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NÃO É FUMAÇA NÃO (22/6/2009)
Pedro Paulo Rangel - O Globo

O primeiro cigarro que fumei, no meio dos anos 60, era um pouco menor do que os cigarros comuns, e a marca era Capri. Eu devia ter entre 15 e 16 anos e estava cursando o primeiro ano Clássico do Instituto La-Fayette — “entra burro e sai vedete” —, na Tijuca. A uns 300 metros havia um bar chamado Berengo, e na hora do recreio íamos lá dar nossas tragadas, entre goles de Crush e de Grapette. Naquela época, filtro ainda era uma coisa relativamente nova e atendia pelo enganoso nome de ponta de cortiça. Eram ainda sem filtro o Hollywood e o Continental, por exemplo, o que forçava quem usava estas marcas a alguns rituais diferenciados, tais como: evitar que o papel grudasse nos lábios e provocasse uma incômoda feridinha; ou livrar-se dos pedacinhos de fumo presos pela saliva, mas sem cuspi-los. Eles deveriam ser catados com as pontas dos dedos, enrolados como se uma meleca fossem, e finalmente atirados para o lado com estudada indiferença. Nos filmes do cinema Madri, ali ao lado, as aulas eram de como portar cigarros, cigarrilhas e charutos e qual a melhor maneira de fumá-los, com charme e elegância. Bette Davis — difícil de ser igualada neste quesito — antes de tragar deixava por alguns segundos que uma nuvenzinha compacta de fumaça flutuasse indecisa entre o nariz e os lábios entreabertos. Dificílimo! Em “Uma vida roubada”, Bette se superava num papel duplo: passava um cigarro aceso para ela mesma!

 

Hoje sou, felizmente, um ex-fumante e, de brinde, portador de DPOC, Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, mal incurável e progressivo, causado em 80% dos casos pelo consumo de cigarros. Em 1998 fumava três maços de Galaxy por dia. Filtro branco. Light. Ué, não existe chocolate light? Pão, leite, manteiga, bolo, café, macarrão, biscoito, sorvete, maionese, linguiça, até feijoada light? Pois sim! Em indivíduos predispostos, o alcatrão e sua centena de substâncias tóxicas, encontradas num único cigarro — light ou não —, ao ser inalado em combustão e em altíssima temperatura, destrói irreversivelmente os alvéolos pulmonares, cuja função é, além de promover a oxigenação do sangue, filtrar nossos pulmões das impurezas encontradas no ar, assim como defendê-los de vírus e bactérias. Descobri minha nova condição quando, depois de morar por 40 anos no Rio Comprido, mudei-me para a Prédia, na Avenida Atlântica, em 2001. Inspirado pela overdose de beleza que via da minha janela, consegui deixar definitivamente de fumar e passei a andar no calçadão; depois comecei a fazer hidroginástica; em seguida aprendi a nadar; e, além dos meus exercícios aeróbicos, fazia musculação e... fiquei doente. Ou seja, descobri que estava doente. Aqui vai uma pergunta dirigida apenas aos fumantes seniores: você se lembra que, se deixasse um cigarro aceso esquecido no cinzeiro, ele apagava sozinho? Bastava então dar uma desberlotada na ponta endurecida e acendê-lo de novo. Alguma coisa faz com que, hoje, o cigarro deixado de lado consuma-se sozinho, e o amigo tem que ir catar seu maço e acender mais um cigarro, não é assim? Que tal?

Existe em São Paulo uma Sociedade Brasileira de Portadores de DPOC, com algumas conquistas e ainda muitas batalhas, e o telefone é (0xx11) 5506-1217. Hoje não vamos exibir aquelas fotos de pulmões bichados, mas gostaria de lembrar que o percentual de fumantes passivos portadores de DPOC cresce assustadoramente. Você, eu, seu marido ou mulher, a festa, a fila, o restaurante ou aquele bebezão lindo agradecem a atenção dispensada.
 

Pedro Paulo Rangel é ator.

 
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