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Liberdade de escolha em um mundo dominado pela propaganda é liberdade de verdade? (31/8/2006)
Paula Johns

Fonte: http://www.omelete.com.br/cinema/artigos/base_para_artigos.asp?artigo=3271

Obrigado por Fumar


 

Por Marcelo Hessel
17/8/2006
 

Obrigado por Fumar
Thank You for Smoking
EUA, 2006
Comédia - 96 min

Direção: Jason Reitman
Roteiro: Jason Reitman, baseado em livro de Christopher Buckley

Elenco: Aaron Eckhart, Maria Bello, Cameron Bright, Adam Brody, Sam Elliott, Katie Holmes, David Koechner, Rob Lowe, William H. Macy, J.K. Simmons, Robert Duvall, Kim Dickens, Connie Ray, Todd Louiso

Liberdade de escolha em um mundo dominado pela propaganda é liberdade de verdade?

A pergunta fica no ar o tempo todo em Obrigado por fumar (Thank you for smoking, 2005). O personagem principal, o lobista Nick Naylor (Aaron Eckhart), acredita que sim. Na democracia do consumo, afinal, ninguém força ninguém a comprar nada. Acontece que os fatos - e os seus próprios atos - desmentem Nick Naylor. O lance é saber se ele está sendo sincero, ingênuo ou terrivelmente irônico.

Fazer lobby - representar os interesses de uma entidade e influenciar outras - é uma profissão legalizada nos Estados Unidos. Não que ela seja bem vista, pelo contrário. O caso de Nick é quase cômico. Ele personifica publicamente a indústria do tabaco, ou seja, tenta convencer pessoas e instituições de que cigarro não é ruim. Por que faz isso? "Pelo mesmo motivo dos condenados em Nuremberg... Para pagar minha hipoteca", zomba, comparando-se aos nazistas julgados no pós-Guerra.

Falando diretamente ao espectador, em narração em off, Nick é como a voz, o alter-ego, do diretor Jason Reitman, estreante em longas-metragens e filho do diretor de Os Caça Fantasmas, Ivan Reitman. O texto é afiado, equilibra drama e comédia sem nunca ficar rasgado ou meloso demais. Eckhart tem o seu charme, e Nick é indiscutivelmente bom no que faz - tão bom que não é difícil ficar do seu lado.

Na trama, o lobista trava mais uma batalha contra os antitabagistas. O senador democrata Ortolan Finistirre (William H. Macy) quer instituir nos maços a imagem de uma caveira, para mostrar às pessoas que o cigarro faz mal à saúde. Na defesa dos interesses de seu patrão, Nick contesta o senador com base na teoria universal do ser liberal. Diz que só fuma quem quer, que todo mundo sabe que cigarro mata (inclusive todo fumante), e que os fumantes não querem a imagem de uma caveira lhes encarando a toda hora. É a liberdade de escolher.

Mas a briga é desleal: no meio tempo Nick exercita sua persuasão. Paga milhões para que o velho Homem de Marlboro, hoje canceroso, pare de reclamar na mídia. Procura um produtor de Hollywood para ver se consegue reemplacar o cigarro na telona, como nos filmes charmosos de antigamente. O produtor, interpretado por Rob Lowe, não apenas concorda como oferece, quem sabe, Brad Pitt e Catherine Zeta-Jones fumando um cigarro depois de transarem no espaço sideral... Não há, realmente, propaganda subliminar mais poderosa.

Aí é que está. Que liberdade de escolha é essa, quando vivemos soterrados num consumismo cada vez mais dissimulado? Há um diálogo primoroso na metade do filme que ilustra um pouco a situação.

Nick repete ao seu filho, Joey (Cameron Bright), nos fins de semana em que a mãe deixa o garoto ficar junto do pai, que o importante é argumentar. Nick diz: "Suponhamos que você defenda o sorvete de chocolate; eu, o de baunilha. Você dirá que o seu é a melhor coisa do mundo. Eu direi que a melhor coisa do mundo é poder escolher entre chocolate e baunilha". "Mas com isso você não me convenceu de que baunilha é melhor", reclama Joey. "Mas eu não quero te convencer, quero só provar que estou certo e você errado", retruca o pai.

É de se condenar essa moral maleável? Há momentos em que Jason Reitman vende a idéia de que liberdade de escolha existe, sim - e o seu lobista chega perto de se heroificar. E há essa evidência gritante de que o livre mercado é a mentira perfeita do capitalista-golpista, vendendo baunilha aos baldes para quem sequer gosta de sorvete. O mais interessante de Obrigado por fumar é que fica difícil saber no que o personagem/diretor acredita de verdade. Minha opinião? Reitman é o cínico do século.

 
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