram surgindo.
Os PTAs têm dois componentes comuns: um inserto (como um bastão, cápsula ou pod) contendo tabaco processado e um dispositivo para aquecer o tabaco. Umectantes como propilenoglicol e glicerol são adicionados ao tabaco para facilitar a formação de aerossol, que serve como veículo para levar nicotina aos pulmões do usuário. Assim como os cigarros eletrônicos e narguilés, os PTAs também podem vir com uma ampla variedade de sabores, incluindo mentol, baunilha e frutas.
Embora os PTAs sejam promovidos pela indústria do tabaco como produtos “que aquecem, não queimam”, eles emitem fumaça e contêm compostos encontrados na fumaça de cigarro convencional. Ademais, um artigo sobre o iQOS (fabricado pela Philip Morris) mostrou evidências da ocorrência de pirólise, o que mostra que pode existir combustão nos PTAs. Já se sabe também que os PTAs causam efeitos nocivos agudos na função das pequenas vias aéreas, na frequência cardíaca, na pressão arterial e na função vascular, entre outros, que afetam diversos aparelhos e sistemas do corpo.Por fim, as estratégias de marketing dos PTAs claramente são direcionadas a grupos como jovens, mulheres e amantes da tecnologia e dos esportes, com anúncios apelativos e lojas em estilo moderno e minimalista, lembrando estabelecimentos de venda de celulares. Assim como no caso das bolsas de nicotina, esse fato vai contra as alegações da indústria de que esses produtos emergentes seriam destinados apenas a fumantes que não querem ou não conseguem parar.





Loja de PTAS e propagandas claramente voltadas para jovens, mulheres e esportistas.
Fonte das imagens: SRITA, programa de pesquisas sobre publicidade de tabaco da Universidade de Stanford
Independente da forma em que é apresentada, a nicotina é um composto tóxico que causa dependência e doenças. As tentativas contínuas da indústria de reformular seus produtos e associá-los, por meio de propagandas, à tecnologia, independência, glamour e bem-estar, mostram que as empresas continuam interessadas apenas em aumentar os seus lucros, em detrimento da saúde dos consumidores.