19 de março de 2025
Viviane Tavares
A Terra é azul. A célebre frase de Iuri Gagarin completa quase sete décadas, e a cor que ele avistava se referia a quantidade de água que cobre o planeta. Dessa água disponível, 97% estão nos mares e oceanos, portanto, águas salgadas, e apenas 3% são água doce. Dessa pequena porcentagem, pouco mais de 2% estão nas geleiras, sobrando apenas 1% disponível para consumo de toda a humanidade. De lá para cá, a importância deste azul também ganhou dimensões planetárias.
Em 1992, a Declaração Universal dos Direitos da Água foi proclamada pela Organização das Nações Unidas (ONU). O texto reconhece que o acesso à água potável é um direito fundamental de todos os seres humanos. Além disso, enfatiza a importância de proteger e preservar os recursos hídricos do mundo. Desde então, essa Declaração tem servido como base para conscientizar governos, instituições e a sociedade civil sobre a importância da água e a necessidade de garantir seu acesso para todos.
Apesar de ser um bem comum e essencial para a manutenção da vida, entretanto, a água tem sido utilizada para outros fins, e esse impacto afeta não só a saúde humana como a de todo o planeta. As indústrias de álcool, tabaco e produtos ultraprocessados estão entre as grandes poluidoras do mundo, e a produção desses produtos, que fazem comprovadamente mal à saúde, exige um consumo excessivo de água.
Somente para produzir um litro de cerveja, são necessários 298 litros de água, de acordo com o relatório Water Footprint Network. O caso das bebidas açucaradas também é alarmante: para fabricar apenas um litro, são necessários entre 300 e 600 litros de água, variando conforme a fonte do açúcar e os demais ingredientes, como informa a pesquisa ‘Ultra-processed foods, a global threat to public health’. E não acaba por aí: o ciclo de vida de cada cigarro avulso consome 3,7 litros de água. No total, são 22 bilhões de toneladas de água gastas por ano para apenas esse fim, segundo a Organização Mundial da Saúde.
E tem mais: esses produtos ainda produzem resíduos que poluem rios e mananciais, além de toneladas de lixo que param nos mares e oceanos, afetando a vida marinha e quem depende dela. Sabe como isso se dá? Seguem gotas de exemplos:
– 4,5 trilhões de bitucas são descartadas por ano no mundo. Elas contêm componentes plásticos e substâncias tóxicas que poluem os solos e mares.
– As águas residuais da indústria do álcool são altamente tóxicas para os ecossistemas.
– 90% do plástico encontrado nas praias brasileiras tem origem em embalagens de alimentos ultraprocessados.
Caso Brasil: ‘Coca-Cola não mata a sede, nem molha as plantas’
Um dos exemplos concretos que vivemos aqui no Brasil é abordado em matéria recentemente publicada pelo veículo O Joio e o Trigo, que mostra a luta de 800 famílias pelo direito à água. Desde a instalação de uma das maiores poluidoras de plástico do mundo, a Coca-Cola, no município de Itabirito, em Minas Gerais, a população deste e do município vizinho, Brumadinho, sofrem com a escassez de água, por conta do processo fabril da maior engarrafadora do mundo, que se instalou há uma década na região. O imbróglio envolve poder público, força política e econômica. E diversas famílias sem o direito a um bem fundamental reconhecido em todo o planeta Terra. Afinal, para que serve a água? Para quem deve servir esse bem comum?