As Nações Unidas estabeleceram o tema “Água e Gênero” para este ano, no Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, com o objetivo de debater a conexão entre água e a equidade de gênero. A ONU destaca alguns pontos da crise hídrica que o planeta vive:

A ACT abordou a questão da água na primeira edição da revista Por trás dos lucros, quando trouxemos o impacto das cadeias produtivas ao meio ambiente, desde o cultivo até o descarte, e destacamos as cadeias dos produtos que fazem mal à saúde e são os principais fatores de risco para as doenças crônicas não transmissíveis: tabaco, álcool e ultraprocessados.

Estimativas apontam que, por exemplo, são gastos entre 336 e 618 litros de água para produzir um litro de bebida açucarada, dependendo do tipo de açúcar usado. Já a produção de cada litro de cerveja demanda 298 litros de água.

A maior produtora de refrigerantes, a Coca-Cola, também é apontada em estudos como sendo a maior poluidora do planeta e vem sendo denunciada como a responsável pela escassez de água em diferentes regiões do globo terrestre. Apenas na América Latina, a empresa é acusada de reduzir e até esgotar as reservas hídricas de Chiapas, estado no México, La Calera, na Colômbia, e em Itabirito, município de Minas Gerais.

O texto da revista, de Vitória Moraes, trata do caso da fábrica de Itabirito, inaugurada em 2015, com a premissa de ser uma fábrica sustentável, inclusive com processos de reutilização da água da produção. No mesmo ano, a população da região começou a sofrer com problemas de falta d’água. A sociedade civil local afirma que a empresa não fez os estudos de impacto ambiental de forma adequada e conta com certa complacência do SAAE, autarquia de fornecimento de água de Itabirito. O caso se arrasta na justiça há dez anos, sem que o problema seja devidamente solucionado e com acordos sendo firmados entre os órgãos públicos e a empresa, sem participação da sociedade civil.

A Ambev, por sua vez, tem uma fábrica instalada em Jaguariúna, na região metropolitana de Campinas, e abastecida pela bacia do rio Jaguari. A cidade sofre com episódios recorrentes de falta de água e a população local atravessa uma batalha contra a privatização do serviço de abastecimento e saneamento básico municipal, que tende a beneficiar grandes empresas em detrimento dos habitantes. A própria Ambev reconhece e alega preocupação com os problemas hídricos da região da bacia do Jaguari em sua página oficial, mas não é transparente em relação ao impacto local de suas operações.

No caso do tabaco, segundo a Organização Mundial da Saúde, a produção global de cigarros usa 22 bilhões de toneladas de água. O cultivo da folha do tabaco usa grandes quantidades de agrotóxicos e contamina leitos de rios e o solo.

Os filtros de cigarros, chamados de bituca ou guimba, são os resíduos mais comuns em zonas costeiras. Consistem em uma pequena porção do cigarro que não foi queimada e um plástico não-biodegradável, com milhares de substâncias potencialmente tóxicas. Pesquisadores do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMar-Unifesp), com a apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e da ACT, coletaram mais de 4,3 mil bitucas de cigarro em vias públicas, entre março e abril de 2023, e mostraram impactos da contaminação por bitucas em praias e áreas urbanas em duas cidades da Baixada Santista: Santos e Guarujá. A pesquisa identificou diversos acumulados de bitucas em zonas urbanas, mesmo que ambos os municípios tenham áreas de proteção ambiental e estejam no topo dos rankings de cidades brasileiras mais limpas. Uma única bituca pode contaminar até mil litros de água com seus sete mil compostos químicos, sabidamente perigosos para o meio ambiente e a saúde humana.

Nossa campanha Duplo Impacto reuniu as evidências do impacto dos produtos nocivos à saúde como cigarro, álcool e ultraprocessados ao meio ambiente. Seus dejetos geram toneladas de lixo e grande parte vai parar nos oceanos, afetando a vida marinha. Estudos e pesquisas mostram que o aumento de preços por meio da tributação é a medida mais custo-efetiva para reduzir o consumo de produtos nocivos.