O consumo de álcool é um dos principais fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis e gera custos econômicos diretos e indiretos para países e suas populações, considerando as despesas de saúde e a perda de produtividade para economias no mundo afora. No Brasil, estima-se 12 mortes por hora, de acordo com pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, e um custo para a sociedade que chega a R$ 18,8 bilhões com tratamentos e gastos previdenciários, como mostra a campanha Dose de Realidade. Entretanto, fala-se pouco sobre um outro dado estarrecedor e muito frequente nos últimos anos: nos registros de violência contra mulheres, há suspeita de consumo de álcool pelo agressor em pelo menos um quarto dos casos. 

pesquisa Vigitel, feita pelo Ministério da Saúde e divulgada no começo do ano, revelou que o consumo excessivo de álcool em uma única ocasião, chamado binge ou consumo episódico pesado, saltou 5% entre 2006 e 2024. O aumento foi observado, principalmente, entre mulheres, pessoas de 25 a 44 anos e com ensino superior completo.

Especialistas acreditam que esse crescimento do consumo – e logo, da violência contra mulheres, não há como dissociá-los – resulta de uma combinação de fatores, como a normalização das bebidas, presentes em qualquer ambiente; o marketing direcionado ao público feminino; e as vulnerabilidades de gênero, como sobrecarga do trabalho, responsabilidades financeiras e o trabalho doméstico. Não faltam evidências assegurando o papel do álcool como catalisador, aumentando a impulsividade, reduzindo freios e agravando conflitos em contextos já marcados por relações desiguais de poder. Quando essa dinâmica se soma à presença de armas e a antecedentes de violência doméstica, o risco para as mulheres aumenta ainda mais. 

Levantamento da Secretaria de Segurança Pública do DF (SSP-DF) indica que, entre março de 2015 e agosto de 2025, 31,4% dos autores de feminicídio declararam fazer uso de álcool no momento do crime. A investigação também ressalta que esse número pode ser um piso, e não um teto, já que há subnotificação, e nem sempre essa informação é registrada ao longo do processo de investigação.

A pesquisa O Papel da Arma de Fogo na Violência Contra a Mulher, do Instituto Sou da Paz, confirma a tendência. Segundo o estudo, nos registros de violência armada não letal contra mulheres, há suspeita de consumo de álcool pelo agressor em 25% dos casos. O percentual sobe para 35% quando a violência ocorre dentro de casa. O dado é ainda mais preocupante porque 45% das notificações não traziam essa informação. Ou seja, além de grave, o cenário ainda é parcialmente invisível. 

A ACT defende medidas regulatórias para restrição ao álcool, como políticas de preço, tributação, restrição ao marketing e à disponibilidade do produto, como as preconizadas pela Organização Mundial da Saúde. A reforma tributária é um exemplo de política pública voltada à saúde da população, com a definição de alíquotas mais altas para bebidas alcoólicas no imposto seletivo, que foi aprovado para incidir sobre produtos que causam mal à saúde ao meio ambiente, como cigarro, álcool e refrigerantes, entre outros.

O imposto seletivo não é apenas arrecadação: é, principalmente, prevenção e promoção da saúde. Modelagem recente conduzida por pesquisador da Fiocruz estima que o aumento de um R$1,00 na lata de cerveja poderia reduzir o consumo em cerca de 20% e evitar mais de 10 mil mortes por ano. A direção é clara: a tributação pode salvar vidas.

Foi em torno deste tema que a ACT, com a Vital Strategies e outros parceiros, enviou uma carta à primeira-dama, Rosângela Lula da Silva (Janja), a parlamentares mulheres e a ministras, chamando a atenção para que o compromisso com as mulheres precisa se refletir em atos regulatórios concretos, com efeitos a curto e médio prazo. Além disso, foi às ruas realizando uma ação de mobilização em que o mote era “Você pagaria mais um real na cerveja para evitar a violência contra as mulheres?”. Confira a cobertura aqui.