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Tá, Baco? (22/11/2005)
ACTBR

FONTE: JORNAL O GLOBO

JOÃO XIMENES BRAGA

19/11/2005

Tá, Baco?

Veja bem, não é que eu desgoste de não-fumantes. Eu cumprimento não-fumantes. Até tenho amigos não-fumantes. Acredito mesmo que existam não-fumantes de alma cinza. Se consensual, defendo a união civil entre fumantes ativos e passivos, e acredito, sim, que isso possa aparecer na TV, mesmo com crianças na sala. Mas sem hipocrisia: se dissesse que ficaria orgulhoso de ter um filho antitabagista, estaria mentindo.

Cheguei ao restaurante e a aniversariante estava em pé, fumando, na área externa, cercada de 4/5 dos convidados. Perguntei se a festa era ali mesmo. Ela apontou um lounge na parte interna:

- Não, é lá. Aliás, deixa eu entrar, senão fica chato.

Dentro, um quinto de convidados não-fumantes gozava de sofás e solidão.

No dia seguinte, encontrei amigos num bar. Vazio. Menos onde se podia fumar.

- Em qualquer lugar as áreas de fumantes estão sempre mais cheias que o resto - comentou um amigo que faz colunismo social e roda por todos os eventos. - Parece haver mais fumante que não fumante na cidade mas, se você reparar, poucos fumam de fato.

A explicação para isso eu escutara anos antes, quando ainda trabalhava na redação do jornal, de uma amiga que reclamava do odor mas estava sempre no fumódromo.

- Se a fumaça incomoda, por que vem pra cá?

- Porque as pessoas legais estão aqui, ora - dizia ela, hoje casada com um fumante.

Pois é. Fumantes são nojentos, cheiram mal, têm manchas nos dentes e menor expectativa de vida. Mas são legais.

Não são neuróticos com saúde e longevidade; têm plena consciência de que são efêmeros e humanos. Herdeiros de Baco, não temem pagar o preço pelo prazer, o que é uma forma mais tranqüila de levar a vida do que se apegar a ela com unhas, dentes e gérmen de trigo. Se não se dão tanta importância nem se levam tão a sério, o corolário é ter senso de humor.

Tudo isso é mau comportamento, é péssimo exemplo - mas costuma ser também a receita de gente divertida, logo muito não fumante prefere a companhia deles. Agora, releia o parágrafo anterior, invertendo as negativas. Forma-se a definição do chato farisaico.

Preconceito? Sim, claro. A gente convive com as diferenças, mas se agrega pelas semelhanças. Como diz a música da Calcanhotto, há os que gostam do bom gosto e dos bons modos; há os que gostam dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem. Escolha sua tribo e não encha o saco da outra. Por isso apóio as recentes medidas para banir o fumo de espaços públicos fechados no Rio. Há o motivo racional: ninguém é obrigado a ser incomodado pelo vício alheio. E o irracional: os antitabagistas, que defendem a lógica da saúde em tom de intolerância religiosa, ficam longe da gente. Bom pra todos. Agora que eles (os

farisaicos) venceram a batalha, já se pode dizer: o incômodo sempre foi recíproco. Não apenas por que os senhores da virtude pediam para apagar o cigarro, mas por que não são o tipo de gente com quem os fumantes façam questão de conviver.

Quem sofre mais nessa história, creio, é o não fumante que, apesar do cigarro, gosta dos fumantes. Vai ficar ao relento para ter amigos bacanas. Ou, como vaticinou uma amiga:

- Os não fumantes já se ferraram: ficam sozinhos na mesa para a gente fumar lá fora, e é na hora do cigarro que vêm as melhores fofocas. Mas não deixa eles saberem disso!

Claro, pode piorar. O cerco pode se fechar e, num cenário cada vez mais possível de restrição às liberdades individuais, o fumo ser totalmente banido. Não sei se, então, mudarei de opinião. Agora só sei que, enquanto a Vigilância Sanitária aperta a fiscalização nos restaurantes badalados, fumantes vão se agrupar em botequins infectos jamais fiscalizados, entre ovos coloridos e coxinhas gordurosas. Ficarão por lá, isolados, excluídos, escrevendo livros, compondo músicas, bolando filmes. E um dia, quando os antitabagistas farisaicos menos esperarem, os fumantes vão... Bem, não se preocupem. A tosse vai atrapalhar.

www.oglobo.com.br/online/blogs/ximenes

 
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