Editorial

Nesta primeira edição do ano, entrevistamos Sandro Tôrres de Azevedo, publicitário, professor e pesquisador de comunicação, que coordena o laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o Compasso. Fizemos uma parceria com a ACT para uma campanha nas redes sociais, criada por alunos de publicidade, a respeito das doenças crônicas não transmissíveis. Sandro mostra como usar a publicidade para comunicar sobre saúde, os ingredientes necessários para uma boa campanha e como combater a desinformação, especialmente no que diz respeito à saúde pública. 

Na área de tabaco, estamos com um edital aberto do programa InovACT para financiamento de projetos, que podem ser desenvolvidos por meio de estratégias como produção de evidências, pesquisas, iniciativas de comunicação, mobilização, monitoramento e advocacy. São voltados a entidades sem fins lucrativos, como organizações da sociedade civil, instituições de ensino superior e institutos de pesquisa.  No ACT Legal, destaque para o julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre a validade da norma da Agência Nacional de Vigilância Sanitária que proibiu a fabricação e a venda de cigarros com sabor artificial, que foi suspenso porque um dos ministros pediu vista. O caso aguarda definição desde 2018.

Já na área de alimentação, participamos de artigo publicado na revista Social Science & Medicine, em que expomos as atividades políticas corporativas do agronegócio, indústrias de ultraprocessados e supermercados no processo de discussão da reforma tributária no Brasil, entre janeiro de 2023 e abril de 2024.  

E, na do álcool, lançamos um Quiz, parte da nossa campanha Dose de Realidade, que leva a pessoa a ter várias reflexões a respeito dos impactos do consumo das bebidas alcoólicas na saúde e no meio ambiente, e como tentar evitá-los. 

Boa leitura.

Anna Monteiro  | Diretora de Comunicação


Entrevista

Sandro Tôrres de Azevedo

Como a publicidade pode promover saúde? Nesta edição do Boletim da ACT, conversamos com Sandro Tôrres de Azevedo, publicitário, professor e pesquisador na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), e do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde, da Fundação Oswaldo Cruz (ICICT/Fiocruz). Além do ensino e pesquisa, Sandro coordena o Laboratório de Comunicação Publicitária Aplicada à Saúde e à Sociedade da UFRJ, o Compasso, um projeto de extensão em que os alunos de publicidade desenvolvem campanhas de saúde pública. A campanha Sua versão mais fera, que você vai conferir ao longo de fevereiro em nossas redes sociais, é uma parceria da ACT Promoção da Saúde com o Compasso.

Para muitos profissionais da saúde e da sociedade civil, a publicidade é percebida como inimiga da saúde pública, considerando a propaganda de produtos nocivos como tabaco, álcool e ultraprocessados. Como a publicidade pode ser usada no sentido inverso, ou seja, para promover saúde?

A gente precisa ressignificar a ideia do que é publicidade, porque a maioria das pessoas costuma relacioná-la apenas com a comunicação de marcas corporativas, com interesse de lucro. E hoje a gente tem um conceito mais amplo, que entende a publicidade como a propaganda e a comunicação de uma marca. E “marcas” não são necessariamente corporativas: uma prefeitura é uma marca, um ministério, uma secretaria de saúde, uma organização não-governamental, um coletivo. Então, nesse conceito mais alargado, está a comunicação persuasiva não apenas de interesse comercial, mas também com outras finalidades, como a promoção da saúde e do bem estar, por exemplo, ou o fortalecimento da democracia. Então a publicidade enquanto área de conhecimento tem muito a contribuir com a saúde e com o interesse público, mas esse é um enfoque mais recente. Na academia, a publicidade foi muito mais vista como objeto de análise do que como objeto de conhecimento, e meu esforço tem sido tentar integrar essas pesquisas que existem sobre publicidade de saúde mas que estão dispersas.

Quais são as características e os ingredientes necessários em uma campanha publicitária de promoção da saúde?

Hoje eu tenho um laboratório de pesquisa, um grupo de pesquisa cadastrado no CNPq, que é o PESSOA, que é o acrônimozinho para Publicidade, Saúde e Sociedade.  E a nossa pesquisa principal é justamente discutir essas epistemologias da publicidade e saúde.

Dentro dessa pesquisa principal, a gente tem dois grandes ramos que têm a ver com as campanhas de publicidade e saúde públicas, e análise das campanhas de publicidade e saúde privada. No âmbito público, o maior problema que a gente identifica hoje é que principalmente os entes comunicativos públicos – estados, municípios e União – estão usando uma lógica de comunicação de massa e privilegiando veículos e meios de comunicação que só alcançam parcialmente o público final, com lógicas publicitárias de 15, 20 anos atrás. 

É claro que colocar um comercial na televisão, um spot de rádio, uma mídia exterior é muito importante e vai continuar valendo como mídia para alcançar a população. Entretanto, é preciso que a publicidade consiga se comunicar com o público-alvo em um circuito que a gente chama de ecossistema publicitário, que precisa estabelecer uma relação ciberpublicitária com o público-alvo. Isso quer dizer o quê? O público tem que ser convidado para interagir com a marca durante a campanha.

Não existe mais possibilidade de uma campanha de comunicação ter sucesso sendo unidirecional. E neste processo que a gente chama de ciberpublicidade, onde há diálogo, que acontece o fenômeno do convencimento, da persuasão, que é intrínseco à publicidade com a finalidade de produzir algum tipo de bem público de saúde. Algumas indústrias relacionadas à saúde, a indústria químico-farmacêutica, planos de saúde já entenderam essas lógicas do ecossistema publicitário e da publicidade que é interativa, de experiência e de relevância, que são os pilares da ciberpublicidade. A gente precisava estar fazendo coisas dessa mesma linha para interesse público também. E é essa a minha luta hoje, é essa a minha denúncia, o meu alerta, que a gente possa, nas campanhas de interesse público, operar a publicidade para ter sucesso, tal como as marcas corporativas estão usando.

O fenômeno da desinformação em saúde não é novo, mas é crescente. Como o conhecimento da publicidade pode contribuir com ações para enfrentar esse desafio?

O fenômeno da desinformação, ao contrário do que muita gente pensa, não é um problema do jornalismo. É justamente um problema da publicidade. Porque se a desinformação é “fake news”, por outro lado, ela é publicidade verdadeira. Se uma notícia é falsa, não é jornalismo, ela é uma propaganda ideológica. Então a área da publicidade tem muito a contribuir com o problema da desinformação. 

Existem vários caminhos que eu poderia sugerir a serem tomados, mas eu acho que o principal deles é deixar de ter uma postura passiva para ter uma atitude ativa. Quando alguma fake news da saúde se inicia e ganha dimensão, pessoas do governo, das secretarias, todo mundo corre atrás para arrefecer a crise. Essa é uma postura passiva. Então, é o tempo inteiro esperando uma crise explodir para depois tentar conter a crise. Quando, na verdade, antes das crises acontecerem, os entes comunicativos tinham que estar proativamente já cooptando a população através de informação de qualidade. Porque se a informação chegar na população e a população estiver informada, a fake news não cola, a desinformação não vinga. A gente precisa inverter de uma postura passiva para uma postura ativa. 

Os sistemas de produção de fake news e desinformação que são operados, existem pesquisas que comprovam isso, especialmente do NetLab e da UFRJ, são muito operadas pelos atores da extrema direita. E eles estão nadando de braçada na frente, porque compreenderam essa lógica ciberpublicitária. Eles conseguem mobilizar o interesse, conseguem mobilizar a relevância dos temas, agendam os temas e conseguem dialogar com a população, fazendo com que a população seja um multiplicador da sua mensagem. Então, é preciso haver uma contra ofensiva a isso tudo, por parte do governo e da sociedade civil organizada, que pode buscar mobilizar a atenção e o interesse da população, abastecê-la de informação legítima e interessante para que a própria população seja multiplicadora de informação de qualidade, ficando muito menos suscetível à ação da desinformação.

Nestes anos de experiência do Compasso, qual campanha feita por vocês ficou marcada na memória? E por que? 

Um dos nossos xodós foi uma campanha de prevenção de gravidez na adolescência que a gente fez em parceria com a Prefeitura de Niterói. Uma campanha feita durante a pandemia, com os alunos reunidos remotamente, e a gente entendia que, apesar da gravidade e da importância da comunicação em torno da COVID-19, os outros problemas de saúde permaneciam. 

Primeiro, avaliamos as campanhas que o Ministério da Saúde já tinha feito sobre o tema. Uma delas, ainda do governo Jair Bolsonaro, que foi uma parceria entre o Ministério da Saúde, ainda coordenado pelo Mandetta, com o Ministério dos Direitos Humanos, liderado pela Damares Alves. E eles fizeram uma campanha de prevenção de gravidez na adolescência a partir da ideia da abstinência sexual, que está errado em muitos níveis, inclusive porque a abstinência sexual não é nem método preventivo. Então, o próprio governo estava negando a ciência e gastou uma fortuna em uma campanha de prevenção, em nível nacional, para falar uma coisa que não ajudou em nada, só atrapalhou o processo. 

Dentro do Compasso, nós discutimos e escolhemos democraticamente os temas, junto com os alunos, e eles ficaram muito mobilizados com essa situação. E conseguimos o apoio da Prefeitura de Niterói, progressista, que topou nossa ideia. Como a saúde é uma área multidisciplinar, fizemos uma pesquisa prévia com vários especialistas, com conhecimentos sobre prevenção de gravidez precoce na medicina, na psicologia, enfermagem, assistência social, e por aí vai.

E a gente elaborou uma campanha que ficou muito legal, com personagens fictícios, que interagiam através de diversos perfis, em várias redes, e tudo convergia para o site da gente, que funcionava como um hub, enquanto a Prefeitura de Niterói usava seus canais de mídia oficiais para escoar a campanha. Então, mesmo com uma onda de Covid justamente no mês da campanha no ar, nossos posts tiveram o maior engajamento do período, então conseguimos transformar o público consumidor da campanha em multiplicador da nossa mensagem, fomos muito elogiados e conseguimos um ótimo alcance.

Sua versão mais fera

As redes sociais da ACT Promoção da Saúde estão veiculando a campanha digital Sua versão mais fera, uma parceria com o Laboratório de Comunicação Publicitária Aplicada à Saúde e à Sociedade da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o Compasso. A campanha busca dialogar com o público jovem,  chamar a atenção para os principais fatores de risco das doenças crônicas não-transmissíveis ,e para a conexão entre vida saudável e políticas públicas. 

Escolas livres de ultraprocessados

Como a sociedade civil e população podem atuar para que estados e municípios adotem leis que restrinjam o acesso a ultraprocessados dentro do ambiente escolar? É o que a ACT Promoção da Saúde busca responder em sua nova publicação, Advocacy para a promoção de ambientes alimentares saudáveis nas escolas, que tem apoio do Instituto de Defesa de Consumidores (Idec).

A obra é voltada para integrantes da sociedade civil, conselhos de direitos, profissionais da saúde, famílias, educadores e estudantes que queiram contribuir na transformação das escolas em ambientes mais saudáveis.

InovACT 2025

O InovACT, projeto da ACT Promoção da Saúde que financia programas inovadores de controle do tabaco, está com inscrições abertas para o edital de 2025 até 9 de março.

Entidades sem fins lucrativos, como organizações da sociedade civil, instituições de ensino superior e institutos de pesquisa, podem apresentar propostas relacionadas com temas prioritários de controle do tabaco, incluindo novos produtos, sinergias entre controle do tabaco e Agenda 2030, políticas de tributação e impactos do tabaco no meio ambiente, entre outros descritos no edital. 

Esses temas podem ser desenvolvidos por meio de estratégias como produção de evidências, pesquisas, iniciativas de comunicação, mobilização, monitoramento e advocacy. Em conformidade com a política de diversidade da ACT, projetos que contemplem equidade racial e desigualdade social vão receber um bônus na avaliação.


Social Science & Medicine 

A revista Social Science & Medicine publicou um artigo expondo as atividades políticas corporativas do agronegócio, indústrias de ultraprocessados e supermercados no processo de discussão da reforma tributária no Brasil, entre janeiro de 2023 e abril de 2024. Em Disputes over the agenda to promote adequate and healthy eating – How the agri-food sector interfered in the Brazilian Tax Reform, os autores demonstram as diferentes estratégias e ações empreendidos pelos agentes comerciais que serão regulados e que podem prejudicar o avanço das políticas públicas a favor da saúde da população. 

Bruna Hassan Kulik, Vitória Moraes, Paula Johns, Marília Albiero e Marcello Baird, da equipe da ACT Promoção da Saúde, são algumas das pessoas que assinam o estudo. 

Parcerias expandem o debate sobre cigarros eletrônicos

Entre dezembro e janeiro, a ACT estabeleceu parcerias com influenciadores digitais da área da pediatria, hebiatria e parentalidade e com o podcast Naruhodo, que trata de ciência, tecnologia e outros assuntos, para expandir o debate sobre os cigarros eletrônicos. Os conteúdos produzidos abordam diferentes tópicos, entre eles as estratégias de marketing usadas pela indústria e os malefícios causados por esses produtos para a saúde,  inclusive pelo uso passivo.

Conforme mais evidências que comprovam os danos dos cigarros eletrônicos vão se acumulando, estabelecer esse tipo de parceria é essencial para atingir uma audiência maior, especialmente mães, pais e os próprios jovens. Enquanto o retorno dado pelo público aos conteúdos foi extremamente positivo, também foi possível notar que muitas pessoas ainda desconhecem ou não dão a devida atenção ao problema.

O Naruhodo pode ser ouvido pelo Spotify ou outros agregadores de podcast e alguns dos vídeos mais recentes realizados em parceria com influenciadores estão listados na página da campanha Cancela o Vape.

Anvisa cancela visita à BAT em Londres 

Em janeiro, uma reportagem do Jota revelou que servidores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária fariam uma viagem para Londres para visitar a British American Tobacco (BAT), uma das maiores fabricantes de produtos de tabaco do mundo. O fato preocupou a comunidade de controle do tabaco no Brasil,  especialmente devido à pressão que vem sendo realizada pela indústria para tentar liberar cigarros eletrônicos e outros novos produtos de tabaco. Manifestações contrárias foram realizadas nas redes sociais e para a agência.

Cigarro eletrônico

A Anvisa, então, optou por cancelar a viagem. Em nota, a agência esclareceu que “os DEFs [dispositivos eletrônicos para fumar] estão proibidos no Brasil e não há qualquer fato novo que justifique reabrir a discussão sobre o tema”. A ACT divulgou uma nota pública sobre o caso reiterando que a decisão do cancelamento foi acertada, porém reafirmando que o anúncio de uma visita a uma unidade da BAT sem objetivo estabelecido foi um fato preocupante.

Participe de Quiz e ganhe um brinde

consumo de álcool

As bebidas alcoólicas fazem parte do dia a dia da sociedade. Mas essa normalização de um produto nocivo traz consequências sérias, como mortes e o desenvolvimento de doenças, como câncer, depressão, demência, entre outras. Além disso, o álcool prejudica até quem não bebe ao favorecer episódios de violência doméstica e pública, como acidentes de trânsito. Neste Quiz, parte da nossa campanha Dose de Realidade, temos a oportunidade de refletir sobre esses impactos e sobre como tentar evitá-los. Vamos lá? 

Dia Distrital da Prevenção ao Consumo de Álcool 


Brasília comemora pela primeira vez, em 20 de de fevereiro, o Dia Nacional do Combate às Drogas e ao Alcoolismo com ações de prevenção voltadas a crianças e adolescentes.  A iniciativa prevê conscientizar a população sobre o consumo de bebida alcoólica e de drogas e seu impacto à saúde.  

Como atividades para celebrar o dia haverá um debate no auditório da Câmara Legislativa do Distrito Federal, além de diversas atividades interativas, inclusive algumas promovidas pela ACT, entre elas o Quiz acima e a banquinha com drinks com doses de realidade. 

Agenda de Segurança Alimentar e Nutricional 

A FIAN Brasil acaba de lançar a publicação Conflitos de interesse no Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional: Conceitos e Propostas de Ação contra a Captura Corporativa, que está disponível para download gratuito. O webinar de lançamento contou com a participação de Vitória Moraes, nutricionista e pesquisadora da ACT Promoção da Saúde, ao lado de Elisabetta Recine, presidente do Consea, João Peres, diretor de O Joio e o Trigo, e mediação de Mariana santarelli, assessora da FIAN. 

Agrotóxicos em ultraprocessados

O Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) lançou a terceira edição da pesquisa Tem veneno nesse pacote, em que constatou a presença de agrotóxicos em produtos ultraprocessados como bolos prontos, biscoitos, bebidas lácteas e produtos plant-based, feitos à base de plantas. Mais uma vez, o glifosato foi o agrotóxico mais encontrado nas amostras. 

O julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre a validade da norma da Agência Nacional de Vigilância Sanitária que proibiu os aditivos nos cigarros, marcado para acontecer em 14 de fevereiro, foi suspenso depois que o ministro Luiz Fux pediu vista do processo. A expectativa é que ele encerraria mais de uma década de debates judiciais sobre o assunto, poria fim a mais de 40 processos judiciais, e, finalmente, barraria uma estratégia de negócio da indústria do tabaco para atrair jovens ao tabagismo e dificultar a cessação.

O uso de aditivos em produtos de tabaco, como os de sabores e aromas, tem o objetivo de torná-los mais atraentes e palatáveis e, assim, atrair consumidores ao tabagismo e facilitar as primeiras tragadas de produtos comprovadamente nocivos à saúde, que causam forte dependência, mais de 70 doenças e risco de morte precoce.

Mais informações no nosso release.


FICHA TÉCNICA

Edição: Anna Monteiro

Redação: Juliana Waetge, Rosa Mattos, Viviane Tavares

Mídias sociais: Victória Rabetim

Direção de arte: Ronieri Gomes