9 de janeiro de 2026
Juliana Waetge
Nesta semana, logo no início do ano, o Ministério da Saúde divulgou os resultados oficiais do Vigitel 2024, uma pesquisa nacional que monitora fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), incluindo indicadores de alimentação e consumo de álcool e tabaco.
Apesar de ser realizado apenas nas capitais, o Vigitel é uma pesquisa essencial para a formulação de políticas de saúde pública, já que o fato dele ser uma pesquisa anual faz com que seja possível analisar uma série histórica dos itens pesquisados e identificar tendências.
Alguns destaques da nova edição podem ser conferidos abaixo:
Consumo de álcool
O consumo episódico pesado (quatro ou mais doses para mulheres ou cinco ou mais doses para homens na mesma ocasião, conhecido internacionalmente como “binge drinking”) subiu na série histórica do Vigitel, passando de 15,7% em 2006 para 20,4% em 2024.

Este aumento foi puxado principalmente pelas mulheres, cujo consumo dobrou, indo de 7,8% (2006) para 15,7% (2024). Entre homens, a variação não foi significativa, com a média se mantendo em um patamar alto (25% em 2006 e 25,9% em 2024).
Analisando outros recortes sociodemográficos, houve aumento em quase todas as idades (exceto na população de 18–24 anos), com destaque para 25–34 e 35–44. Considerando apenas o período recente, é possível notar um aumento particularmente significativo na faixa etária de 45–54 anos e em pessoas com ensino superior completo.
Vale ressaltar que, de acordo com o próprio Ministério da Saúde e diversas evidências científicas reconhecidas internacionalmente, não existe nível de consumo seguro de álcool.
Alimentação
O Vigitel tem demonstrado um cenário persistentemente preocupante de aumento da prevalência de excesso de peso e obesidade. A série histórica 2006-2024 identificou que houve um aumento contínuo e expressivo de excesso de peso, que saltou de 42,6% em 2006 para 62,6% em 2024. Embora ambos os sexos mostrem aumento, ele foi maior entre as mulheres. Com relação à faixa etária, um dos destaques da pesquisa foi que a população de 18 a 24 anos registrou um aumento de 29,9% em 2019 para 41,3% em 2024, um dado bastante alarmante.

A prevalência de obesidade, por sua vez, mais que dobrou, passando de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024.
Com relação ao consumo de alimentos saudáveis e não saudáveis, os seguintes destaques podem ser observados:
– O consumo regular e recomendado de frutas e hortaliças manteve-se relativamente estável na série histórica, porém em um patamar baixo, variando de 33,0% em 2008 para 31,4% em 2024 para o primeiro e 20,0% em 2008 para 21,0% em 2024 para o segundo. É ainda mais preocupante notar que, apesar da estabilidade geral, houve reduções significativas no consumo regular em grupos específicos, como adultos de 35 a 44 anos e indivíduos com ensino fundamental completo e médio incompleto.
– Houve uma redução significativa no consumo regular de feijão na série histórica, de 66,8% em 2007 para 56,4% em 2024, mais acentuada entre os homens.
– Apesar da série histórica de 2007-2024 mostrar uma tendência importante de redução no consumo regular de refrigerantes e sucos artificiais, saindo de 30,9% em 2007 para 16,2% em 2024, chama a atenção um crescimento recente, iniciado em 2023 e mantido em 2024.

Embora o Vigitel já contasse com um indicador do consumo de alimentos ultraprocessados, ele passou por alteração metodológica na edição de 2024, dando início a um novo acompanhamento. A frequência de adultos que consumiram cinco ou mais grupos de ultraprocessados no dia anterior foi de 25,5% no conjunto das capitais. O consumo foi mais elevado entre homens (27,5%) do que mulheres (23,7%). Para a população total, a frequência tendia a diminuir com a idade, sendo significativamente maior entre indivíduos de 18 a 24 anos (45,5%) e entre aqueles com ensino médio completo e superior incompleto (29,4%).
Tabagismo
Como já havia sido indicado por dados preliminares divulgados há alguns meses, considerando o último período da pesquisa, a prevalência de tabagismo subiu em 2024, indo de 9,2% (2023) para 11,5%, aumento observado tanto para homens quanto para mulheres. Este dado é extremamente preocupante, pois indica uma quebra significativa na tendência histórica de queda.

No mesmo período (entre 2023 e 2024), o percentual de pessoas que fumam 20 cigarros ou mais por dia passou de 2,0% para 2,8%.
Com relação aos cigarros eletrônicos, o Vigitel vem mostrando uma tendência de aumento na experimentação (6,4% em 2019 para 8,4% em 2024), mas relativa estabilidade no consumo diário/ocasional.

Conclusões
Os resultados do Vigitel mostram que o Brasil precisa de políticas mais efetivas para atingir as metas do Plano DANT 2021-2030, que visa o controle das doenças crônicas não transmissíveis. As tendências atuais de consumo episódico pesado de álcool, tabagismo e consumo recomendado de frutas e hortaliças, por exemplo, estão todas aquém do necessário.
Ademais, a piora de indicadores nas faixas etárias mais jovens, como o aumento acelerado do excesso de peso e da obesidade no período recente, é um sinal de alerta para a saúde futura da população brasileira. Isso sugere que a próxima geração está sendo impactada mais precocemente por condições que tradicionalmente apareciam mais tarde na vida adulta.
Assim, o resultado do Vigitel 2024 sublinha a necessidade de políticas de saúde mais robustas e inovadoras para promover a saúde da população brasileira. Neste contexto, a tributação de produtos nocivos aparece como um destaque, pois ela é comprovadamente uma das medidas mais eficazes para desencorajar o consumo. Neste ano, o Congresso Nacional deve retomar os debates sobre as alíquotas do imposto seletivo aplicado em produtos de tabaco, álcool e refrigerantes, e é essencial garantir que elas sejam altas o suficiente para reduzir a prevalência de uso desses produtos.