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Matilda e os cigarros (26/7/2012)
Cora Rónai

Não conheço a minha comadre Matilda Penna em pessoa. Faz tempo que não vou a Salvador, onde ela mora, e faz tempo que ela não vem ao Rio, onde moro eu. Nós nos conhecemos de blog, como acontece tanto hoje em dia, passamos a nos querer bem e viramos comadres porque a minha gata Matilda ganhou o nome dela. Minha comadre tem uma alma bonita, brasileira e delicada, que se revela quando ela escreve – e, embora não tenha escrito muito ultimamente, a alma continua lá, linda como sempre. Na semana passada, por causa da crônica em que lembrei o fumacê do século vinte, ela postou um longo comentário no internetc.:

“Ah! Cigarros…!

Comecei a fumar com treze anos (por que eu quis, ninguém influenciou, ao que me lembre), em mil novecentos e sessenta e sete, ano em que filmaram “Bonnie and Clyde”, “Belle de jour”, “Casino Royale”, “The graduate”, “You only live twice”, “Lo straniero”,”Todas as mulheres do mundo” e, principalmente, “Terra em transe”.

Ano tão lindo, Matilda tão linda, loura, jovem e baiana, fumava cigarros Elle, longos, dourados, tinha cigarreiras lindas, isqueiro Zippo dourado, que quase não usava, acendiam nossos cigarros, é, acendiam sim, naqueles anos enfumaçados, ao som de “Penny Lane”, “All you need is Love”, “To Sir, with love”, “There’s a kind of hush”, “Can’t take my eyes off you”, “I say a little prayer”, “San Francisco (be sure to wear flowers in your hair)”, “Somethin’ stupid”, but I love cigarros, o cheiro, a fumaça, o pegar entre os dedos e pensar, o segurar com os cotovelos juntos ao corpo e deixar queimar, era bom, fumar é bom, foi bom, se não fumasse nem tinha chance comigo, o cheiro era estranho, não seduzia, mas cigarro misturado com whisky (era assim que se escrevia, uísque ainda não existia) era altamente afrodisíaco, e eu gostava de cigarro, de fumar, afinal, num ano em que fizeram o primeiro transplante de coração, qualquer coisa que tivesse, mas ninguém falava ainda em ter, era só trocar, o mundo evoluia, e fumar era bom e Matilda era jovem e tudo era belo, eram anos lindos, altamente coloridos, pernas de fora, barrigas de fora, minhas lembranças são boas, coloridas, enfumaçadas, distaaantes….

Deixei de fumar em dois mil e dez, com cinqüenta e cinco anos (também porque eu quis, de repente, na virada do ano resolvi que não fumaria mais, e não fumei), foi o ano de “Comer, rezar, amar”, “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1”, “Toy Story 3”, enfim, não lembro bem de outros, estava mal, enfartei por falta de cigarro, perdi o que rolava pelo mundo, enfim, lembro de Justin Bieber (só do nome, acho que nunca ouvi nada e se ouvi, não guardei), restart das calças coloridas e acho que só, esse ano foi tumultuado para mim, descobri DPOC, descobri diabetes, menopausa, parei de comer açucares, gorduras, agora só como verduras, frutas, grelhados, cozidos, vinho sem álcool, parei de escrever, foi feito o primeiro transplante de cara do mundo, foi o ano do apagão no Nordeste, teve eclipse total do sol, eclipse lunar, Mario Vargas Llosa ganhou o Nobel, teve “Dalva e Herivelto: uma canção de amor” na televisão, eu enfumaçava os olhos às vezes de dor, às vezes de saudades, às vezes por nada mesmo, chorei muito, nunca mais fumei, foi difícil, foi duro, devia ter tomada algum remédio, foi na tora que comecei, foi na tora que deixei, começar foi fácil e prazeroso, deixar foi difícil, doido, conquistado.

Ainda gosto de cigarro, do cheiro, do cheiro de charutos, da fumaça, do ritual, do gestual, só não fumo mais, mas podem fumar perto de mim, não me incomoda, só não posso acender, sou viciada, não posso fazer isso, assim como podem comer feijoadas e broinhas e pães e bolos e brigadeiros junto de mim, só não posso comer nada disso, também sou viciada e comida, assim como cigarro, virou veneno para mim, o corvo gritou nunca mais e eu ouvi.

Agora sou avó de um e meio (outro ou outra para fim de fevereiro), agora uso pernas escondidas, nem sei onde fica a barriga (nem tento saber), cabelos grisalhos (não uso tinturas), mais magra, aprendendo a andar de novo, fazendo pilates, só sinto falta do escrever, que perdi, mas perdi a juventude também e não sinto falta dela. Agora está bom, mas está bom pelo passado, quer dizer, o que passei fez de mim isso, não me arrependo do cigarro, era outra época, outros costumes, outra Matilda.”

o O o

Várias pessoas falaram da sua relação com o cigarro lá no blog. Lilly, que fumou durante 45 anos, largou o fumo pela causa mais inusitada e engraçadinha:

“No dia 1° de junho de 2008 a gatinha de minha vizinha, de uns cinco meses, sumiu. Primeiro, procuramos na casa dela. Nada. Fomos para a rua debaixo de chuva, perguntando a todos que encontrávamos se tinham visto uma gatinha branca e preta… mas nada da Pitty. Fiz uma promessa a mim mesma que, se encontrássemos a gatinha, largaria de fumar no mesmo instante. Quando a minha amiga voltou para casa, revirou tudo e… achou a gatinha, dormindo numa gaveta que revistáramos milhões de vezes! Eram 17h30. Contente e já calma, fumei o último cigarro da minha vida. Presenteei a dona da gatinha com os maços intactos e uma porção de isqueiros.”

(O Globo, Segundo Caderno, 26.7.2012)

 
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