25 de abril de 2025
Juliana Waetge
Você já ouviu falar no termo “greenwashing”? Essa prática, que em português é por vezes traduzida como mentira verde, consiste em estratégias de marketing enganosas feitas por empresas poluidoras para tentar mostrar preocupação com o meio ambiente, mas que não se refletem em mudanças que realmente poderiam beneficiar o planeta. Isso é extremamente problemático porque essas ações podem passar a impressão para o público de que as corporações seriam sustentáveis. Essa imagem positiva, por sua vez, estimula investimentos ou a compra de produtos, quando na verdade as empresas que praticam o greenwashing estão contribuindo para a destruição do meio ambiente e as mudanças climáticas.
Ações do tipo são bastante comuns nas indústrias do petróleo e da mineração, por exemplo. Enquanto destroem ecossistemas inteiros em seus processos de extração e produção, elas gastam enormes quantidades de dinheiro em propagandas e conteúdos patrocinados em veículos de mídia falando de ações de responsabilidade social corporativa que, na prática, pouco ou nenhum efeito têm. Com as indústrias de tabaco, álcool e ultraprocessados, não é diferente.
Como mostrado pela campanha Duplo Impacto, realizada pela ACT em parceria com as organizações Gaia, Vida Sem Plástico, GT Agenda 2030, Oceana, Greenpeace e Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), essas indústrias também são grandes poluidoras. Como se não bastasse fabricarem produtos que fazem mal à saúde, elas destroem o meio ambiente – e também realizam ações de greenwashing. Confira alguns exemplos abaixo:
Coca-Cola faz diversas campanhas publicitárias de reciclagem, mas divulga informações falsas e não cumpre nem as próprias metas
A Coca-Cola já lançou várias campanhas voltadas para a promoção da reciclagem, como a “Recycle Me”, vencedora do prêmio Cannes Lions de 2024. Ao mesmo tempo, a empresa foi acusada de mentir sobre números de reciclagem: garrafas da marca, publicizadas como “100% recicladas”, na verdade não são produzidas inteiramente de materiais reciclados, como apontam a Organização Europeia do Consumidor, Client Earth e ECOS.
Segundo o Atlas do Plástico, a Coca-Cola é a maior poluidora de plástico do mundo, produzindo 88 bilhões de garrafas descartáveis todos os anos. Além do mais, a empresa anunciou ainda na década de 1990 metas para conteúdo mínimo reciclado que não foram atingidas até hoje. Assim, enquanto ganha prêmios publicitários por suas campanhas, a Coca-Cola continua a poluir o planeta com suas embalagens plásticas.
Philip Morris patrocina mutirão de limpeza de lixo e bitucas em mais de mil cidades
A Philip Morris, uma das principais empresas do ramo de tabaco, patrocina iniciativas de recolhimento de bitucas, como uma atividade realizada no Dia Mundial da Limpeza. Essas ações pontuais, no entanto, são completamente insuficientes para enfrentar o problema da poluição ambiental causada pelas 4,5 trilhões de bitucas descartadas todos os anos, que liberam compostos tóxicos e microplásticos nos solos e mares.
Isso é claramente uma estratégia de marketing usada pela indústria para melhorar sua reputação – e, justamente por isso, a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT), tratado internacional ratificado pelo Brasil, determina que os países não deveriam permitir nenhum tipo de patrocínio da indústria do tabaco.
Heineken patrocina iniciativa de desenvolvimento sustentável enquanto gasta centenas de litros de água para produzir um litro de cerveja
Por fim, a Heineken também possui várias iniciativas ditas de sustentabilidade. Em uma delas, a empresa se juntou ao BNDES para financiar ações de reflorestamento e preservação de bacias hídricas. O que as ações de marketing da Heineken não mostram, no entanto, é que a produção de um litro de cerveja gasta 298 litros de água. Além disso, as águas residuais do processo são altamente tóxicas para o ambiente, entre outros impactos causados pela indústria de bebidas alcoólicas.
Como mostrado em um dos posts da campanha Duplo Impacto, a cerveja só é verde na cor da garrafa.