4 de fevereiro de 2025
Anna Monteiro
Escrever sobre câncer nunca é fácil, as armadilhas de incorrer em erros, a queda em simplificações e as dores aparecem ao digitar cada umas das seis letras dessa palavra que reverbera de uma forma diferente na cabeça de todo mundo. Viver a doença e acompanhar quem passa por tratamento é um desafio grande, exaustivo, assustador. Por mais que a ciência e a medicina avancem em pesquisas e tratamentos, o diagnóstico da doença dá um susto e leva a muitas inquietações.
Pensando nessas dificuldades e em como dar apoio a pacientes e a seus familiares, a União Internacional para o Controle do Câncer, UICC, criou o Dia Mundial do Câncer, no ano 2000, com o apoio da Organização Mundial da Saúde. A meta era chamar a atenção para a prevenção e o diagnóstico precoce, e para a possibilidade de cura da maior parte dos tumores malignos. A data é celebrada em 4 de fevereiro em todo o planeta. Nós, da ACT Promoção da Saúde, nos unimos ao Movimento Todos Juntos Contra o Câncer, o TJCC, e à Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia, Abrale, e participamos da campanha Vá de Lenço, promovida pelas duas entidades.
É uma ação pequena, sem custos, mas que atinge milhares de pessoas. A graça dela está na simplicidade e na capacidade de emocionar: basta quem apoia a causa fazer uma foto usando um lenço na cabeça, postar no seu Instagram e marcar a hashtag #VáDeLenço.
Todos os anos compartilhamos as fotos da nossa equipe engajada nessa causa. Neste ano, pedi às pessoas que trabalham conosco para escreverem alguma coisa. Algumas delas já passaram por tratamento, estão em tratamento ou se curaram. Outras estão com alguém querido na família vivendo esse momento difícil ou perderam alguém próximo pela doença.
Bárbara Chagas, da área de recursos humanos, acompanha a mãe. Ela diz que o diagnóstico chega como uma tempestade, sem pedir permissão ou se importar com planos e sonhos: “É quando uma jornada que ninguém deseja ou merece começa, por ser um teste de perdas e ganhos, não só para o paciente oncológico, mas para toda família. Mas, à medida que encaramos com valentia, coisas acontecem. Ficamos mais fortes, o crescimento espiritual e fé se aprofundam e com isso nos faz abraçar a vida, lembrando de que esta jornada é única.”
A nossa estagiária de direito Elisangela Aparecida teve a notícia ano passado, ao pegar o resultado de uns exames: “Quando obtive o meu diagnóstico de câncer, me senti perdida, como se tivesse perdido o rumo, as rédeas da minha vida. Mas com o apoio da minha religião, família e amigos, percebi que não estava sozinha e que a minha fé, perseverança e vontade de viver era maior que o meu medo de morrer. E graças a Deus, hoje estou aqui, para conseguir contar a minha história e voltar a ter as rédeas da minha vida.”
Com o envelhecimento da população e diagnósticos mais precisos, são esperados mais de 700 mil novos casos de câncer no país este ano, de acordo com as estimativas do Instituto Nacional de Câncer, a principal ferramenta para o planejamento de políticas públicas para a doença.
Os tipos de tumor maligno mais diagnosticados no Brasil são o de pele, sem ser melanoma [tipo mais agressivo de câncer de pele], seguido pelo de mama, próstata, cólon e reto, pulmão e estômago. O Inca passou a incluir entre os mais frequentes os de pâncreas e fígado, este estando relacionado a infecções e doenças hepáticas crônicas. Já o de pâncreas tem como principais fatores de risco a obesidade e o tabagismo.
Mesmo o câncer tendo um componente genético, grande parte destes tumores pode ser prevenida, evitando-se o fumo, inclusive de cigarros de palha, charutos, vaporizadores ou outras formas mais atuais, como snus, o consumo de bebidas alcoólicas e de produtos ultraprocessados. Faz parte da prevenção e proteção, ainda, manter o peso corporal adequado, praticar atividades físicas, amamentar, realizar exames preventivos ginecológicos e urológicos, manter a vacinação em dia, especialmente contra hepatite B e HPV, e evitar a exposição ao sol entre 10h e 16h.
Neste texto e nesta data, eu não queria falar de medos nem perdas, sentimentos tão comuns e naturais que emergem ao ouvirmos a palavra câncer. Numa entrevista, Leoni Margarida Simm, socióloga e fundadora da AMUCC – Amor e União Contra o Câncer, referência em instituição de apoio a pacientes, explica de forma muito apropriada a situação: “Os medos? Eu enfrento. Coragem é isso, acho que todo mundo que é corajoso tem medo”. Leoni, que era membro da Rede ACT, partiu ano passado, depois de 24 anos encarando seus medos. A ela, dedico esse texto. Também ao meu irmão, que se foi em 4 de julho depois de seis anos de tratamento e deixou meu mundo bem diferente, estranho, incompleto. Mas prefiro lembrar dele com alegria e, como Santo Agostinho disse, ele está comigo, só que do outro lado.
Mas este não é um texto triste nem quero trazer temores à tona. É sobre a vida acontecendo e o apoio necessário e como a perda pode ser transformadora para quem a viveu tão cedo, como aconteceu com a nossa coordenadora do projeto alimentação, Marília Albiero: “Minha mãe faleceu aos 50 anos por insuficiência respiratória decorrente de uma metástase [quando o câncer se espalha pelo corpo] que se iniciou com um câncer de mama, por sua vez potencializado por mais de três décadas de tabagismo. Eu tinha apenas 20 anos e esta experiência marcou a minha vida, pois sempre me via pensando se conseguiria viver mais que ela e o que estaria sob meu controle para evitar o mesmo desfecho. Diante disso, desde os 30 anos eu faço os exames de rotina com extrema pontualidade, exercendo no dia a dia a adoção de um estilo de vida saudável.”
Laura Cury, coordenadora do projeto álcool, também acompanha o pai, diagnosticado ano passado. O que foi um baque, ela diz: “Foi um susto enorme, daqueles que tiram o chão. Mas com o tempo, o tratamento foi trazendo uma certa normalidade dentro do possível, e as coisas foram se ajustando. Estava tudo indo bem, até que veio a metástase—outro golpe difícil de assimilar. Ainda assim, seguimos firmes, e o tratamento voltou a dar bons resultados”. Para Laura, o que mais impressiona e fortalece é a maneira como ele encara tudo isso: com força, positividade e uma tranquilidade que fazem toda a diferença. “Ele sabe da gravidade da situação, mas sua atitude ajuda não só a ele, como também a todos nós que estamos ao seu lado. Isso nos dá forças para seguirmos juntos. Como ele diz: ‘coragem sempre!’”
Se esse texto fosse um podcast, eu o fecharia com Milton Nascimento e com o que disse a Francyne Helena de Souza, analista técnica do projeto alimentação da ACT, uma sobrevivente, como ela se identifica, e que considera a música Maria Maria seu hino de cura: “Quem traz no peito essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida.”
Confie. Viva. Apoie quem passa por esses momentos. E Vá de lenço!