30 de outubro de 2026
Angélica Brum
O Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS) advertem: cuidar da saúde bucal contribui para deter o avanço das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT). O alerta se baseia em fatores de risco comuns. O tabagismo, o consumo de álcool e a alimentação rica em açúcares e ultraprocessados estão por trás tanto das DCNT mais frequentes, como condições cardiovasculares, diversos tipos de câncer, diabetes e doenças respiratórias crônicas, quanto dos principais agravos bucais, como cárie, doença periodontal e câncer de boca.
O Relatório Global sobre a Situação da Saúde Bucal da OMS (2022) destaca que as doenças bucais representam um dos maiores e mais negligenciados desafios de saúde pública no mundo, afetando cerca de 3,5 bilhões de pessoas. O documento defende a transição do modelo odontológico cirúrgico e restaurador tradicional para um modelo preventivo, com foco no controle de fatores de risco evitáveis, principalmente o consumo de açúcares livres, o uso de tabaco e álcool.
De acordo com o relatório, os açúcares livres, presentes em alimentos e bebidas ultraprocessados, constituem a causa primária da cárie: as bactérias da boca transformam essas substâncias em ácidos que corroem aos poucos o esmalte e a dentina. O tabaco, em todas as suas formas, favorece a doença periodontal grave, uma inflamação crônica que compromete os tecidos de suporte e pode levar à perda do dente, e figura entre as principais causas do câncer de lábio e cavidade oral. O consumo de álcool também atua como determinante direto desse câncer, e o risco cresce substancialmente com a combinação dos dois produtos.
A OMS chama a atenção para o impacto dos determinantes comerciais da saúde, enfatizando a ação de indústrias transnacionais de alimentos, bebidas adoçadas, álcool e tabaco. Para a organização, a promoção agressiva de produtos ricos em açúcares livres, a publicidade voltada ao público infantil e o lobby contra medidas fiscais e regulatórias representam ameaças à população global, em especial às pessoas que vivem em países de média e baixa renda.
Diante desse cenário, a OMS propõe um conjunto de ações que protegem a saúde bucal e previnem as DCNT. Entre elas: impostos mais altos sobre bebidas adoçadas e restrição à publicidade de ultraprocessados voltada a crianças; controle mais rigoroso do álcool e do tabaco, com aumento de tributos, advertências obrigatórias e limitação dos pontos de venda; fluoretação da água de abastecimento e acesso a cremes dentais fluoretados com alíquota zero; programas integrados nas escolas; e capacitação de equipes multidisciplinares para diagnóstico precoce, orientação preventiva e cuidados básicos nas unidades de saúde.