Janeiro Sóbrio, Janeiro Seco, Janeiro sem Álcool. São muitos os nomes para designar a iniciativa que, na esteira do Janeiro Branco, dedicado à saúde mental, incentiva a população a passar 30 dias sem tomar bebida alcóolica. Como era de se esperar, a campanha chegou às redes e também, sem surpresa alguma, vimos o assunto ser capturado pela, adivinhe, indústria do álcool.

Perfis dos mais descolados, declaradamente engajados com pautas ligadas à representatividade de gênero, raça, orientação sexual etc., replicaram mensagens, que, no fim das contas, propunham a cantilena das marcas: “beba com moderação.” As menções ao fato de que a Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde afirmam não existir dose segura apareceram…nos comentários.

Os fabricantes também desprezam determinações oficiais no que dizem respeito à dose-padrão de álcool, a unidade que estabelece a quantidade de etanol nas bebidas, recurso importante na avaliação dos indicadores de consumo. Recentemente, o Ministério da Saúde se alinhou à OMS e estabeleceu em 10 gramas a medida de referência.

Mesmo assim, especialmente nesse último mês, vimos reportagens baseadas em pesquisas financiadas pela indústria. Estudos que defendem uma quantidade maior de etanol por dose, 14g. Quatro gramas fazem toda a diferença , quando se pensa critérios técnicos, uma variante para levantamentos epidemiológicos que servem de base para a criação de políticas públicas. Afinal, estamos falando em 40%.

Devemos, portanto, nos guiar pelas evidências científicas e as recomendações das autoridades sanitárias: por menor que seja, qualquer quantidade de álcool favorece o surgimento de câncer, doenças cardiovasculares e outros agravos. A única forma de eliminar completamente os riscos é evitar o consumo de álcool. Seja em janeiro, fevereiro, março ou dezembro.

Angélica Brum e Laura Cury