Em uma edição histórica, após 12 anos de sua última realização, o Desafio da Ponte — que ligou os municípios de Niterói e Rio de Janeiro — atraiu cerca de 5 mil corredores. Entre eles, estavam profissionais de saúde, atletas olímpicos, paralímpicos, de alta performance e amadores.

Ao cruzarem a linha de chegada, era possível notar a alegria dos atletas por vencerem o desafio da meia maratona (21 km), mas logo depois vinha o incômodo: a patrocinadora master do evento era um produto nocivo à saúde, a cerveja.

Para o atleta paralímpico Márcio Nunes, essa estratégia invade um espaço que deveria estimular hábitos saudáveis com o incentivo a um produto prejudicial. “Precisamos de patrocínio, claro, mas entendemos que essa é uma estratégia para divulgar a marca e o produto, estimulando as pessoas a fazerem a degustação. Enfim, não tem a ver com o que prezamos para o esporte. Até porque, para a prática esportiva, o consumo de álcool não é recomendado”, avalia.

A ACT, em parceria com o Laboratório de Vida Ativa da UERJ, ouviu esses atletas no Desafio da Ponte, que demonstraram preocupação com o fato de um evento esportivo ser patrocinado por uma marca de cerveja. Diversas evidências científicas já mostram que as estratégias de marketing de bebidas alcoólicas são uma ameaça à saúde pública. A publicidade desses produtos estimula o consumo, promovendo a banalização de uma substância comprovadamente nociva, tanto para o indivíduo quanto para a sociedade. Por que, então, atrelá-la a uma prática esportiva?

O coordenador do LaVA UERJ tenta responder a essa questão. “O Desafio da Ponte volta a acontecer com a principal patrocinadora sendo a indústria do álcool. Essa é uma antiga estratégia, mas uma nova abordagem da indústria para marcar presença em eventos de saúde e bem-estar, como vimos no passado com o tabaco. Um evento lindo, lotado, um ambiente familiar marcado pela interferência da indústria do álcool por todos os lados. É lamentável”, confirma.

De acordo com a Lei nº 9.294/1996, que restringe a publicidade de bebidas alcoólicas no Brasil, as sanções se aplicam apenas a produtos com mais de 13% de teor alcoólico. Com isso, a lei deixa de fora a maior parte das marcas de cerveja, bebida que representa quase 90% do mercado nacional.

Para o atleta de alta performance e professor de educação física Henrique Lima, esse patrocínio ainda pode impactar crianças e estimular o consumo precoce. “Pagamos um valor exorbitante para participar da corrida e depois recebemos uma medalha com a marca de uma cerveja. Na minha opinião, álcool não combina com esporte. Vou chegar em casa, mostrar e pendurar a medalha na frente da minha filha. Ela pode associar a minha vitória a uma cerveja. Parece que estou incentivando. Somos espelho para os nossos filhos. Ao mesmo tempo em que há propaganda para não induzir crianças ou menores de 18 anos a beber, somos recebidos em eventos familiares como esse com o patrocínio de um produto nocivo”, reflete.

Cerveja também é álcool. Menos na lei! Já é hora de atualizá-la.

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