Este é o título do artigo de André Luiz Oliveira Silva, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, e Laryssa Moyses Ricardino, da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal Fluminense, que mostra os riscos à saúde dos dispositivos eletrônicos para fumar, como doenças cardiovasculares, respiratórias e câncer. Em várias situações esses riscos chegam a ser comparáveis aos do consumo de tabaco convencional. O texto foi publicado na Revista Brasileira de Cancerologia.

Segundo os autores, a alegação de que os cigarros eletrônicos seriam 95% menos danosos do que os cigarros convencionais se baseia em um relatório de 2015 da Public Health England (PHE), que usou a estimativa de um artigo de consenso de especialistas de 2014 que, por sua vez, empregou a técnica de análise de decisão multicritério (MCDA) de avaliação de riscos. O painel do MCDA tinha 12 membros e somente uma reunião ocorreu, sendo que alguns autores receberam financiamento ou tinham alguma ligação com empresas de tabaco ou de cigarros eletrônicos. 

A metodologia deste artigo de 2014 apresentou falhas significativas: não foram aplicados critérios sistemáticos de seleção de especialistas, nem feita uma revisão abrangente das evidências, além de misturar critérios díspares de dano, incluindo impactos ambientais e econômicos junto de danos à saúde, levando a uma classificação altamente subjetiva.

As revistas The Lancet  e British Medical Journal (BMJ) publicaram editoriais contundentes apontando que os números do governo do Reino Unido não eram sustentados por evidências, destacando que a  afirmação era prematura e potencialmente  enganosa, e indicaram que a PHE agregou valor ao fato de esses produtos serem 95% menos danosos do que cigarros convencionais, não atendendo aos padrões mínimos de evidência. No entanto, apesar dos alertas, o artigo publicado na PHE foi amplamente disseminado, primeiramente na mídia, depois em eventos científicos e em processos legislativos a adoção desse número. Como resultado, popularizou-se  a ideia de que mais de 90% de todas as doenças desapareceriam sem necessidade de medicamentos ou tratamentos. Esse número logo passou a fazer parte do discurso público, de documentos de políticas e de peças de advocacy da indústria de produtos de tabaco e nicotina.

A divulgação dessas informações, escrevem os autores, parece ter favorecido crenças errôneas por meio do fenômeno denominado “efeito da verdade ilusória” (EVI). Esse fenômeno acontece uma vez  que a repetição de uma afirmação faz com que as pessoas a considerem mais verídica, mesmo na ausência de evidências sólidas.  

Segundo Silva e Ricardino, o uso simultâneo de cigarro convencional e eletrônico eleva ainda mais os perigos. O vape está ligado ao início do tabagismo, agravamento da saúde mental e aumento da vulnerabilidade à dependência entre os jovens. A sugestão dos autores é de uma comunicação fundamentada em evidências, priorizando a proteção dos jovens e o acompanhamento rigoroso dos produtos que contêm nicotina.

Para saber mais sobre os cigarros eletrônicos, acesse nossa campanha Cancela o Vape, que mostra 10 motivos para que esses produtos continuem a ser regulados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária como proibidos para fabricação, venda e marketing.